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21 de dezembro de 2014

As palavras que eu diria

Recentemente um amigo meu, dos antigos, passou por uma dor daquelas para as quais não há remédios: a perda de sua mãe. Não pude estar com ele nos momentos difíceis que se seguem a um acontecimento trágico como esse. Eu mesmo estava imerso em outra tragédia familiar quando tudo aconteceu. No entanto, fiquei pensando nas palavras que eu teria para dizer ao meu amigo, no afã de (será possível?) aliviar sua dor.
Ocorreu-me relembrar a esse amigo o significado daquilo que sua vida foi para sua mãe. Diria que seguramente sua mãe jamais teria desejado a inversão da ordem natural (é triste considerar, mas são os filhos que devem ver seus pais partirem, jamais o contrário!). Cumpriu-se, mesmo de forma antecipada, a ordem natural dos acontecimentos. Mas nós sabemos que essa constatação não basta. Eu prosseguiria então ressaltando que a sua mãe, a quem tive o privilégio pessoal de conhecer, teve a graça de ver que o filho fez o caminho mais difícil, que contrariou a logica do sistema desigual e construiu um percurso que lhe assegura condições melhores do que aquelas vividas por seus pais. E isso não é pouca coisa, definitivamente. Muitos sãos os pais que colocam no mundo filhos que serão "seguidores de sina", que reproduzirão nas suas vidas nada mais do que o reflexo da vida de seus pais, como uma maldição, um demônio familiar.
A mãe desse amigo não provou esse amargo: viu o filho alçar vôo e ganhar o horizonte. Escutou uma menina encantadora chamá-la de vovó... teve uma passagem em grande estilo.
Acontece que Deus não pode se privar de companhias como a dela, e houve por bem chamá-la de volta. Certamente os banquetes no céu ganharam em qualidade. Quem sabe se os anjos não ameaçavam uma nova rebelião e Deus, demonstrando a sabedoria que lhE atribuem, preferiu não pagar pra ver, livrando-se, assim, das consequências terríveis que esse tipo de motim costuma trazer (veja-se o que aconteceu da primeira vez!)? A imortalidade cristã talvez andasse ressentida de ver seus colegas olímpicos sempre de mesa farta, enquanto amargavam a frugalidade das refeições quase monacais! Certamente passarão melhor agora, o que seria perfeito se não nos tivessem deixado com essa baixa significativa. Ganham as divindades, perdem os homens.

6 de outubro de 2014

O analfabeto funcional da política



















O pior analfabeto, diz o conhecido texto de Bertold Bretch, é o analfabeto político... acrescentaria que, ao lado dos que não se interessam pela política, estão os analfabetos funcionais da política. Inocentes úteis que papagaiam discursos de uma elite à qual não pertencem, mas da qual talvez almejem participar (e até, talvez, já se acreditem participantes), esse grupo numeroso de porta-vozes do retrocesso, que condenam socialmente movimentos sociais, que bradam gritos de uma pretensa moralidade política (que por alguma razão, ou desrazão, acreditam faltar ao PT e sobrar ao PSDB), representam um mal igual, senão maior, aos que (pensam que) não estão nem aí.
Você que estudou em faculdades particulares, porque o FHC, doutor em sociologia da USP, manteve e aprofundou o sucateamento das instituições públicas, além de nada fazer para ampliar e promover o acesso dos mais pobres a um ensino que, apesar de tudo, mantinha elevado grau de qualidade; você não tem motivos para trazer a velha lógica de volta (porque é disso que se trata a hoje tão apregoada alternância democrática, que conduz de volta ao pior, e desconsidera uma permanência legitimada pelo voto!).
Você que entrou na universidade pública, mesmo que oriundo de uma família em que os país não tiveram a oportunidade de, sequer, concluir o segundo grau, e que foi beneficiado por uma conjuntura de expansão e democratização do acesso ao ensino superior; você não tem justificativas para querer que o tempo da exclusão retorne.
Se você melhorou de vida no governo do PT, mas não quer a continuidade, faça-nos o favor de anular o seu voto, em vez de anular o futuro de muitos. Vá para Miami!

Bruno S. Souza
(Este texto expressa a opinião de seu autor, não necessariamente a de todos que escrevem para o blog)

12 de dezembro de 2013

A enchente é um fenômeno político

Por que será que, ano após ano, as enchentes "surpreendem" as autoridades? A Rede Globo, por exemplo, começou a se tornar o que é graças à cobertura ao vivo que realizou sobre a fatídica enchente de 1966. De lá pra cá, entre dezembro e março sempre tem Natal, Inundação e Carnaval! 
Ninguém deveria se demonstrar surpreso com os cataclismos estivais! Tudo colabora para sua ocorrência: fatores meteorológicos, sócio-econômicos e, principalmente, políticos. A enchente é um fenômeno político: o sistema de drenagem insuficiente (ou sua não-existência), a ausência de políticas habitacionais, a vista grossa para o arrasamento da natureza pelas grandes empresas que destroem os rios (destruindo suas matas ciliares). Tudo isso está diretamente relacionado com o resultado que as urnas consagram. 
Do mesmo modo que a seca e sua miséria se explicam pela política, a enchente guarda esse parentesco, essa filiação, com a classe governante. Pode-se, sem muito esforço, culpar o morador das palafitas, das beiras dos valões, dos subúrbios esquecidos: vocês jogam lixo nas ruas, os bueiros entopem, o lixo volta para vocês, numa espécie de jogo cíclico perverso; mas a coleta de lixo, as políticas de ocupação da terra, as obras de infraestrutura a a correta fiscalização das atividades que degradam o meio ambiente, isso é atribuição dos governantes. 
Cada bueiro entupido significará, nas próximas chuvas veranis, algumas centenas de notas de real para bolsos que não são os nossos. Assim, a chuva significa uma grande oportunidade: será que todo o dinheiro que sai dos cofres federais rumo aos municípios chega ao seu destino? Será que o montante recebido pelos prefeitos é integralmente utilizado para a solução dos problemas? Será que o orçamento feito em situação de calamidade pública esconde algo? Muitas questões e uma saída emprestada do Riobaldo de Guimarães Rosa: "eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa."

O papel que se joga no chão tem culpa. O papel que não se cumpre, tem ainda mais.

Bruno Silva

19 de setembro de 2013

Pizzas, ratos e Coca-Cola


Walt Disney e Coca-Cola: dois símbolos da cultura dos USA. Imagine o Mickey Mouse bebendo Coca-Cola. Imaginou? Agora imagine a cabeça do Mickey dentro da garrafa de Coca! Isso nada tem de Tio Sam! Absurdos como esse são reservados para uma geração Coca-Cola de terceiro mundo!
O caso do consumidor que contraiu graves problemas de saúde após ingerir o refrigerante de uma garrafa que continha pedaços de rato, recentemente divulgado na grande mass media, gera indignação geral e doses de humor negro (humor caramelo IV, para ser mais exato!); mas a piada é, também, uma forma de protesto. Um tratado filosófico não geraria a mesma comoção que um meme nesses tempos de internet. A mensagem, por incrível que pareça, pode dizer tanto mais quanto menos palavras utilize.
Por falar nisso, quem acompanhou a maratona no STF pode notar a prática dos discursos herméticos. Um palavrório arcaico e recheado de latim. E teve ministro gastando o seu latim em votos de duas horas para dizer o que todo mundo entenderia com uma simples frase: tudo acabará em pizza no julgamento do mensalão! E pizza, sabemos muito bem, faz boquinha pra Coca-Cola. Os ratos, dessa vez, do lado de fora da garrafa!


Bruno Silva

9 de junho de 2013

Falecido conto do vigário, conto do Vigário falecido, sei lá...

Foto tirada no São João Batista. Cristo Redentor ao fundo. 
Morar na área nobre do Rio não é nada barato, como já sabemos. Ter o direito de dividir espaço com as amendoeiras, na Zona Sul,não é para qualquer mortal. Nada de surpreendente nisso. Agora, fui tomar conhecimento de que a vizinhança com as raízes do gramado também não é para qualquer defunto: o preço de um jazigo perpétuo no São João Batista - em Botafogo -pode chegar à vultuosa quantia de 300 mil reais!
Assustou? Então imagina isso: seus ossos descansando aristocraticamente no cemitério carioca e, de repente, não mais que de repente, para citar Vinícius de Moraes (que aliás jaz no São João Batista, assim como Tom Jobim, Drummond e tantos outros), sendo exumados sem autorização da família, indo parar sabe-se lá em qual cemitério! Foi o golpe de que tomei conhecimento assistindo ao noticiário da Record: um corretor que vendia o mesmo jazigo para várias pessoas; isto sem a autorização legítima dos antigos proprietários, num esquema de exumação fraudulenta.
 É o velho golpe do conto do Vigário, com o requinte macabro de estar associado à venda de tumbas! Nunca foi tão difícil viver, morrer e continuar morto aqui na boa sociedade carioca!

Para quem quiser ver a reportagem: http://noticias.r7.com/jornal-da-record/videos/edicao/?idmedia=51afdf860cf26f34e0263af5

Bruno Silva

16 de maio de 2013

Desculpe incomodar sua viagem

O sujeito entra no ônibus e permanece de pé, fitando os passageiros. Depois de uma breve pausa, começa a falar:
- Boa tarde, senhores passageiros! Desculpe incomodar o sossego da sua viagem. Eu sou ex-presidiário, paguei meu débito com a sociedade e estou aqui para saber se algum dos senhores pode me abençoar com uma oportunidade. Muitas vezes o ex-presidiário volta a cometer crimes, a roubar, porque a sociedade não lhe dá outra oportunidade. Eu estou aqui para pedir esta oportunidade para os senhores. Quem puder estar me abençoando com qualquer quantia, que Deus o abençoe. Aqueles que não tiverem como ajudar, que Deus abençoe também. Esse dinheiro, senhores passageiros, será para comprar balas e doces para vender nos ônibus, podendo, assim, levar o sustento para minha família sem precisar voltar ao mundo do crime. Eu nunca mais quero roubar! Obrigado senhores passageiros!
O sujeito começa a percorrer o corredor do ônibus. Alguns passageiros fingem estar dormindo (que é a maneira que muitos encontram para escapar a essas e outras situações cotidianas nos ônibus -sobretudo para não ceder o assento a quem de direito!), outros fixam o olhar pela janela. Alguns entregam moedas.
O sujeito recolhe tudo, agradecido, e põe-se novamente de pé, de costas para o motorista. Ele conta o montante e desabafa:
-Dez reais e quarenta e cinco centavos!... senhores passageiros, a passagem custa dois e setenta e cinco. Vai me sobrar sete reais e pouco! Deus e os senhores são testemunhas de que estou aqui me humilhando para conseguir o meu sustento, mas muitos de vocês endurecem o coração quando veem alguém necessitando de ajuda. Peço desculpas aos que contribuíram, mas eu agora vou assaltá-los! Não quiseram me dar, então eu tomo! 
O sujeito saca um revólver da cintura enquanto anuncia o roubo. Ele recolhe o dinheiro de todos, os celulares, relógios, jóias e até alianças de casamento! Ao final, informa que aquilo foi provocado por eles mesmos, que não souberam ser generosos. Manda o motorista abrir a porta e, para surpresa geral, paga a passagem antes de descer.
Os passageiros, atônitos, custam a acreditar que aquilo lhes sucedeu. O irreal do acontecimento parece informar que tudo se trata de um pesadelo coletivo, do qual acordarão antes do ponto final. Mas nós sabemos que isso não acontecerá. Eles continuarão dormindo. Todos continuaremos a dormir. Estamos no país do sono. Até quando?

Bruno Silva

16 de abril de 2013

Maioridade penal no Brasil?

Maioridade penal no Brasil é questão para debates acalorados. Toque no assunto quando estiver em uma mesa de bar com seus amigos e lá se vai a noite por água abaixo! Periga até sair briga no boteco, com polícia convocada e todo mundo indo parar na cadeia (pense bem: um bando de marmanjos em plena maioridade penal trocando tapas quando os argumentos já não bastam).
Existem algumas formas distintas e talvez complementares de se enxergar o problema. Em primeiro lugar: o que fez e continua fazendo com que a juventude ponha uma pistola (real ou de brinquedo) na mão e saia para o ganho nas ruas? Em algum momento, parece, alguém não cumpriu seu papel (pais, Estado, etc.). Podemos nos perguntar o porquê dessa omissão, e o texto não acabaria mais. Peço vênia para deixar esta questão para ser resolvida em momento apropriado. Encarar o problema dessa forma pode parecer ideológico, demonizador do Estado e vitimizador do delinquente. É aquela velha história: "conheço uma pessoa que catava latinhas e hoje é empresário", "pessoas de bem sempre encontram uma maneira honesta de ganhar a vida", etc. Afastemo-nos desta discussão, tomemos um gole e pensemos no concreto da situação. Assim, chegamos a uma segunda forma de se abordar o problema: deixando de lado a "querela da culpa", podemos analisar mais de perto a proposta de "solução do problema". O sistema prisional no Brasil (e no mundo) reúne as características desejadas para fornecer uma solução definitiva? O que há de terapêutico em se deixar um ser humano trancado num ambiente de falência da moral e dignidade por, digamos, 12 anos? Antes, portanto, de se decidir com quantos anos mandar alguém para a prisão, pensemos na própria prisão em si: funciona, corrige, "reabilita"? Vigiar e punir é um livro que ajuda a pensar na questão. Não adianta assistir ao Tropa de Elite, porque as conclusões lá apresentadas sobre Foucault, sinceramente, até me dão vontade de pedir pra sair!

Bruno Silva

24 de janeiro de 2013

O homem do futuro e o jabuti do passado

O The Sun, jornal britânico, publicou uma matéria sobre como será o homem de 3012. Em mil anos teremos menos cérebro, seremos mais altos e teremos dedos mais longos, olhos maiores, bocas menores... Já não bastavam as previsões apocalípticas para o futuro do planeta; agora os cientistas nos mostram como seremos em mil anos. Acho melhor nos preocuparmos em como faremos esse planeta e os seus destruidores (nós) durarmos tanto tempo! Se não houver saída mais razoável, vou me mudar para dentro de uma caixa de som velha e viver, pelo menos, mais trinta anos, tal como o jabuti da zona oeste. Para quem ainda não sabe, a Manuela, um jabuti (talvez ficasse mais correto escrever jabota, que é a fêmea da espécie) que havia sumido há 30 anos, foi encontrada recentemente dentro de uma caixa de som. Depois que o antigo proprietário da caixa esticou o pernil, o jabuti já ia para o lixo junto com a caixa de som (provavelmente viria para Seropédica!) quando, alertados por vizinhos, a família retirou o adorável quelônio do monturo e o reintroduziu ao seio do lar. Desnecessário dizer, claro está, que lá se foi a paz do bicho!

Bruno Silva

17 de janeiro de 2013

"Não pise"

"Não pise a grama" ou "Não pise na grama"? Tanto faz, contanto que você não pise! Para não pisar, aliás, nem a crase atrapalha: "Não pise à grama" está errado do ponto de vista gramatical, mas nem por isso se deve sair sapateando sobre o verde todas as vezes que a placa deixar furo! Bom, o que eu to querendo dizer é que, a rigor, não se deve pisar na grama quando houver proibição expressa (muito embora nos pareça impossível cumprir esta tola regra). Mas o que eu fiquei sabendo na semana passada me chamou a atenção: é proibído pisar nas asas dos aviões! Putz, ainda bem que isso está registrado, vai que algum desavisado...!
Fiquei discutindo o tema com minha mulher: esse aviso deve ser para os famosos demônios verdes que costumam viajar nas asas dos aviões, conforme os variados relatos, até então injustamente qualificados de fantasiosos. A razão feminina ainda quis me alertar para o fato de que aquele aviso destinava-se aos profissionais responsáveis pela manutenção das aeronaves. Não sei, não fiquei totalmente convencido. Daí vieram as instruções de vôo, e nos informaram que, no caso de um eventual problema, existiam portas de emergência sobre as asas. Mas se é proibído pisá-las! Concluímos, então, que, quando se trata de sobreviver, as vezes é preciso quebrar algumas regras (as do uso da crase, por exemplo!).

Bruno Silva

31 de dezembro de 2012

"O mundo não sabe que o ano mudou"


"O mundo não sabe que o ano mudou", dizia Artur da Távola, para lembrar que somos o único ente a comemorar o fim do ano. A data de hoje só possui significado para o ser humano, e mesmo assim não para todos. Como o mundo não acabou (e, ao que parece, não acabará muito em breve) talvez devêssemos fazer as contas do que nos espera em 2013: este fará uma dieta, aquele deixará o cigarro; esta comprará bicicleta, a outra não beberá gota alcoólica.
Parece que o branco ainda predomina sobre o amarelo nas vestes da passagem de ano. Sincero ou não, ainda é um bom sinal. O ano que se avizinha tem bagagem parecida com a de seus antecessores. Ao imprevisto é que cabem as surpresas. Fará calor, choverá de vez em quando. Indiferente ao calendário, o mundo não estará diferente em 2013. Você estará?
A paz continuará cavando seu espaço. A intolerância, pertinaz, buscará por todos os meios manter seu território... cada vez menor. Temos uma tarefa tão nobre quanto árdua: conviver na diferença. A felicidade continuará sendo a eterna busca, mas em 2013 ganhará um reforço!

Bruno Silva
                     

18 de dezembro de 2012

Crônica de Natal?

Gerard Von Honthorst:  Adoração dos Pastores. 1622
Escrever a crônica natalina é uma tarefa da qual não se pode esquivar; nem os grandes escritores, nem aquele anônimo, cujo alcance do que escreve ainda pode ser menor do que aquilo que fala para seu círculo mais íntimo. Reviste a antologia de crônicas e você encontrará tantas e tão diversas apreciações do que seja o Natal que poderá pensar que os autores referem-se a festas diferentes.
Existe a crônica de celebração: o clima familiar, a família reunida...; a crônica saudosista: o Natal perdeu seu significado...; a crônica gulosa: ah, os pratos natalinos!...; a crônica cristã-inquisidora: vocês se lembram do aniversariante?...; a cristã crítica: o natal não tem a ver com Cristo, que não nasceu no 25 de dezembro...; a crônica comunista: o papai noel representa o espírito do capitalismo e o imperialismo yankee!...; a crônica capitalista com ternura: chegou o momento de presentear aqueles que amamos!...; as crônicas dos vários pseudo-Veríssimos,...  já chega?
Num universo tão grande, é difícil se direcionar. Eu me lembro que, na minha infância o Natal e a Páscoa eram os únicos momentos em que o azeite entrava no carrinho de mercado. Lembro que a azeitona tinha caroço, e que ficávamos esperando para dar o polimento geral neles, eventualmente sendo beneficiados pela generosidade materna, que deixava passar um caroço com mais azeitona. Hoje a azeitona sem caroço domina, o que bem pode ter seus pontos positivos, tirando o fato de que ficam mais salgadas por causa da conserva. Com certeza esse incômodo passará quando a ciência nos der pílulas de azeitona, ou azeitonas de soja...  
Mas era da tarefa de ser fazer a crônica de Natal que falávamos. Depois que se escreve uma fica difícil voltar ao tema. Já disse que o natal me deixa triste, e isso não mudou. Não há o que dizer de novo, e talvez seja mais difícil ainda no ano que vem. Mas na última crônica eu não desejei feliz Natal pra ninguém, grosseria da qual vou me redimir agora: feliz Natal para todos!

Bruno Silva

27 de novembro de 2012

Vinil x Blue-ray

"Nunca mais apareceu ninguém como Tom Jobim!", "Jamais haverá outro grupo como The Beatles!", "Renato Russo revira-se na cova quando escuta o dito Rock dos nossos tempos!". Em geral, frases como essas são prelúdios para o arremate saudosista: gostaria de ter nascido naquela época!
Este sentir-se deslocado no mundo é uma instituição inabalável do nosso tempo. Ignoro se os homens nascidos nos fins do século XIX experimentavam a mesma sensação diante dos bondes e da iluminação à gás. É provável que sim. Mas os de hoje padecem muito mais desse mal-estar!
Argumentos favoráveis ao hoje existem: a informação circula mais, há mais liberdade ("prá escolher a cor da embalagem"?!), avanços da medicina, encurtamento das distâncias...
O ontem, com o perdão do trocadilho, não fica para tras: respirava-se melhor ar, ouvia-se melhor música, dormia-se em maior silêncio, comia-se melhor...
É difícil uma decisão convicta: "gostaria de conhecer a boemia de verdade, mas Deus me livre morrer de tuberculose!"; "é muito bom poder, com apenas um toque, ter acesso à toda obra de Noel Rosa, mas seria melhor se ele estivesse vivo!"
De que lado você está? Vinil ou Blue-ray? Bem, você está lendo isso numa tela de computador ou qualquer gadget. Se fosse num jornal, você teria chegado até aqui? Difícil saber. O certo é que, se os bons tempos se foram, é reconfortante a possibilidade de um download!
Mas não fique deprimido, você ainda pode enfiar sua face em algum bom e velho book de papel, ou morder uma Apple das que se encontram nas quitandas!

Bruno Silva

p.s.: Ia ilustrar o texto com uma imagem que fizesse alusão ao título, mas a utilizada não só é pertinente ao assunto, como também constitui um exemplo da criatividade que podemos conferir no endereço seguinte: http://www.ciadodesigner.com/2011/03/sobreposicao-de-fotos-passado-x.html

22 de novembro de 2012

Que mané Belle Époque!

De todos os conceitos que a história criou ou cultivou, o tal de Belle Époque é, sem dúvidas, um dos mais metidos a besta! Nas vezes em que sou solicitado a falar sobre o assunto sempre procuro, sem grandes sucessos, traduzir para o português esta noção que não se refere à outra coisa senão àquela época, entre o fim do século XIX e o início do XX, quando a então capital do Brasil passava por um processo de importação de costumes franceses; quando se ouvia um "Viva a França!" ao se encontrarem dois brasileiros, possivelmente na Avenida Central (hoje Rio Branco), indo ou vindo de alguma confeitaria com ares parisienses. O ridículo chegou ao ponto do prefeito Pereira Passos, não conformado com o alargamento das ruas, encomendar pardais e estátuas, tudo para transformar a terra de São Sebastião em um protótipo tropical da Cidade Luz.
Hoje, nossa Belle Époque C'est la merde! Não faltam pardais em todas as avenidas, estrategicamente posicionados e com intenções menos nobres do que aquelas pobres avezinhas de penas cinzentas e apetite pouco exigente. Os pardais de hoje, longe de comporem sinfonias para o sabiá, como os de antanho, não cantam nem avoam, mas são capazes de fazer qualquer um chorar! As ruas, contam-se nos dedos as que foram duplicadas. São tempos ruins para se ter um carro. Voltemos ao tílburi!

Bruno Silva

12 de novembro de 2012

Sardinhas sem Rio Card

O tempo consagrou uma expressão que hoje em dia talvez mereça revisão: passageiros como sardinhas em lata! Os apreciadores desse bom quitute, também conhecido como frango do mar ou pastel, sabem bem que, no geral, são três peixinhos por lata, o que dá uma margem de conforto não encontrada nos lotações, trens e BRTrens! Nossos gestores, se estivessem no ramo alimentício, jamais permitiriam tamanha expansividade! "Qual!? Cabem pelo menos umas cinco sardinhas por lata, é só espremer bem!"
É provável que, assim espremidinhas, as sardinhas mais se assemelhassem ao patê, atum ralado ou fiambre (se você come sardinhas em lata, possivelmente sabe do que estou falando).
Abaixo à degradante (para as sardinhas) comparação do transporte público às latas da democrática iguaria, carrasca dos figueiredos! Passemos ao outro nível! Somos todos patês; o que vai muito bem com o pão (que o diabo amassou)!

Bruno Silva

7 de novembro de 2012

Trens, Metrens e BRTrens

Com o passar dos anos nos acostumamos a reclamar dos trens urbanos de transporte coletivo, sempre lotados e sucateados, chegam a ser referência de desconforto para a população carioca, que, sempre muito criativa, já apelidou os novos BRT's de "BRTrens", pois vivem lotados (embora ainda não sucateados)! Penso eu: será tão difícil dimensionar a demanda diaria por tal serviço? Obviamente, não! Nossos gestores sabem muito bem fazer contas, mas nesse caso e em muitos outros, a matemática é mais perversa; porém, bem simples: o lucro é diretamente proporcional ao número de passageiros e inversamente proporcional ao investimento. Ou seja: mais pessoas em pouco espaço e maior velocidade = dinheiro pra caráleo! E nesse ponto, o atual PrefeitoGovernadorPresidente do RJ foi genial! Temos novos trens orientais nos trilhos do Metrô; são bonitos, geladões, painés com LED que iluminam o percurso no mapa e se apagam a cada estação (achei o máximo essas luzinhas), mas a sensível mudança é o conforto... para os que vão em pé!!! Possui, notavelmente, maior espaço livre nos corredores, em detrimento dos assentos, claro! Entendeu agora? Mais pessoas... Mesmo espaço...
E os BRT's? E a transoeste? Aí existe o dolo com requintes de crueldade. Não vou nem discutir a relevancia do modal, se não ficou claro, que fique agora: Fuck the rodovia! Keep calm and vamos de trem! (não esse lotado, claro!) A perversidade está no produto vendido: "você, trabalhador que depende do transporte público para sustentar sua família..."; "com a transoeste, você faz o trajeto casa-trabalho na metade do tempo... Qualidade de vida e talz". Sacou? "metade do tempo"... o dobro do lucro! A lógica é essa: Nunca Resolveremos o Transporte, pois resolvido foi dessa forma.

J.G

17 de setembro de 2012

Você fecha com quem? Velhos igredientes, novas receitas e uma lula a menos na minha paella

Estive lendo algum artigo de alguma Época em que se dizia: " O Brasil ético está escandalizado com o aperto de mãos entre Lula e Paulo Maluf". Os embates dos tempos heróicos entre o lider sindical e a artilharia da elite econômica brasileira ficaram tão distantes que se teme que talvez jamais tenham existido, não passando tudo de uma fábula sonâmbula.
O ex-uma série de coisas inclusive presidente Lula talvez estivesse indo longe demais com o aperto de mãos. Aos seus seguidores ainda restava o consolo de dizer: é uma foto, apenas. Mas agora, as declarações  a favor de Eduardo Paes constituem o último tiro, sem misericórdia. Não faz outra coisa o Lula senão desqualificar o posicionamento do qual durante anos foi o principal modelo: a oposição. Quando ele diz que a oposição fala, critica, mas a administração empreende e realiza, não está apenas dando um colher de óbvio, muito menos o suco do fruto da experiência: está se posicionando, se reposicionando.
Na certa há muita cara avermelhando, e não é o vermelho do comunismo. Talvez Eduardo Paes não precisasse do luxuoso depoimento de Lula e Dilma, mas foi bom que eles viessem a público, de mãos limpas como um Pilatos do século XXI, declarar seu apoio ao Paes e desqualificar a opção que, atualmente, aparece representada por outra bandeira: a de número 50. Isso coloca tudo às claras e serve, deve servir, de lembrete e alerta para a próxima corrida presidencial. Estão aí todos os elementos de uma tragédia grega. Grega, não: de uma tragédia carioca.
Enquando escrevia essas linhas ia ouvindo a gravação de "Amanhã", de Gulherme Arantes, feita por Caetano Veloso. Lembro que já foi usada em campanha para o Lula e depois para o Gabeira no Rio. Acho que o Brasil dormiu 48 horas, e não viu esse amanhã. Acordemos, enfim!

Bruno Silva

5 de setembro de 2012

Pedreiros da Marvel, Paralimpíadas e Adriano, estátua de imperador


No mês passado um acidente impressionante deixou muita gente de boca aberta: o sujeito caiu do andaime numa obra do Rio de Janeiro e  um vergalhão atravessou seu crânio. Felizmente não houve maiores danos ao trabalhador. Ontem um outro pedreiro, na Bahia, foi vítima de uma bala perdida: o projétil acertou sua cabeça e deixou apenas um ferimento superficial. Três hipóteses: milagres em série; apocalipse zumbi confirmado ou, vai saber!, trata-se de pedreiros da linhagem Wolverine.
Mudando completamente de assunto, as Paralimpíadas estão acontecendo e ninguém parece dar a mínima. Ela não consegue mobilizar os media com a mesma força das Olimpíadas. Uma pena, porque,não contando o fato do Brasil apresentar melhor desempenho naquela do que nesta, as Paralimpíadas dão exemplos inestimáveis de superação pessoal! Comentava com um amigo outro dia: parece que os atletas escolhem os esportes mais desafiadores, aqueles para os quais a falta de um membro representa uma dificuldade aparentemente paralisante. Será que o Adriano, nas suas inúmeras folgas, tá acompanhando os jogos?

Bruno Silva

21 de agosto de 2012

Curtindo a vida adoidado: entre a falta e a folga

Não sei se alguém já notou, mas um dia de falta pode recompensar mais do que um de folga. É claro que há o dia descontado, fazer o quê? Café produz gastrite; bebedeiras, ressacas. É um preço justo, o que não nos impede de tentar, por mil artifícios, o abono redentor.
Faltar um dia de escola é altamente recompensante. Faltar um dia de trabalho, revigorante. Imagine-se, então, quando se trabalha dentro de uma escola?! É a própria glória desse plano!
A falta é uma atitude transgressora, é uma tomada momentânea da felicidade de que nos privaram na época das maçãs proibídas. Quando se falta ao trabalho - sabe-o quem já fez - recupera-se um dia de ócio, que será tanto melhor se não for um do tipo criativo. A folga, por sua vez, vem com ares de concessão, de recompensa (nunca suficiente) pelo trabalho que se realizou. Por mais que represente - e representa - uma conquista dos trabalhadores, a folga nos mantém no terrítório do mundo do trabalho. Estamos ainda dentro do sistema capitalista quando tiramos um dia de folga: em geral acordamos cedo, programamos o dia, saímos ao consumo e continuamos dando corda à engrenagem. A folga é algo do qual se pretende extrair o máximo, o melhor. É boa, mas não se compara à falta, sobretudo àquela que não se adivinhava na véspera. Aquela que, de repente, aconteceu na falha do relógio, nos cinco minutos a mais, no "vou um pouco mais tarde hoje". Acaba-se acordando para almoçar, no meio da semana, sem noite que nos espere.
Quando faltamos ficamos à deriva dentro de casa, e finalmente descansamos.
Quem leu o título percebeu a referência: Save Ferris!
Mas, dirão alguns, ele faltou aula para curtir a vida adoidado, indo para vários lugares, vivendo fantásticas aventuras. Ao que argumento: pode ser, mas Ferris Bueller não estava perto dos trinta!

Bruno Silva

31 de julho de 2012

Crônica de aeroporto

No aeroporto Antônio Carlos Jobim, esperando um meu amigo, observo as cenas que cotidianamente, suponho, se dão nos desembarques internacionais: são papeis com nomes escritos, siglas enigmáticas e símbolos estranhos; papeis que são empenhados por pessoas vestidas de maneira bastante sóbria, embora com algum excesso de tédio e apreensão. Encontros efusivos tem seu lugar no desembarque: abraços que mais parecem a prática do rapel, tudo fortemente desaconselhado pela ótica da civilidade, porém ignorado por sentimentos talvez mais antigos (alguns, segundo se propaga, exclusivos dos lusitanos e seus povos órfãos)!
Passa alguém vestido de branco (de vestido branco, mais exatamente), com a barba preta e grossa como náilon: todos suspendem a respiração. Debalde, aliás, pois que, se chegou a desembarcar, muito provavelmente vem com as melhores intenções, ou, ao menos, intenções comuns de turista. Desconfiança menor suscitam aqueles que agora chegam, saídos todos de uma mesma forma, praticando o milagre de falar e entender um idioma que nossas letras não conseguem registrar.
Observo estas coisas, conforme anunciado anteriormente,  enquanto espero, mais ansioso do que saudoso, cumpre reconhecer, esse meu amigo viajandão, que traz as muambas e encomendas dele, minhas e dos demais amigos. Uma infinidade de garrafas que, por aqui, custariam muito mais do que valem nossos fígados heróicos!
Ou o país abaixa as taxas e juros ou, o que é menos provável, vamos esperar que Hollywood nos ensine a beber, elegante e sedutoramente, doses generosas de cachaça em copos de extrato de tomates, pois aqui temo-los - os copos e a caninha - em quantidade suficiente.

Bruno Silva  

22 de julho de 2012

Gerais: o que um piercing de castidade, Humberto Gessinger e um gordo num fusca tem em comum?

Na Índia acontece tanta coisa esquisita que faz um deus de quatro braços e tromba de elefante parecer pinto (não, não fica parecendo um pequeno bípede penado; é apenas uma forma de expressão). Dois exemplos: um homem de 83 anos (em 2010) intrigara cientistas ao ficar dez dias sem comer e sem beber! O fato até serviu de prenúncio para o que se acredita ser o advento do apocalipse zumbi. Mais recentemente, outro indiano, dos que comem, instalou um artefato revoltante em sua esposa: um "piercing de castidade". O marido instalara um cadeado na genitália de sua esposa e levava as chaves na meia, todos os dias antes de ir trabalhar. Quer dizer: um indiano não quer comer, e o outro, não quer que os outros comam! Fiquei pensando: esse cara não só é um idiota ignorante, como tem pouca imaginação sexual. Isso vindo da terra do Kama Sutra é, no mínimo, absurdo!
Mudando de assunto, preciso comentar dois acontecimentos da esfera pessoal. O primeiro diz respeito a uma noite de autógrafos no Rio Sul. Os fãs de Humberto Gessinger tivemos uma oportunidade rara de conhecer o ídolo e, ainda por cima, tirar uma foto para recordação. Tendo lido na tarde do dia 18 que Gessinger estaria por lá lançando seu último livro "Nas entrelinhas do horizonte", não pensei duas vezes:

Por fim, quero compartilhar uma reflexão que tive na manhã seguinte: vi um gordo dentro de um fusca e achei a coisa mais leve do mundo! Aquela imagem me emocionou e me passou uma sensação de harmonia nas coisas. Parecia que o gordo havia se sentado num banco e esperado que o fusca fosse montado ao seu redor. Parecia que o fusca era um casaco de chuva daquele gordo. Um quilo a menos no proprietário, um centímetro a mais no fusca, e lá se ia a harmonia. Coisa complicada é o equilíbrio: pode estar num gordo dentro de um fusca, mas pode faltar num estudante de neurociências numa sala de cinema dos Estados Unidos da América.


Bruno Silva