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17 de abril de 2014

Réquiem para Gabriel García Márquez

Fui recebido pela esposa, mal cruzada a soleira.
- Hoje você vai precisar tomar um trago. Seu escritor favorito morreu...
-Gabo?!
É véspera de Sexta Feira Santa: Quinta de Endoenças, último dia de missa antes da vigília pascoal. Gabriel García Márquez está morto e será preciso um copo cheio para engolir o passamento do santo ateu, exatamente como Jeremiah de Saint-Amour.
Sentei para jantar. Jantei. Fiquei pensando no Gabito, na minha vida e juventude, nos meus amigos.
Quando o Saramago se foi, alguém falou que o mundo havia ficado mais burro. Agora, não apenas está mais burro, como mais desprovido de fantasia e realismo. De realismo fantástico.
Parece que estamos, mais uma vez, à nossa própria sorte e miséria...

Bruno Silva

21 de fevereiro de 2013

Fevereiros idos

Sempre que chovia em fevereiro parecia que a natureza ofertava um imerecido carinho. De tanto sol, que também não se merecia, vinha um riachinho de pé abençoar os bichos e as plantas. Chovendinho. Naquele não choveu, não. Era o sol, como uma rodela de abacaxi sobre o triste povo nosso. O caminho de barro malsão, dava o tempo de empapar os corpos, de grudar as vestes e, de repente, lufada de poeira. Era uma raiva e uma tristeza, tudo junto. Triste travessia nos fevereiros idos! Chuva não dava sinal, e quando viesse era mais para desespero e desalojo.
Tinha urubuzal no alto, devia de ser res morta. Não era. Cheiro paposo, daqueles que os lixos e os mortos dão, depois de envelhecidos. Eram os idos de fevereiros. Tempo melhor há de vir, sem dar aviso. Aí vai ser uma fartura de chuva prazenteira, muito bem-te-vi de dia e noturnos grilos. Esses dias chegarão? Gregas calendas...

Bruno Silva

30 de janeiro de 2013

Manhã londrina

Manhã londrina.
É janeiro no trópico, mas nada informa.
Cai uma chuva temporã, e o ramo de trepadeiras, do muro, sorri seu verde.
Engraçado que jamais fui à Inglaterra.
Perambulo pelo aeroporto, e é pena que o trajeto de meus passos não conte para o programa de milhas!
Manhã londrina.
O mundo só tem quarenta dias, mas há tanto construído!
O governo quer mais, e já não há espaço.
Vai o governo, com seus tratores de borracha, apaga o que havia e reinventa por cima.
Nem tudo fica bom.
O Maracanã, dizem os saudosistas, deixou de ser (além da Inglaterra, nunca fui ao Maracanã).
A borracha, insaciável, procura mais para borrar!
Mas hoje, nessa manhã londrina, acordei confuso e sem cabeça para esses assuntos pesados, de concreto e memória.
Quero apenas registar isto: tivemos um janeiro atípico, acordei me sentindo um britânico sem chá nem rainha.
Fevereiro já está na porta, a nos lembrar que é Brasil.
Chega, outono!

Bruno Silva

19 de dezembro de 2012

Papai Noel estilo Bukowski

Papai Noel terminou seu expediente no shopping center, tomou um banho ligeiro e saiu apressadamente, de chinelos e barba molhada. Vai Papai Noel, atravessa a rua fora da faixa, entra num bar:
- Porra, Santa! Até que enfim, pô! Pensei que tinha fugido no seu trenó...
- Vem cá, que porra é essa de Santa? Tá querendo ferrar comigo!? A galera escuta um troço desses e pronto: to fudido pra sempre!
Papai Noel pede um traçado de conhaque com vinho quinado e uma cerveja. Tira um maço de cigarros do bolso e acende um.
- Vou te contar, hoje foi um dos piores dias! O ar condicionado não deu vazão, um chororô de criança... teve um que peidou no meu colo!
Agora os dois estão vermelhos de tanto rir
- Peidou? Puta que o pariu! E você, disse o que?
- Rou, rou, rou! A mãe do fedelho ainda ficou rindo! Mas o pior foi um gordinho que encheu a sacola do pai, berrando e dizendo que queria tirar foto comigo. Fui pegar aquela rolha no colo e ainda tomei um pisão nos bagos! Putz, quase joguei o moleque no chão! A mãe de um outro, maravilhosa, colocou o filho em uma perna minha, sentou na outra e mandou o Zé B. do marido bater uma foto. Vou te contar, meu irmão, minha rena deu até sinal de vida!
- Aí, vida boa do caramba! Tá reclamando, mas vai passar o natal com as burras cheias de dinheiro! Aproveita e paga uma porção de calabresa pra nós.
- Escuta essa: um garotinho me contou que no ano passado ele colocou a meia dele pendurada no portão, pra ganhar presente, coisa e tal... acho que ele queria um tênis do Ben 10. Esse ano ele desistiu de fazer assim e veio falar diretamente comigo.
- O que ele queria?
- O tênis do Ben 10... e uma meia nova, porque levaram a dele no ano passado!

Bruno Silva

18 de dezembro de 2012

Crônica de Natal?

Gerard Von Honthorst:  Adoração dos Pastores. 1622
Escrever a crônica natalina é uma tarefa da qual não se pode esquivar; nem os grandes escritores, nem aquele anônimo, cujo alcance do que escreve ainda pode ser menor do que aquilo que fala para seu círculo mais íntimo. Reviste a antologia de crônicas e você encontrará tantas e tão diversas apreciações do que seja o Natal que poderá pensar que os autores referem-se a festas diferentes.
Existe a crônica de celebração: o clima familiar, a família reunida...; a crônica saudosista: o Natal perdeu seu significado...; a crônica gulosa: ah, os pratos natalinos!...; a crônica cristã-inquisidora: vocês se lembram do aniversariante?...; a cristã crítica: o natal não tem a ver com Cristo, que não nasceu no 25 de dezembro...; a crônica comunista: o papai noel representa o espírito do capitalismo e o imperialismo yankee!...; a crônica capitalista com ternura: chegou o momento de presentear aqueles que amamos!...; as crônicas dos vários pseudo-Veríssimos,...  já chega?
Num universo tão grande, é difícil se direcionar. Eu me lembro que, na minha infância o Natal e a Páscoa eram os únicos momentos em que o azeite entrava no carrinho de mercado. Lembro que a azeitona tinha caroço, e que ficávamos esperando para dar o polimento geral neles, eventualmente sendo beneficiados pela generosidade materna, que deixava passar um caroço com mais azeitona. Hoje a azeitona sem caroço domina, o que bem pode ter seus pontos positivos, tirando o fato de que ficam mais salgadas por causa da conserva. Com certeza esse incômodo passará quando a ciência nos der pílulas de azeitona, ou azeitonas de soja...  
Mas era da tarefa de ser fazer a crônica de Natal que falávamos. Depois que se escreve uma fica difícil voltar ao tema. Já disse que o natal me deixa triste, e isso não mudou. Não há o que dizer de novo, e talvez seja mais difícil ainda no ano que vem. Mas na última crônica eu não desejei feliz Natal pra ninguém, grosseria da qual vou me redimir agora: feliz Natal para todos!

Bruno Silva

8 de dezembro de 2012

Crônica tragicômica

Tendo chegado com duas horas de antecedência, esganei o quanto de tempo pude e deixei o edifício do IFCS, em direção à rua do Ouvidor, muito menos fantástica do que se crê ao terminar um livro de Machado de Assis. Entro inseguro numa confeitaria granfina: Manon. Ainda não sei o que pedir quando, para meu alívio e surpresa, alguém diz "pão na chapa e café". Que bom que não preciso saber francês! Puxo um cachorro do bolso, mas a conta não passa de R$ 2,60! Vou satisfeito para minha mesa; uma tragédia se abaterá sobre mim mas eu ainda não sei.
De volta para o edifício, um galo com uma fita amarrada em seu tornozelo passa na minha frente (13, para quem quiser o palpite). Cumpro de maneira desastrada minha tarefa e saio, atordoado, atrás de chope e bolinhos de bacalhau.
Um dia no centro do Rio de Janeiro pode ser imenso! Entro na Candelária, almoço num fast food, perambulo para lá e para cá e ainda não são duas horas. Procuro algo numa livraria e cometo uma pequena extravagância. Na saída (como escrever isso sem parecer grosseiro?) sou alvejado pelos dejetos de alguma ave de muito maus desígnios. Não acredito que tenha sido um pombo: ele precisaria ser, no mínimo, do tamanho de um chester para conseguir produzir aquela quantidade! Não. Foi alguma espécie parente dos dragões mitológicos, acometida de sérios problemas intestinais, provável habitante de uma árvore da rua Almirante Barroso.Que bom que não tenha sido um vaso de plantas! Pensando assim, o azar até que não foi tanto, e eu devo ter exagerado ao usar o termo "tragédia". De todo modo, vejo-me obrigado a tirar a camisa e a mochila e ficar, no meio de uma tarde ensolarada, em plena avenida Rio Branco, com uma barriga de caminhoneiro, à procura de alguma solução menos embaraçante. Lavo-me em plena rua com uma garrafa de água mineral e compro uma camisa, valendo-me da gentiliza de um vendedor que serviu de intermédio (eu não estava em condições de entrar num aviário, quanto menos em uma loja de roupas!)
Nm dia cão como este, após mais três horas de espera, só me sobrava afogar minhas frustrações com meu amigo no Beco das Sardinhas!

Bruno Silva

31 de julho de 2012

Crônica de aeroporto

No aeroporto Antônio Carlos Jobim, esperando um meu amigo, observo as cenas que cotidianamente, suponho, se dão nos desembarques internacionais: são papeis com nomes escritos, siglas enigmáticas e símbolos estranhos; papeis que são empenhados por pessoas vestidas de maneira bastante sóbria, embora com algum excesso de tédio e apreensão. Encontros efusivos tem seu lugar no desembarque: abraços que mais parecem a prática do rapel, tudo fortemente desaconselhado pela ótica da civilidade, porém ignorado por sentimentos talvez mais antigos (alguns, segundo se propaga, exclusivos dos lusitanos e seus povos órfãos)!
Passa alguém vestido de branco (de vestido branco, mais exatamente), com a barba preta e grossa como náilon: todos suspendem a respiração. Debalde, aliás, pois que, se chegou a desembarcar, muito provavelmente vem com as melhores intenções, ou, ao menos, intenções comuns de turista. Desconfiança menor suscitam aqueles que agora chegam, saídos todos de uma mesma forma, praticando o milagre de falar e entender um idioma que nossas letras não conseguem registrar.
Observo estas coisas, conforme anunciado anteriormente,  enquanto espero, mais ansioso do que saudoso, cumpre reconhecer, esse meu amigo viajandão, que traz as muambas e encomendas dele, minhas e dos demais amigos. Uma infinidade de garrafas que, por aqui, custariam muito mais do que valem nossos fígados heróicos!
Ou o país abaixa as taxas e juros ou, o que é menos provável, vamos esperar que Hollywood nos ensine a beber, elegante e sedutoramente, doses generosas de cachaça em copos de extrato de tomates, pois aqui temo-los - os copos e a caninha - em quantidade suficiente.

Bruno Silva  

7 de dezembro de 2011

Fim da Escrita à Mão?

 
A MÃO ATIVA O CÉREBRO
31/08/2011



A palavra escrita no papel está ameaçada de extinção pelo computador. E não se trata de ser apocalíptico...

Na semana passada, uma decisão tomada nos EUA veio reforçar essa ideia que tanto atormenta os (cada vez mais raros) entusiastas do lápis, caneta e papel. Em ato inédito, o governo do estado de Indiana desobrigou as escolas de ensinar a escrita cursiva (aquela em que as letras são emendadas umas nas outras) e recomendou que elas passassem a dedicar-se mais à digitação em teclados de computador - decisão que deve ser acompanhada por outros quarenta estados seguidores do mesmo currículo. Oficializa-se com isso algo que, na prática, já se percebe de forma acentuada, inclusive no Brasil. Diz a VEJA o especialista americano Mark Warschauer, professor da Universidade da Califórnia: "Ter destreza no computador tornou-se um bem infinitamente mais valioso do que produzir uma boa letra". 

Um conjunto de pesquisas recentes na área de neurociência, no entanto, afirma que a escrita de próprio punho provoca uma atividade significativamente mais intensa que a da digitação na região dedicada ao processamento das informações armazenadas na memória (o córtex pré-frontal), o que tem conexão direta com a elaboração e a expressão de ideias. Está provado também que o ato de escrever desencadeia ligações entre os neurônios naquela parte do cérebro que faz o reconhecimento visual das palavras, contribuindo assim para a fluidez na leitura (diria-se aqui: se quem lê mais escreve melhor, o contrário também ocorre). Com a digitação, essa área fica inativa. "Pelas habilidades que requer, o exercício da escrita manual é mais sofisticado, por isso põe o cérebro para trabalhar com mais vigor", explica a neurocientista Elvira Souza Lima, especialista em desenvolvimento humano. Isso só vem reforçar a complexidade do problema sobre o qual as escolas estão hoje debruçadas. 

O hábito da escrita vem caindo em desuso à medida que o computador - cujo primeiro chip foi traçado pelo americano Gordon Moore de posse de um velho lápis... - se dissemina. Lembro até de ter ouvido, não sem riso e alguma cumplicidade, de um colega no mestrado: "acho que não sei mais escrever sem backspace!". 
 
Até aqui, foi a palavra eternizada em papel (ou pedra, pergaminho, papiro) que se encarregou de registrar a história da humanidade, não raro em garranchos deixados por seus protagonistas. O computador traz uma nova dimensão à aquisição de conhecimento e à interação entre as gerações que chegam aos bancos escolares. Para elas, escrever a mão corre o risco de se tornar apenas mais um registro do passado...guardado em arquivo digital! Como a foto cimeira...


 Adaptado de "Educar".

Walter Andrade

5 de novembro de 2011

O Fim do Mundo

2012?

Espera-se pelo fim do mundo desde seu começo, ou melhor, desde o início da consciência dos homens. Este longo aguardo é, como se sabe, de origem religiosa, e tem sempre seus ápices em viradas de século, milênio ou em catástrofes religiosas, políticas ou naturais. Tudo parece se juntar atualmente. E é pela atualidade e poesia de um diálogo de 1654, intitulado Hospital das Letras, do escritor-fidalgo português D. Francisco Manoel de Melo, que eu aqui o reproduzo. Antes, deixo meu ceticismo, incluso em Deus e portanto da Criação (partilho do evolucionismo darwinista), de confissão que antecede a citação. Ceticismo que, como se pode ver, não me impede de perceber a beleza e difundi-la, pois é também mérito dos céticos a tolerância:

"[...] porque o mundo, se bem é verdade que se há-de acabar, não se há-de desfazer primeiro que se acabe. Com todas suas forças e faculdades se há-de ir à sepultura, e até o fim permanecerá na própria ordem em que começou, convindo assim ao maior espanto dos vivos e mais admirável crédito da Omnipotência; porque tem proporção que, assim como Deus de nada fez tudo, de tudo faça nada; e, como o mundo nunca ascendeu por graus sucessivos à sua perfeição, não desça por outros tais à sua aniquilação. Porque, se o mundo fosse por graus sucessivos caducando em suas operações, fácil conseqüência e pequena maravilha viera a ser depois o fim dele. Além de que não faltara ignorância que presumisse fora também autor de si mesmo; mas obrar hoje o mundo como o primeiro dia de sua criação e acabar-se amanhã é mistério que inculca todos os espantos e encarecimentos."

Walter Andrade

21 de setembro de 2011

O advento da Primavera

"A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la...
Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.
Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul..."  Este é um trecho de Primavera, de 
Cecília Meireles. O texto inteiro é muito lindo e longe de mim ficar passando sua precisão em revista: não se trata de um artigo acadêmico sobre a primavera (até porque, se fosse, eu jamais teria lido!). Não posso deixar de notar, contudo, que as mudanças em torno da primavera são menos metafísicas do que climáticas, muito embora essas mudanças tenham o dedo de monóxido de carbono dos homens. Não que as pessoas não saibam mais o seu (da primavera) nome; elas não sabem, isso sim, para que existe. O Rio, pelo menos, costumava ter duas estações apenas: verão e inverno. Elas continuam a existir, mas parecem estar mais misturadas. Primavera? No máximo como estado de espírito. Quanto aos passarinhos, não falta muito para que, em pleno vôo, sejam assados pelo calor e já caiam prontos para serem comidos. Não seria a primeira vez que aconteceria na história a comida cair do céu...


Bruno Silva

1 de setembro de 2011

Tristeza de livraria

Tenho uma tristeza profunda de entrar em livrarias. Os livros que não li (jamais lerei) me lançam para baixo, numa série de angústias que se cruzam e me recolocam em choque com as condições a que estou submetido. Não há dinheiro para tantas obras, nem tempo para tanta leitura. Sinceramente, talvez nem mesmo necessidade. Um Pessoa já disse: "Ler é maçada,/estudar é nada./O sol doira sem literatura./O rio corre bem ou mal,/Sem edição original". Drummond também: "A literatura estragou tuas melhores horas de amor".
É a pobreza do bolso, é a pobreza da duração. O dinheiro não resolveria: são muitos livros, não há tempo. A eternidade, se alguém merecesse tanta complacência ou castigo, também não: são muitos livros, não há porquê. 
O mandamento popular: escreva um livro, faça um filho e plante uma árvore (que outro livro destruirá!). O conselho pessoal: faça dois filhos, ou plante duas árvores, entre as quais você poderá estender uma rede e se deixar balançar por horas a fio. Talvez com um livro na mão...

Bruno Silva

16 de agosto de 2011

Sobre Animalidade, Cultura Humana e Arte

 Voltando a "Sobre Herois e Tumbas", do escritor argentino Ernesto Sábato (tinha parado a leitura faltando umas 40 páginas e a retomei agora), não resisti a postar um trecho transcendental da obra, e que ademais dialoga com o post sobre "a lição do sabiá" e com o próprio fato de escrevermos - os autores do blog - contos. Vale a pena a leitura das penas humanas que segue...

"E naquele reduto solitário me punha a escrever contos. Agora noto que escrevia cada vez que estava infeliz, que me sentia só ou desajustado no mundo em que me coubera nascer. E me pergunto se não será sempre assim, que a arte de nosso tempo, essa arte tensa e desgarrada, nasça invariavelmente de nosso desajuste, de nossa ansiedade e de nosso descontentamento. Uma espécie de tentativa de reconciliação com o universo dessa raça de frágeis, inquietas e anelantes criaturas que são os seres humanos. Posto que os animais dela não necessitam: basta-lhes viver. Pois sua existência desliza harmoniosamente ao sabor das necessidades atávicas. E ao pássaro bastam algumas sementinhas ou insetos, uma árvore onde construir seu ninho, grandes espaços para voar; e sua vida transcorre desde seu nascimento até sua morte em um venturoso ritmo que não é perturbado jamais nem pelo desespero metafísico, nem pela loucura. Ao passo que o homem, ao levantar-se sobre as duas patas traseiras e ao converter em machado a primeira pedra afiada, instituiu as bases de sua grandeza mas também as origens de sua angústia; pois com suas mãos e com os instrumentos feitos com suas mãos iria erigir essa construção tão poderosa e estranha que se chama cultura e iria assim começar seu extravio, já que deixou de ser um simples animal, mas não chegou a ser o deus que seu espírito lhe sugere. Será esse ser dual e desgraçado que se move e vive entre a terra dos animais e o céu de seus deuses, que perdeu o paraíso terrestre de sua inocência e não ganhou o paraíso celeste de sua redenção. Esse ser dolorido e enfermo do espírito que se perguntará, pela primeira vez, sobre o porquê de sua existência. E assim as mãos, e depois aquele machado, aquele fogo, e depois a ciência e a técnica irão cavando cada dia mais o abismo que o separa de sua raça originária e de sua felicidade zoológica. E a cidade será finalmente a última etapa de sua louca carreira, a expressão máxima de seu orgulho e a máxima forma de sua alienação. E então seres descontentes, um pouco cegos e um pouco enlouquecidos, tentam recuperar às apalpadelas aquela harmonia perdida com o mistério e o sangue, pintando ou escrevendo uma realidade distinta da que infelizmente os rodeia, uma realidade amiúde de aparência fantástica e dementada, mas que, coisa curiosa, vem a ser finalmente mais profunda e verdadeira que a cotidiana. E assim, sonhando um pouco por todos, esses seres frágeis conseguem erguer-se sobre sua desventura individual e se convertem em intérpretes e até salvadores (dolorosos) do destino coletivo. Mas minha infelicidade foi sempre dupla, porque minha debilidade, meu espírito contemplativo, minha indecisão, minha abulia, me impediram sempre de alcançar essa nova ordem, esse novo cosmos que é a obra de arte; e acabei sempre por cair dos andaimes daquela anelada construção que me salvaria. E ao cair, machucado e duplamente entristecido, acudi em busca dos simples seres humanos".

Walter Andrade

9 de agosto de 2011

A lição da Sabiá

Por ocasião dos preparativos do "Arraiá Medinense" tive oportunidade de me favorecer da hospitalidade dos Medina em Piraí. Sem muito o que fazer no mais do dia, e sem muitos com quem conversar até a noite de sexta feira, estive vagando pela graciosa propriedade da família: flora magnífica, rio cortando o sítio e uma infinidade de aves. De repente, a ideia: "e se eu colocasse a música Black Bird, dos Beatles!? Ficaria ainda melhor, enriquecida pelos cantos dessas aves!". Como sempre, a uma ideia idiota sempre corresponde outra: "Será que o canto do Melro, que é usado na gravação da música, despertará a atenção dessas aves despreocupadas daqui?" Coloca-se a música, o comportamento dos bichinhos não revela nenhuma modificação... a música, esta sim, ficou melhor. Já satisfeito com o sucesso da primeira missão, sou surpreendido pela aproximação de uma sabiá (ou um sabiá, que as duas formas são utilizadas pela sabedoria popular, vide a música "Sabiá" do Tom Jobim). O bichinho me fita profundamente, encaro-o com expectativa: "vai responder ao canto, ou, e nada é impossível, talvez me dirija alguma palavra de conforto passarinhesco!" O bichinho chega ainda mais perto, cerra os olhinhos: "é agora!", penso eu. Palavra nenhuma:  a sabiá faz seu cocô e levanta vôo. E esse é o melhor ensinamento que se podia dar a alguém.

Bruno Silva

28 de julho de 2011

De oito às cinco

A vida de repartição é assim mesmo
Café, água mineral e livro de ponto
Relógio com ponteiros de chumbo
O exercício da profissão de estar ali
Um sociabilidade que encontra no dia a dia sua sustentação mais precária.
Perfis que te vigiam e não se sabe porquê
Tem um ofício, um memorando, um telefonema assinalado em local específico
A cidade vai acontecendo ou deixando de acontecer
E você lá, à espera do contracheque
Dourando a pílula e curtindo o tédio
Ao menos sobra tempo para alguma escrita.

Bruno Silva

13 de maio de 2011

Sobre Herois e Tumbas...


O falecimento foi na madrugada do último dia 30/04, dois meses antes de completar 100 anos; reduzido a um breve flash em meio à morte de Bin Laden, que é muito menos importante, como dito noutro post. Pois a figura a quem presto aqui homenagem (antes tarde do que nunca!) é ao grande escritor argentino Ernesto Sábato, vencedor do Prêmio Cervantes de Literatura e um dos maiores autores latino-americanos do século XX, escritor daquele que é considerado por muitos o maior romance hermano do último século, Sobre Herois e Tumbas (1961), onde o brilhante autor traça trajetórias de amores passionais e de amores platônicos, de delírios sobre a existência de uma certa Seita Sagrada dos Cegos, sobre o pano de fundo da dramática história do nascimento da nação argentina, entre guerras de independência entre Juan Lavalle e Juan Manuel Rosas ao Peronismo, ambientados numa Buenos Aires melancólica; tudo reunido na visão trágica (argentina!) de Sábato, aliada a uma esperança sempre renovada, humanista acima de tudo.

O humanismo seria de fato sua marca. Nascido em 1911, Sábato doutorou-se em física e, no final da década de 1940, quando se obteve a fissão do átomo de urânio, tornou-se pesquisador do Laboratório Curie, em Paris. Uma visão premonitória e apocalíptica da bomba atômica o fez abandonar a ciência e dedicar-se à literatura (em si uma atitude humanista e política). Mas não se tornou "contemplativo", antes participou ativamente da política de seu país. Sábato presidiu a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (CONADEP), e entregou ao presidente Alfonsin o relatório “Nunca más“ (1985), onde estão detalhados os crimes da ditadura militar argentina (contemporâneo e inspirador do nosso "Brasil Nunca Mais" da CNBB e noutros países). Lá houve um Tribunal que julgou as juntas militares... mas isso já seria tema para outro post.

Ficamos na homenagem a um escritor que muito me incentivou a gostar de literatura, através de um livrinho de contos de outros autores selecionados por Sábato, donde me interessei em conhecer o próprio (que tão bom gosto desfilava!). E se toda pessoa é única e singular, é preciso dizer que poucas são insubstituíveis, como ele. "Curioso" (pois Sabato dificilmente concordaria com o casualismo disso) que o trágico se impõe até nesse momento, pois verifico que, como uma nota dominante em nosso texto, estivemos sempre a falar de Herois e Tumbas...

Walter Andrade