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20 de outubro de 2014

A lição de 1989

Em 1989, um "resumo" do debate da globo, apresentado no Jornal Nacional, favoreceu sensivelmente Collor, candidato pelo PRN, contra Lula, do PT. O caráter da emissora, já se sabe, não inspira confiança em um trabalho sério e imparcial. Sua convivência simbiótica com a ditadura militar (mas também civil e empresarial) já constitui um cartão de visitas às avessas. Essa tradição de fechar o ciclo de debates políticos é celebrada pela emissora, bem vista por determinado setor da sociedade e, com razão, receado pelos que estão atentos e sabem o quanto têm a perder com uma eleição marcha à ré.
Os escândalos que são alardeados em momento propício, os que são abafados e pintados de marrom, tudo isso constitui um modus operandi para lá de denunciado e, não obstante, sempre ativo. Uma ex-professora minha, da UFRuralRJ, especialista em história do Brasil, particularmente no que diz respeito aos militares no poder, comentou hoje em rede social que o Merval Pereira, diante do resultado que projeta Dilma como vencedora no segundo turno, destacou que o debate da Globo será importantíssimo. Com razão, Adriana Barreto considerou que, vindo dele, certamente a declaração possui tom ameaçador.
Particularmente, atribuo a liderança de Dilma nas últimas sondagens a uma militância feita com base na informação e no desmascaramento. Os mais novos, crianças ainda no período FHC, talvez não conhecessem mesmo o significado de uma candidatura do PSDB, que muito oportunamente o Aécio procura nublar, ao afirmar que não é mais um "candidato de um partido". Prefiro acreditar na inocência útil desses eleitores, para não me ver na triste contingência de classificar como mau caráter aquele tipo de pessoa que tripudia dos programas sociais levados a frente, contra a maré, pelo governo do PT. Para não falar do avanço inegável naquele setor da educação que compete ao governo federal: as universidades.
Essa defesa de um projeto de um país mais justo e com mais inclusão deve continuar e se fortalecer! Não nos contentemos como o resultado parcial! Não deixemos esmorecer a campanha! É preciso esclarecer os eleitores indecisos, porque eles ainda são uma esperança, já que não se contaminaram com o ódio disseminado pela mídia. É preciso esclarecer que a eleição do candidato que contabilizou como gasto em saúde até injeção para cavalo é, verdadeiramente, um cavalo de Tróia para a democracia brasileira.

Bruno S. Souza

P.S.: para quem quiser, deixo a sugestão do documentário "Muito além do cidadão Kane". Um trecho do filme, em que a manipulação eleitoral é tratada, pode ser assistido aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=raRHnmif7js#t=193

8 de outubro de 2014

Apoio Crítico

Há uma agremiação política fundamentalista que a história não nos conta e o jornalismo nos oculta. É a mais antiga do país, irreprimível, perene. É o PQPM, Partido do Quanto Pior Melhor. "É que a TV [o jornal do partido] me deixou burro demais, e agora todas as coisas que eu vejo me parecem iguais"
Você que conquistou uma bolsa de mestrado (e temos até o mestrado profissional, voltado parra os que já lecionam), que comprou Sua Casa, Sua Vida  [inteira pagando sua casa] - mas que, afinal, a tem -, que entrou na universidade pública pelo ENEM, que hoje, COM TUDO, come bem; que tem aumento anual do salário mínimo (alto demais, segundo economista do PSDB), vê as obras de transposição do Rio São Francisco... (apesar do obséquio), pare de dizer que NADA do que vê nas eleições veio! Deixe esse pretensioso purismo de esquerda de lado e se lembre do termo mágico que lhe salva nessas duras horas: APOIO CRÍTICO; critica apoiando, apoia criticando, CRITICAPOIA!
Salve sua consciência sem abrir mão das recentes conquistas, até porque, quanto mais obtemos, mais o que não temos nos salta aos olhos.
Se só a luta muda a vida, não nos esqueçamos da lição aprendida: são todas elas!

Quanto dá 26-13= Dilmais!

Walter Andrade

6 de outubro de 2014

O analfabeto funcional da política



















O pior analfabeto, diz o conhecido texto de Bertold Bretch, é o analfabeto político... acrescentaria que, ao lado dos que não se interessam pela política, estão os analfabetos funcionais da política. Inocentes úteis que papagaiam discursos de uma elite à qual não pertencem, mas da qual talvez almejem participar (e até, talvez, já se acreditem participantes), esse grupo numeroso de porta-vozes do retrocesso, que condenam socialmente movimentos sociais, que bradam gritos de uma pretensa moralidade política (que por alguma razão, ou desrazão, acreditam faltar ao PT e sobrar ao PSDB), representam um mal igual, senão maior, aos que (pensam que) não estão nem aí.
Você que estudou em faculdades particulares, porque o FHC, doutor em sociologia da USP, manteve e aprofundou o sucateamento das instituições públicas, além de nada fazer para ampliar e promover o acesso dos mais pobres a um ensino que, apesar de tudo, mantinha elevado grau de qualidade; você não tem motivos para trazer a velha lógica de volta (porque é disso que se trata a hoje tão apregoada alternância democrática, que conduz de volta ao pior, e desconsidera uma permanência legitimada pelo voto!).
Você que entrou na universidade pública, mesmo que oriundo de uma família em que os país não tiveram a oportunidade de, sequer, concluir o segundo grau, e que foi beneficiado por uma conjuntura de expansão e democratização do acesso ao ensino superior; você não tem justificativas para querer que o tempo da exclusão retorne.
Se você melhorou de vida no governo do PT, mas não quer a continuidade, faça-nos o favor de anular o seu voto, em vez de anular o futuro de muitos. Vá para Miami!

Bruno S. Souza
(Este texto expressa a opinião de seu autor, não necessariamente a de todos que escrevem para o blog)

12 de dezembro de 2013

A enchente é um fenômeno político

Por que será que, ano após ano, as enchentes "surpreendem" as autoridades? A Rede Globo, por exemplo, começou a se tornar o que é graças à cobertura ao vivo que realizou sobre a fatídica enchente de 1966. De lá pra cá, entre dezembro e março sempre tem Natal, Inundação e Carnaval! 
Ninguém deveria se demonstrar surpreso com os cataclismos estivais! Tudo colabora para sua ocorrência: fatores meteorológicos, sócio-econômicos e, principalmente, políticos. A enchente é um fenômeno político: o sistema de drenagem insuficiente (ou sua não-existência), a ausência de políticas habitacionais, a vista grossa para o arrasamento da natureza pelas grandes empresas que destroem os rios (destruindo suas matas ciliares). Tudo isso está diretamente relacionado com o resultado que as urnas consagram. 
Do mesmo modo que a seca e sua miséria se explicam pela política, a enchente guarda esse parentesco, essa filiação, com a classe governante. Pode-se, sem muito esforço, culpar o morador das palafitas, das beiras dos valões, dos subúrbios esquecidos: vocês jogam lixo nas ruas, os bueiros entopem, o lixo volta para vocês, numa espécie de jogo cíclico perverso; mas a coleta de lixo, as políticas de ocupação da terra, as obras de infraestrutura a a correta fiscalização das atividades que degradam o meio ambiente, isso é atribuição dos governantes. 
Cada bueiro entupido significará, nas próximas chuvas veranis, algumas centenas de notas de real para bolsos que não são os nossos. Assim, a chuva significa uma grande oportunidade: será que todo o dinheiro que sai dos cofres federais rumo aos municípios chega ao seu destino? Será que o montante recebido pelos prefeitos é integralmente utilizado para a solução dos problemas? Será que o orçamento feito em situação de calamidade pública esconde algo? Muitas questões e uma saída emprestada do Riobaldo de Guimarães Rosa: "eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa."

O papel que se joga no chão tem culpa. O papel que não se cumpre, tem ainda mais.

Bruno Silva

24 de julho de 2013

A Poesia devassa a Política

Há uma Violência Normal
Monopólio Legítimo Estatal,
é Natural a Pena Capital aos deserdados do mundo,
As fichas de Delinquência "juvenil" que tombam (Amarildos?) no chão
do Purismo da Vida como Imaculada Duração

Armas Químicas encenam uma guerra duplamente biológica
Lacrimogêneos, Bombas de Efeito mais-que-moral, Spray de Pimenta
nos olhos alheios como Refresco.

GUERRA CIVIL
PACIFISMO gera MILITARISMO...


[Ah!] Só o Amor (à Mammon) Constroi!
Obrigado pela Solidariedade (aos Ricos & Segurados)

Brindemos ao Socialismo das Classes Meio-Altas!


(Nas seguintes noites gélidas os mendigos do Leblon agradeceriam a um
Deus Silencioso a Moda Outono-Inverno da Empresa Saqueada, parecendo-lhes
Providencial a Frente Fria tardia em Julho)


Espionagem interna, inimigo à paisana, Sabá de Estados Policiarescos
Decretos inconstitucionais de aprendizes histéricos de ditadores nostálgicos
Comissões de inquirição de pequenos delitos incitados para salvar o Mal Maior...
Mídia monopolista que entrevista desinformantes,
manuseada proto-oficialmente por editores-chefe imparciais na defesa do status quo...




E assim, por meio dos meios da disparidade,
se reproduz incessante o Milagre da NORMANIMALIDADE.



Walter Andrade

13 de junho de 2013

Na pista contra o negócio



Vândalos era o nome de um povo germano que por ter invadido o Império Romano (como outros tantos povos germanos à época) tornou-se termo pejorativo (somos herdeiros da cultura greco-romana né). Mas ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão (afinal os territórios romanos eram conquistados à outros povos também...). E é no fundo linguístico e além dele que essa romanidade receia ter seu domínio contestado pela "plebe" nas ruas brasileiras (o Rio já foi chamado de A Nova Roma séculos atrás).

O vândalo agora é inimigo interno (?). Intifada nas ruas contra a ação repressora policial e reclama-se que os "manifestantes não respeitaram o patrimônio histórico", ora, querem que "gases lacrimogêneos fiquem calmos..." fora da canção! (que nem são estritamente armas não-letais, como spray de pimenta também não...), no meio da fumaça, do medo, da correria: "Por favor: mirem bem! olha a Igreja aí...". Eu, que sempre fui meio iconoclasta, considero essa proliferação de lugares de memória, de tombamento de patrimônios históricos (para que nunca tombem!) um excesso memorial que tende a fixar a ideia de conservação de tal modo que as pessoas se sintam museólogas em tudo. E o receio dos governos, da mídia, das classes altas, é de que o povo brasileiro, sempre historicamente demasiado pacífico, ordeiro, quieto...acorde de vez, deponha-os de seus lugares cativos, de sua corrupção, tirem-nos de baixo do tapete vermelho dos gabinetes onipotentes, excluídos de suas dignidades ímpares e (logo) hierárquicas. Manifestação na Turquia tudo bem, no Egito que lindo, mas no Brasil? "Arruaceiros, vândalos!".

Saiu no O Globo (!) que 37 milhões de brasileiros não têm dinheiro para o transporte público [atentem mil vezes a esta palavra]. Depois no noticiário noturno (onde não reproduzem esta matéria...) fala-se que as manifestações impedem o "direito de ir e vir". Ora, as manifestações são justamente pelo direito de ir e vir (e de se manifestar indo e vindo)!. Estamos falando de um (des)serviço prestado à população por um cartel de empresas (nalguns casos de empreiteiras, como das Barcas S.A!), caríssimo (com aumentos regulares e bem acima da inflação), com poucos coletivos na madrugada, com o ônibus que passa direto e te deixa na pista.

E na pista ficaremos, mas não mais esbravejando sozinhos como o Muttley (o cachorro do Dick Vigarista, lembram-se?), porém em comunhão, afinal, como greco-romanos que afinal somos, sabemos que o homem é um animal social, político, ritual, que ri...mas que também reage.

Walter Andrade

16 de abril de 2013

Maioridade penal no Brasil?

Maioridade penal no Brasil é questão para debates acalorados. Toque no assunto quando estiver em uma mesa de bar com seus amigos e lá se vai a noite por água abaixo! Periga até sair briga no boteco, com polícia convocada e todo mundo indo parar na cadeia (pense bem: um bando de marmanjos em plena maioridade penal trocando tapas quando os argumentos já não bastam).
Existem algumas formas distintas e talvez complementares de se enxergar o problema. Em primeiro lugar: o que fez e continua fazendo com que a juventude ponha uma pistola (real ou de brinquedo) na mão e saia para o ganho nas ruas? Em algum momento, parece, alguém não cumpriu seu papel (pais, Estado, etc.). Podemos nos perguntar o porquê dessa omissão, e o texto não acabaria mais. Peço vênia para deixar esta questão para ser resolvida em momento apropriado. Encarar o problema dessa forma pode parecer ideológico, demonizador do Estado e vitimizador do delinquente. É aquela velha história: "conheço uma pessoa que catava latinhas e hoje é empresário", "pessoas de bem sempre encontram uma maneira honesta de ganhar a vida", etc. Afastemo-nos desta discussão, tomemos um gole e pensemos no concreto da situação. Assim, chegamos a uma segunda forma de se abordar o problema: deixando de lado a "querela da culpa", podemos analisar mais de perto a proposta de "solução do problema". O sistema prisional no Brasil (e no mundo) reúne as características desejadas para fornecer uma solução definitiva? O que há de terapêutico em se deixar um ser humano trancado num ambiente de falência da moral e dignidade por, digamos, 12 anos? Antes, portanto, de se decidir com quantos anos mandar alguém para a prisão, pensemos na própria prisão em si: funciona, corrige, "reabilita"? Vigiar e punir é um livro que ajuda a pensar na questão. Não adianta assistir ao Tropa de Elite, porque as conclusões lá apresentadas sobre Foucault, sinceramente, até me dão vontade de pedir pra sair!

Bruno Silva

7 de novembro de 2012

Trens, Metrens e BRTrens

Com o passar dos anos nos acostumamos a reclamar dos trens urbanos de transporte coletivo, sempre lotados e sucateados, chegam a ser referência de desconforto para a população carioca, que, sempre muito criativa, já apelidou os novos BRT's de "BRTrens", pois vivem lotados (embora ainda não sucateados)! Penso eu: será tão difícil dimensionar a demanda diaria por tal serviço? Obviamente, não! Nossos gestores sabem muito bem fazer contas, mas nesse caso e em muitos outros, a matemática é mais perversa; porém, bem simples: o lucro é diretamente proporcional ao número de passageiros e inversamente proporcional ao investimento. Ou seja: mais pessoas em pouco espaço e maior velocidade = dinheiro pra caráleo! E nesse ponto, o atual PrefeitoGovernadorPresidente do RJ foi genial! Temos novos trens orientais nos trilhos do Metrô; são bonitos, geladões, painés com LED que iluminam o percurso no mapa e se apagam a cada estação (achei o máximo essas luzinhas), mas a sensível mudança é o conforto... para os que vão em pé!!! Possui, notavelmente, maior espaço livre nos corredores, em detrimento dos assentos, claro! Entendeu agora? Mais pessoas... Mesmo espaço...
E os BRT's? E a transoeste? Aí existe o dolo com requintes de crueldade. Não vou nem discutir a relevancia do modal, se não ficou claro, que fique agora: Fuck the rodovia! Keep calm and vamos de trem! (não esse lotado, claro!) A perversidade está no produto vendido: "você, trabalhador que depende do transporte público para sustentar sua família..."; "com a transoeste, você faz o trajeto casa-trabalho na metade do tempo... Qualidade de vida e talz". Sacou? "metade do tempo"... o dobro do lucro! A lógica é essa: Nunca Resolveremos o Transporte, pois resolvido foi dessa forma.

J.G

17 de setembro de 2012

Você fecha com quem? Velhos igredientes, novas receitas e uma lula a menos na minha paella

Estive lendo algum artigo de alguma Época em que se dizia: " O Brasil ético está escandalizado com o aperto de mãos entre Lula e Paulo Maluf". Os embates dos tempos heróicos entre o lider sindical e a artilharia da elite econômica brasileira ficaram tão distantes que se teme que talvez jamais tenham existido, não passando tudo de uma fábula sonâmbula.
O ex-uma série de coisas inclusive presidente Lula talvez estivesse indo longe demais com o aperto de mãos. Aos seus seguidores ainda restava o consolo de dizer: é uma foto, apenas. Mas agora, as declarações  a favor de Eduardo Paes constituem o último tiro, sem misericórdia. Não faz outra coisa o Lula senão desqualificar o posicionamento do qual durante anos foi o principal modelo: a oposição. Quando ele diz que a oposição fala, critica, mas a administração empreende e realiza, não está apenas dando um colher de óbvio, muito menos o suco do fruto da experiência: está se posicionando, se reposicionando.
Na certa há muita cara avermelhando, e não é o vermelho do comunismo. Talvez Eduardo Paes não precisasse do luxuoso depoimento de Lula e Dilma, mas foi bom que eles viessem a público, de mãos limpas como um Pilatos do século XXI, declarar seu apoio ao Paes e desqualificar a opção que, atualmente, aparece representada por outra bandeira: a de número 50. Isso coloca tudo às claras e serve, deve servir, de lembrete e alerta para a próxima corrida presidencial. Estão aí todos os elementos de uma tragédia grega. Grega, não: de uma tragédia carioca.
Enquando escrevia essas linhas ia ouvindo a gravação de "Amanhã", de Gulherme Arantes, feita por Caetano Veloso. Lembro que já foi usada em campanha para o Lula e depois para o Gabeira no Rio. Acho que o Brasil dormiu 48 horas, e não viu esse amanhã. Acordemos, enfim!

Bruno Silva

21 de abril de 2012



A indignação é um dos motores mais vigorosos da atividade política. O absurdo é um leitmotiv.


É claro que, numa visão filosófica, não há algo que não seja absurdo, "viver assim é um absurdo (como outro qualquer)/como tentar o suicídio (ou amar uma mulher)/como lutar pelo poder (lutar como puder) - EngHaw". Contudo, se nos tornarmos total contemplativos, nunca nos libertaremos da inércia niilista. O relativismo dos absurdos não é, todavia, equivalente. A aceitação da existência do absurdo (e assim a des-ilusão) não implicam a resignação com o mundo. Aliás, é somente percebendo o absurdo que o ser humano poderá confrontá-lo. Combater a vida pode então ser mais absurdo que ela, pois é uma tentativa de evitar o absurdo (suicídio é só o adiantamento da morte, do não-ser, mas há quem lute contra a vida vivendo...). É a beleza que encontramos na vida - apesar dos pesados pesares - que a faz valer a pena. O significado que podemos inventar para ela, contanto que não se torne nova ilusão dogmática, nos ajuda a preencher seu vazio inerente. Daí que, como um círculo, voltamos à luta pela vida, à luta política pela melhoria da vida humana. Para que se torne mais bela, menos sofrida (na medida do possível), mais humana.


Muito se poderia melhorar a vida sem a corrupção, claro, mas, pergunta-se, é possível que ela suma? Parece-me isto uma nova ilusão, ilusão de pureza. 


A luta contra a corrupção, portanto (e como tudo...) é uma disputa política em si também. Vejamos:


A crítica da corrupção pode esconder uma defesa de uma maior eficácia do sistema econômico-político, um aperfeiçoamento da ordem e do progresso. É um uso à direita do tema, que é tão popular. É o tipo de discurso moralizante que faz sumir o fato mesmo de que o capitalismo se constituiu e se reproduz mediante todo tipo de subterfúgios (subornos, mecenato político, concorrência desleal) e a corrupção é apenas um deles (sendo a exploração do trabalho humano com fins privados a pior, e nada óbvia, porque naturalizada). Claro que temos no Brasil um adicional cultural da corrupção, tão estudado por Antropólogos. Mas há também os que falam até em modo de produção...


A crítica à esquerda da corrupção deve primar por utilizá-la como um sintoma, índice que dá a ver algo muito mais profundo, que é estrutural. É a própria ordem atual que se deve transformar, estrutural e não apenas superestruturalmente (campo moral, político). É pela defesa do aprofundamento da democracia, da transparência, da participação popular (e daí da melhoria da educação que possibilite uma participação realmente cidadã), que poderemos combater não só a corrupção, mas a estrutura econômica e social tão desigual em que vivemos. Para aqueles que não acreditam em mudança, é só olhar para a história. Há alterações que só ocorrem com séculos, sim, mas como homens de nosso tempo podemos e devemos fazer parte do processo histórico, e nele atuarmos como cidadãos responsáveis e conscientes. Importantíssima é, logo, a marcha contra a corrupção. Cumpre disputar seus rumos...


Walter Andrade

29 de fevereiro de 2012

Le Carnaval Soleil


Cirque du Soleil
Unidos da Tijuca 2012

 







O carnavalesco Paulo Barros é, sans doute, un (malin) génie. Reinvenção do carnaval, inventividade fantasista, psicodélica, insólita, a criação adjetivada do artista. "Tá legal, eu aceito o argumento, mas não me altere o samba tanto assim... olha que a rapaziada está sentindo falta, de um cavaco, de um pandeiro e de um tamborim", resposta brilhante uma vez dada, segundo a "lenda", por Paulinho da Viola à Benito di Paula que estourava, ano após ano, tocando samba no piano, e que eu entendo (ou reinterpreto com a ambiguidade e polissemia da canção) como provocação à Bossa-Nova - "toda bossa é nova e você não liga se é usada...todo carnaval tem seu fim" - aqui cito-as à guisa de algo que quero dizer sobre a Sapucaí. Qual foi o último grande samba-enredo de carnaval? Na minha memória recente só chega o da Mangueira sobre Cartola ("Descendo a ladeira/Com o trio da Mangueira/Doce Cartola sua alma está aqui", 2002!). Hoje, ontem e anteontem cada vez mais se tem ganho o Carnaval com desfiles "técnicos" (como já na década de 1990 conquistava o caneco a Imperatriz), caso de escolas como a Beija-Flor (escancaradamente apoiada pela Globo), e a Unidos da Tijuca (da qual nem se lembrará o samba campeão deste ano, como muitos da Beija-Flor). As escolas de samba tradicionais (isso aqui não é uma agremiação, é uma escola de samba!) como Portela, Mangueira, Mocidade, Império Serrano, Vila Isabel (tantas!), têm sido preteridas em sua autoridade no samba por um carnaval que a cada ano mais se parece com o Cirque du Soleil, que deveria propor a Paulo Barros a direção de um espetáculo, por certo de grande fortuna!

Ademais, a tal diferença entre o 9,5 e o 10 pode ser compreendida, mas entre 9.9 e 10... Algum jurado carnavalesco (dos quais nem sabemos sequer mais a profissão!) explicaria sem hesitar uma diferença de 0.1? Há algum tempo a diferença (se era pra existir) era de pelo menos 0,5 ponto, o que dava maior credibilidade às notas (porque pressionava a consciência do jurado a notar uma diferença mais concreta entre as escolas). Hoje, você, um hipotético jurado, pode sair dando 10 por princípio e escolhendo as escolas que você não quer que sejam campeãs e dar 9.9, 9.8, 9.7... O dado de subjetividade (sempre ineliminável no todo) tem hoje um grau de decisão muito grande, da qual a objetividade (pois há de haver alguma!) se enciuma, inveja e reclama. E não só ela! Denúncias de favorecimento à Inocentes de Belford Roxo no Grupo de Acesso, tiranicídio de rasgação de notas em São Paulo... parece que não sou sozinho na minha desconfiança.

Para evitar a vitória sem mais dos desfiles "técnicos" dever-se-ia ainda aduzir um critério, algo como "Empatia com o Público", na qual sairiam na frente aquelas escolas que levantassem os espectadores das arquibancadas, escolhidas pelo "povo" como as vencedoras. Queria que lembrássemos dos sambas campeões dos anos (e pra isso eles teriam de ser muito bons, como não se tem estimulado mais a serem, já que escolas com sambas-enredo fracos, fracos ganham 10!), não das acrobacias de circo na Sapucaí. Do contrário o carnaval corre o risco de tornar-se cada vez mais - a Grande Rio quer contratar Paulo Barros... - um Cirque du Soleil, belo, fascinante, intrépido... mas fora de tempo e lugar! E pra classe alta/média/estrangeiro ver...

Walter Andrade

Ps: Este ano o Cacique de Ramos, Patrimônio Cultural do Rio e hors concours, foi homenageado pela Mangueira e desfilou na segunda de carnaval na Sapucaí pela primeira vez na história.  Na terça foi a vez da Mangueira ir pra Rio Branco, no desfile do Cacique de Ramos. Naquele dia ouvi o diretor do Cacique dizer no microfone "Aqui se vive o verdadeiro carnaval do Rio de Janeiro, com o Povo". Vendo e participando daquela confusão organizada, não tive meios de discordar...

11 de janeiro de 2012

A Visita de Eduardo Paes à Barra de Guaratiba ou O Paraíso também tem seus Infernos



Barra de Guaratiba é conhecida pelo seu tradicional roteiro turístico-gastronômico, pelo Sítio Burle Marx, belas praias, algumas com trilhas, a Restinga da Marambaia...

Desde César Maia, em cujo mandato foi realizada uma reformulação na orla da praia grande, quando traillers foram alterados para os atuais quiosques, que não se via intervenções urbanas no local.

O atual prefeito Eduardo Paes autorizou uma importante obra de tratamento de esgoto na praia grande, que está acabando com as "línguas negras" no local (haviam pelo menos duas grandes), e é para a "inauguração" da estação que o mesmo visitará BG dia 12/01/2012, aproveitando o ensejo para reunir-se com representantes do Polo Gastronômico de Guaratiba, da Associação de Moradores (que nem é legalizada, o que inviabilizaria, ao que parece, a organização do Reveillón pela Prefeitura), onde serão debatidas melhorias para BG.

Com efeito, há muito mais necessidades,.Como ampliar o tratamento de esgoto para a prainha e praia do canto. Outros exemplos são o asfalto da estrada Roberto Burle Marx, que se encontra em estado lamentável e com excesso de quebra-molas. É preciso ainda melhorar o transporte público na região, especialmente para o Recreio/Barra/Zona Sul/Centro, com a introdução de uma nova linha que fizesse o trajeto até a Barra da Tijuca e tivesse intervalo regular de, no mínimo, 30 minutos. Isto evitaria a espera pelo atraso rotineiro do 387 (Barra de Guaratiba - Carioca), que, por ser longo o trajeto e cheio de retenções, sempre atrasa, e cuja empresa Pégasus nada faz para evitá-lo, não colocando mais carros para a linha. Não me parece que o motivo seja alguma restrição por conta de Guaratiba ser "área de reserva ambiental", já que o 867 (Campo Grande - B. Guaratiba) tem uma grande frota, e que lota o local em dias de sol (linha que deveria não passar mais pela Ilha de Guaratiba, e sim seguir até CG via Rio-Santos). Este aliás é outro problema: a superlotação verificada nestes dias. Não há posto policial próximo - seria preciso haver um na entrada para a serra do Grumari - onde a guarda municipal ou PM's deveriam controlar o tráfego de carros, restringindo o acesso apenas para moradores em dias muito concorridos, para além de uma vigilância mais concreta das pessoas na praia e quando há blocos de samba (quando ocorrem brigas e até tiros). Ah! os shows e fogos (e os últimos já foram muito bonitos) no Ano-Novo deveriam voltar, porque as pessoas não deixam de lotar a praia grande mesmo sem...  É preciso dar um pouco de, para usar uma palavra meio falaciosa, "sustentabilidade" ao local.

Mas o que se está vendo hoje, um dia antes da visita de Eduardo Paes, são intervenções maquiadoras, com brita emergencial no asfalto próximo às praias, carros da Cedae (há um problema crônico de água na região), reparo do refletor da prainha (que estava sem funcionar há meses). Ao que parece, tudo para que as reclamações sejam amenizadas amanhã...

Walter Andrade

27 de dezembro de 2011

Somos todos piratas, mesmo sem pernas de pau, olho de vidro ou cara de mau

"A pirataria é o meio que o pobre tem de participar da sociedade de consumo"

"A mais-valia, ou a (maior) parte do trabalho não-pago de um assalariado, nada mais é do que uma apropriação, expropriação, com palavras menos eufêmicas, um roubo, em suma, uma pirataria legalmente praticada pelos capitalistas"


"O pensamento é pirata": Nenhuma lógica de propriedade intelectual privada (que é recente, fruto do liberalismo) pode esconder esta verdade, a saber, de que todo pensamento é dialógico, logo é realizado sempre em relação com o outro, o que faz ruir a ingênua ideia de "pura criação" ou de "originalidade" no sentido pleno das palavras. Sem o outro não há um eu, que, na verdade, não há mesmo.

"Mesmo a arte se faz com piratarias: créditos não dados a inspirações ocultadas"

Estas são as minhas respostas com "frases fortes" a todos os repetitivos e monótonos jornalistas, que podiam estudar mais a fundo as ciências humanas e sociais e aprofundar debates, em vez de somente nos legar descrições pretensamente objetivas dos "fatos cotidianos".

Como veem, ando um pouco cansado de desenvolver longamente as ideias, e assim recorro aos aforismos, técnica já da Antiguidade, de dizer muito usando poucas palavras. De dizer, como Nietzsche, numa frase o que muitos levam livros inteiros para dizer (e muitos nem dizem!)

Walter Andrade