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17 de abril de 2014

Réquiem para Gabriel García Márquez

Fui recebido pela esposa, mal cruzada a soleira.
- Hoje você vai precisar tomar um trago. Seu escritor favorito morreu...
-Gabo?!
É véspera de Sexta Feira Santa: Quinta de Endoenças, último dia de missa antes da vigília pascoal. Gabriel García Márquez está morto e será preciso um copo cheio para engolir o passamento do santo ateu, exatamente como Jeremiah de Saint-Amour.
Sentei para jantar. Jantei. Fiquei pensando no Gabito, na minha vida e juventude, nos meus amigos.
Quando o Saramago se foi, alguém falou que o mundo havia ficado mais burro. Agora, não apenas está mais burro, como mais desprovido de fantasia e realismo. De realismo fantástico.
Parece que estamos, mais uma vez, à nossa própria sorte e miséria...

Bruno Silva

21 de dezembro de 2013

Relógios e calendários

Desconfio de relógios
Absolutamente, não confio em calendários
O tempo é matéria enganosa, fluida
Toda tentativa de sua exata medição é um fracasso
Quinze minutos de sono, quinze de engarrafamento:
Quem dirá que duram o mesmo?!
Assim com as horas, assim com os anos
Uns voam, outros se arrastam
Este 2013, para mim, não tem medida:
Foi longo porque cheio, breve porque acelerado
Mudei, casei, fui pai
Ao mesmo tempo fui filho, colega, amigo, genro...
Tantos papéis desempenhados, espaços ocupados
Fiquei uma década sem ver pessoas queridas
Pessoas que, até ontem, estavam ao lado
Como medir?
As vezes, dobrando uma esquina, virando um gole, ouvindo uma canção
Eu me transporto para outro tempo, fisicamente
Não é a memória, apenas: sou eu, lá
Calor ou frio, maresia ou vendaval
É meu corpo novamente, experimentando sensações antigas (atuais)
O tempo não existe da forma como supunhamos
Ou fiquei doido
Ou tive uma revelação

Bruno Silva

24 de julho de 2013

A Poesia devassa a Política

Há uma Violência Normal
Monopólio Legítimo Estatal,
é Natural a Pena Capital aos deserdados do mundo,
As fichas de Delinquência "juvenil" que tombam (Amarildos?) no chão
do Purismo da Vida como Imaculada Duração

Armas Químicas encenam uma guerra duplamente biológica
Lacrimogêneos, Bombas de Efeito mais-que-moral, Spray de Pimenta
nos olhos alheios como Refresco.

GUERRA CIVIL
PACIFISMO gera MILITARISMO...


[Ah!] Só o Amor (à Mammon) Constroi!
Obrigado pela Solidariedade (aos Ricos & Segurados)

Brindemos ao Socialismo das Classes Meio-Altas!


(Nas seguintes noites gélidas os mendigos do Leblon agradeceriam a um
Deus Silencioso a Moda Outono-Inverno da Empresa Saqueada, parecendo-lhes
Providencial a Frente Fria tardia em Julho)


Espionagem interna, inimigo à paisana, Sabá de Estados Policiarescos
Decretos inconstitucionais de aprendizes histéricos de ditadores nostálgicos
Comissões de inquirição de pequenos delitos incitados para salvar o Mal Maior...
Mídia monopolista que entrevista desinformantes,
manuseada proto-oficialmente por editores-chefe imparciais na defesa do status quo...




E assim, por meio dos meios da disparidade,
se reproduz incessante o Milagre da NORMANIMALIDADE.



Walter Andrade

21 de julho de 2013

Poema Gullar





Encho um copo com Whisky de Morais
Atiro-me no sofá Drummond de minha sala ampla:
Eu vou escrever um poema Gullar

Procuro, em minha Bandeira infância
Algum fragmento de Pessoa
Uma Quintana de inspiração qualquer

Nada vem, de abstrato ou concreto
Nada vem
Nada v
Em
N
A
D
A
Nada



















Reverbera, no fundo de meus ouvidos, 
Aquela sonoridade Jobim
Se nada funciona por aqui
Pego hoje mesmo um avião
E mudo-me para  Hollanda


Bruno Silva

19 de junho de 2013

Fora do campo, no meio das ruas



Entre o Redentor e a Igreja da Penha iluminada
Chego na Ilha do Governador
Como a avenida Brasil é grande, meu Deus!
Estou entre dois símbolos piedosos
E meus iguais, a esta hora, marcham nas ruas
Há um rio de refresco correndo pelo país:
Pimenta nos olhos
"Em meio a tantos gases lacrimogênios..."
Penso na multidão anônima dos que, de joelhos, subiram os degraus da ermida
Eis que, agora, outros sobem de pé a escadaria da Alerj,
O Congresso Nacional,
E tantos outros lugares aos quais, de ônibus, jamais alcançaríamos.

Bruno Silva



21 de fevereiro de 2013

Fevereiros idos

Sempre que chovia em fevereiro parecia que a natureza ofertava um imerecido carinho. De tanto sol, que também não se merecia, vinha um riachinho de pé abençoar os bichos e as plantas. Chovendinho. Naquele não choveu, não. Era o sol, como uma rodela de abacaxi sobre o triste povo nosso. O caminho de barro malsão, dava o tempo de empapar os corpos, de grudar as vestes e, de repente, lufada de poeira. Era uma raiva e uma tristeza, tudo junto. Triste travessia nos fevereiros idos! Chuva não dava sinal, e quando viesse era mais para desespero e desalojo.
Tinha urubuzal no alto, devia de ser res morta. Não era. Cheiro paposo, daqueles que os lixos e os mortos dão, depois de envelhecidos. Eram os idos de fevereiros. Tempo melhor há de vir, sem dar aviso. Aí vai ser uma fartura de chuva prazenteira, muito bem-te-vi de dia e noturnos grilos. Esses dias chegarão? Gregas calendas...

Bruno Silva

30 de janeiro de 2013

Manhã londrina

Manhã londrina.
É janeiro no trópico, mas nada informa.
Cai uma chuva temporã, e o ramo de trepadeiras, do muro, sorri seu verde.
Engraçado que jamais fui à Inglaterra.
Perambulo pelo aeroporto, e é pena que o trajeto de meus passos não conte para o programa de milhas!
Manhã londrina.
O mundo só tem quarenta dias, mas há tanto construído!
O governo quer mais, e já não há espaço.
Vai o governo, com seus tratores de borracha, apaga o que havia e reinventa por cima.
Nem tudo fica bom.
O Maracanã, dizem os saudosistas, deixou de ser (além da Inglaterra, nunca fui ao Maracanã).
A borracha, insaciável, procura mais para borrar!
Mas hoje, nessa manhã londrina, acordei confuso e sem cabeça para esses assuntos pesados, de concreto e memória.
Quero apenas registar isto: tivemos um janeiro atípico, acordei me sentindo um britânico sem chá nem rainha.
Fevereiro já está na porta, a nos lembrar que é Brasil.
Chega, outono!

Bruno Silva

11 de março de 2012

O homem; as viagens... de ônibus!

Eis um trecho do brilhante poema de Carlos Drummond de Andrade: "O homem; as viagens", publicado em época tão recente quanto seja 1973, quando a possibilidade de se chegar a Marte era mais remota do que hoje!

"O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão.
Faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para o Lua
desce cauteloso na Lua
Pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte - ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.
Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?"
(...)

Dispensam-se maiores comentários sobre a poesia, que parece ter algo a ver com a ida (terá ido?) do homem à Lua. Fala, claro está, da insatisfação e inquietação do ser humano, da vontade de ver o novo, errar de novo.
Ocorre que, atualmente, a ida a outra parte (digamos: Marte!) coloca-se quase como uma questão de manutenção da vida: não falta só diversão, falta espaço para tantas ruas; ruas para tantos carros. Ponho-me a imaginar marcianos em seus cinemas, tremendo com a possibilidade de uma invasão terráquea ao seu planeta. Um amigo e autor no blog esteve por esses dias numa infernal viagem de ônibus interminável! Veio-lhe, então, a inspiração que eu, sem prévia autorização, dou a conhecer:

"Vai vir um dia em que a malha viária será menor do que o comprimento de todos os automóveis perfilados; nesse mesmo dia não haverá terreno para se construir. Os prédios ficarão mais altos, talvez os carros subam na parede, talvez nos mudemos para Marte. Talvez os prédios, de tão altos, cheguem até Marte. Vias expressas interplanetárias sobre as empenas desses edifícios...caberiam mais alguns carros!
Chegaríamos em Marte na metade do tempo, iríamos mais à Marte, finais de semana incríveis, em Marte! Casa de campo! Iates! Carro off road pra fazer trilha, em MARTE! E vai chegar um dia em que não haverá mais espaço em Marte..."
Marte humanizado.

Bruno Silva/ J.G.

14 de fevereiro de 2012

Cadê a rede?

No texto que escrevi anteriomente, ainda acreditava que a felicidade cabia numa rede. Mas ela não cabe, não. Porquê? Porque me levaram a rede num dia de calor. Dava pena de ver as paredes nuas! A casa ficou desproporcional sem aquele pano pendurado que era, para mim,  precipício e pára-quedas. Raptaram o meu sossego e nem sequer deixaram bilhete para o resgate!
(...)
Uma lenda muito antiga ensina que o homem desceu das árvores e foi aprendendo a andar cada vez mais ereto, até conseguir ficar de pé sem que isso representasse grandes desafios de equilibrio. Esse homem, que no início não era homem, não era nada... esse homem trocou as frutas pela carne vermelha, amaldiçoou o pequenique e bendisse o churrasco. Acontece que eu estou a meio caminho da evolução: quero a carne e quero a rede! Luto pelo indulto da eterna penitência que é estar de pé!
A felicidade que eu tinha caiu da rede... mas nao morreu! Ela não pode morrer, porque está, para sua segurança e para a nossa, espalhada por vários cantos, contida em várias coisas: chalé, cachoeira, mulher morena, café, comida mineira...
Há quem diga que a felicidade é encontrar finalmente o seu lugar ao sol!
Particularmente, eu tô atrás de sombra...

Bruno Silva

3 de janeiro de 2012

Tarde-sépia

Ontem de tarde havia uma luz diferente. Tentei capturar uma imagem mas, por sorte, a câmera de meu telefone não funcionou. A única maneira de registrar o instante era o papel e o lápis. Não que eu fosse me por a desenhar: escrevi com minha letra cada vez pior as ideias que me vinham. Choveu muito em todo Estado, com maior prejuízo para os moradores da ainda convalescente região serrana. Espero que o sofrimento dessa gente passe logo, seja breve; como aquela tarde-sépia que a noite carregou.

Tarde-sépia
Chuva fina
Rua derretida

Na calçada
Passos breves
Vão seguindo a vida

Poça d'água
Luz de sódio
Cena revelada

Mas se a noite
Tem neblina
Já não deixa nada

Bruno Silva

6 de dezembro de 2011

O fim de uma era: a entrega das chaves.

As chaves do 714, na Rua Júlio de Castilhos, serão entregues amanhã, pondo fim a uma era. O apartamento foi palco e cenário de várias entre as melhores coisas que nos aconteceram desde 2004. Ele testemunhou o início de amizades cheias de irritação e bons momentos, porém nunca abrigou discórdia profunda entre os amigos; viu reconciliações efêmeras de blindex; foi vinho, foi cerveja e foi cinzeiro.
Ponto de encontro efusivo e de encontros de alcova, o apartamento se viu diminuído quando do fechamento do escritório do Dr. Evanildo. Mas não se abateu de todo, antes se desdobrou ao máximo do apartamentalmente possível! Ocupávamos o sétimo andar, não o sétimo céu: a fossa, o desespero, a desesperança, tudo isso teve vez naquela pequenina janela sobre amendoeiras de uma Copacabana que não volta mais. Mas o mundo doía e pesava menos quando estávamos reunidos naqueles quarenta metros quadrados.
Os meus melhores amigos passaram por ali; muitos dos nossos melhores momentos foram passados ali. Um tempo que a roda viva carrega sabe-se lá para que paragens. 
É por isso que hoje, nas vésperas do grande golpe, eu estou escrevendo esse elogio amargurado do apartamento: berço e túmulo de uma felicidade sem projeto.

Bruno Silva

5 de novembro de 2011

O Fim do Mundo

2012?

Espera-se pelo fim do mundo desde seu começo, ou melhor, desde o início da consciência dos homens. Este longo aguardo é, como se sabe, de origem religiosa, e tem sempre seus ápices em viradas de século, milênio ou em catástrofes religiosas, políticas ou naturais. Tudo parece se juntar atualmente. E é pela atualidade e poesia de um diálogo de 1654, intitulado Hospital das Letras, do escritor-fidalgo português D. Francisco Manoel de Melo, que eu aqui o reproduzo. Antes, deixo meu ceticismo, incluso em Deus e portanto da Criação (partilho do evolucionismo darwinista), de confissão que antecede a citação. Ceticismo que, como se pode ver, não me impede de perceber a beleza e difundi-la, pois é também mérito dos céticos a tolerância:

"[...] porque o mundo, se bem é verdade que se há-de acabar, não se há-de desfazer primeiro que se acabe. Com todas suas forças e faculdades se há-de ir à sepultura, e até o fim permanecerá na própria ordem em que começou, convindo assim ao maior espanto dos vivos e mais admirável crédito da Omnipotência; porque tem proporção que, assim como Deus de nada fez tudo, de tudo faça nada; e, como o mundo nunca ascendeu por graus sucessivos à sua perfeição, não desça por outros tais à sua aniquilação. Porque, se o mundo fosse por graus sucessivos caducando em suas operações, fácil conseqüência e pequena maravilha viera a ser depois o fim dele. Além de que não faltara ignorância que presumisse fora também autor de si mesmo; mas obrar hoje o mundo como o primeiro dia de sua criação e acabar-se amanhã é mistério que inculca todos os espantos e encarecimentos."

Walter Andrade

13 de outubro de 2011

Poesia diagnóstica

Já fui muito ingênuo. Acreditava que eu era um poeta, e que os poetas morriam sempre do coração. Ficava com um caderninho tosco e uma caneta na mão, anotando aquelas coisas que me vinham na cabeça e que eu supunha serem dádivas de Érato. Depois abandonei o caderno, mais ou menos na mesma época em que os homens desaprenderam a escrever à mão. E quando a tristeza sobrevinha, eu a afogava em lágrimas de lúpulo, cevada ou malte. Nunca mais caderno.
Na semana passada adoeci um pouco: fortes dores, distensões no abdômen, dificuldades de locomoção. Várias idas ao posto de saúde, veias tricotadas, exames... descobri uma pequena alteração no fígado. Destino de Prometeu.
Talvez precise voltar para o caderno.

Bruno Silva

28 de julho de 2011

De oito às cinco

A vida de repartição é assim mesmo
Café, água mineral e livro de ponto
Relógio com ponteiros de chumbo
O exercício da profissão de estar ali
Um sociabilidade que encontra no dia a dia sua sustentação mais precária.
Perfis que te vigiam e não se sabe porquê
Tem um ofício, um memorando, um telefonema assinalado em local específico
A cidade vai acontecendo ou deixando de acontecer
E você lá, à espera do contracheque
Dourando a pílula e curtindo o tédio
Ao menos sobra tempo para alguma escrita.

Bruno Silva