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21 de dezembro de 2013

Relógios e calendários

Desconfio de relógios
Absolutamente, não confio em calendários
O tempo é matéria enganosa, fluida
Toda tentativa de sua exata medição é um fracasso
Quinze minutos de sono, quinze de engarrafamento:
Quem dirá que duram o mesmo?!
Assim com as horas, assim com os anos
Uns voam, outros se arrastam
Este 2013, para mim, não tem medida:
Foi longo porque cheio, breve porque acelerado
Mudei, casei, fui pai
Ao mesmo tempo fui filho, colega, amigo, genro...
Tantos papéis desempenhados, espaços ocupados
Fiquei uma década sem ver pessoas queridas
Pessoas que, até ontem, estavam ao lado
Como medir?
As vezes, dobrando uma esquina, virando um gole, ouvindo uma canção
Eu me transporto para outro tempo, fisicamente
Não é a memória, apenas: sou eu, lá
Calor ou frio, maresia ou vendaval
É meu corpo novamente, experimentando sensações antigas (atuais)
O tempo não existe da forma como supunhamos
Ou fiquei doido
Ou tive uma revelação

Bruno Silva

8 de abril de 2013

Nonsense com 40 anos de Dark Side

Storm Thorgerson (Storm Studios)(c) Pink Floyd (1987) Ltd/Pink Floyd Music Ltd.
O histórico álbum Dark Side of The Moon completou recentemente 40 anos.

De 24 de março 1973 até hoje foram vendidas mais de 50 milhões de cópias do disco,
que trata das loucuras modernas, como o tempo, dinheiro, esquizofrenia, vida e morte.
E o triângulo simboliza a ambição e o pensamento.

 


O branco assusta. E a despeito da (cons)ciência de sua cobertura das cores outras. Do prisma floydiano. Mas o branco, se absorve, também oprime. Se é folha para a escrita, afugenta-a. Lugar para a inscrição da memória? amnésia. Traz-nos a sensação própria do vazio, que se transporta ou vincula ao nosso e do mundo, criando ligações angustiantes. Até que se a preencha com o possível, é o provável que sofre, o potencial que não se atualiza, o brilhantismo que queda na promessa. O branco, sinônimo do puro, limpo e imaculado, é, por força disto, superfície sujável por excelência, é o preto no branco. No fim das contas (ou das metáforas!) é a nota preta que vale, se bem que no fim só vale o crido, e mesmo sem tê-lo visto.

Estranho que do ponto de vista das cores seja o branco que simbolize o racismo! Ainda mais que os "brancos" mais com a cor dos botos se parecem... óh, onde sonham as formigas verdes?

Ou, como diria Humberto Gessinger...

"Nem todo nonsense faz sentido
 Nem todo sentido faz falta
 Nem toda falta de sentido é sentida"

Ou como uma segunda voz dos soldados respondendo à do comandante militar

"Não faz...SENTIDO!"                        

Talvez nem este post...



Walter Andrade

30 de janeiro de 2013

Manhã londrina

Manhã londrina.
É janeiro no trópico, mas nada informa.
Cai uma chuva temporã, e o ramo de trepadeiras, do muro, sorri seu verde.
Engraçado que jamais fui à Inglaterra.
Perambulo pelo aeroporto, e é pena que o trajeto de meus passos não conte para o programa de milhas!
Manhã londrina.
O mundo só tem quarenta dias, mas há tanto construído!
O governo quer mais, e já não há espaço.
Vai o governo, com seus tratores de borracha, apaga o que havia e reinventa por cima.
Nem tudo fica bom.
O Maracanã, dizem os saudosistas, deixou de ser (além da Inglaterra, nunca fui ao Maracanã).
A borracha, insaciável, procura mais para borrar!
Mas hoje, nessa manhã londrina, acordei confuso e sem cabeça para esses assuntos pesados, de concreto e memória.
Quero apenas registar isto: tivemos um janeiro atípico, acordei me sentindo um britânico sem chá nem rainha.
Fevereiro já está na porta, a nos lembrar que é Brasil.
Chega, outono!

Bruno Silva

31 de dezembro de 2012

"O mundo não sabe que o ano mudou"


"O mundo não sabe que o ano mudou", dizia Artur da Távola, para lembrar que somos o único ente a comemorar o fim do ano. A data de hoje só possui significado para o ser humano, e mesmo assim não para todos. Como o mundo não acabou (e, ao que parece, não acabará muito em breve) talvez devêssemos fazer as contas do que nos espera em 2013: este fará uma dieta, aquele deixará o cigarro; esta comprará bicicleta, a outra não beberá gota alcoólica.
Parece que o branco ainda predomina sobre o amarelo nas vestes da passagem de ano. Sincero ou não, ainda é um bom sinal. O ano que se avizinha tem bagagem parecida com a de seus antecessores. Ao imprevisto é que cabem as surpresas. Fará calor, choverá de vez em quando. Indiferente ao calendário, o mundo não estará diferente em 2013. Você estará?
A paz continuará cavando seu espaço. A intolerância, pertinaz, buscará por todos os meios manter seu território... cada vez menor. Temos uma tarefa tão nobre quanto árdua: conviver na diferença. A felicidade continuará sendo a eterna busca, mas em 2013 ganhará um reforço!

Bruno Silva
                     

27 de novembro de 2012

Vinil x Blue-ray

"Nunca mais apareceu ninguém como Tom Jobim!", "Jamais haverá outro grupo como The Beatles!", "Renato Russo revira-se na cova quando escuta o dito Rock dos nossos tempos!". Em geral, frases como essas são prelúdios para o arremate saudosista: gostaria de ter nascido naquela época!
Este sentir-se deslocado no mundo é uma instituição inabalável do nosso tempo. Ignoro se os homens nascidos nos fins do século XIX experimentavam a mesma sensação diante dos bondes e da iluminação à gás. É provável que sim. Mas os de hoje padecem muito mais desse mal-estar!
Argumentos favoráveis ao hoje existem: a informação circula mais, há mais liberdade ("prá escolher a cor da embalagem"?!), avanços da medicina, encurtamento das distâncias...
O ontem, com o perdão do trocadilho, não fica para tras: respirava-se melhor ar, ouvia-se melhor música, dormia-se em maior silêncio, comia-se melhor...
É difícil uma decisão convicta: "gostaria de conhecer a boemia de verdade, mas Deus me livre morrer de tuberculose!"; "é muito bom poder, com apenas um toque, ter acesso à toda obra de Noel Rosa, mas seria melhor se ele estivesse vivo!"
De que lado você está? Vinil ou Blue-ray? Bem, você está lendo isso numa tela de computador ou qualquer gadget. Se fosse num jornal, você teria chegado até aqui? Difícil saber. O certo é que, se os bons tempos se foram, é reconfortante a possibilidade de um download!
Mas não fique deprimido, você ainda pode enfiar sua face em algum bom e velho book de papel, ou morder uma Apple das que se encontram nas quitandas!

Bruno Silva

p.s.: Ia ilustrar o texto com uma imagem que fizesse alusão ao título, mas a utilizada não só é pertinente ao assunto, como também constitui um exemplo da criatividade que podemos conferir no endereço seguinte: http://www.ciadodesigner.com/2011/03/sobreposicao-de-fotos-passado-x.html

21 de agosto de 2012

Curtindo a vida adoidado: entre a falta e a folga

Não sei se alguém já notou, mas um dia de falta pode recompensar mais do que um de folga. É claro que há o dia descontado, fazer o quê? Café produz gastrite; bebedeiras, ressacas. É um preço justo, o que não nos impede de tentar, por mil artifícios, o abono redentor.
Faltar um dia de escola é altamente recompensante. Faltar um dia de trabalho, revigorante. Imagine-se, então, quando se trabalha dentro de uma escola?! É a própria glória desse plano!
A falta é uma atitude transgressora, é uma tomada momentânea da felicidade de que nos privaram na época das maçãs proibídas. Quando se falta ao trabalho - sabe-o quem já fez - recupera-se um dia de ócio, que será tanto melhor se não for um do tipo criativo. A folga, por sua vez, vem com ares de concessão, de recompensa (nunca suficiente) pelo trabalho que se realizou. Por mais que represente - e representa - uma conquista dos trabalhadores, a folga nos mantém no terrítório do mundo do trabalho. Estamos ainda dentro do sistema capitalista quando tiramos um dia de folga: em geral acordamos cedo, programamos o dia, saímos ao consumo e continuamos dando corda à engrenagem. A folga é algo do qual se pretende extrair o máximo, o melhor. É boa, mas não se compara à falta, sobretudo àquela que não se adivinhava na véspera. Aquela que, de repente, aconteceu na falha do relógio, nos cinco minutos a mais, no "vou um pouco mais tarde hoje". Acaba-se acordando para almoçar, no meio da semana, sem noite que nos espere.
Quando faltamos ficamos à deriva dentro de casa, e finalmente descansamos.
Quem leu o título percebeu a referência: Save Ferris!
Mas, dirão alguns, ele faltou aula para curtir a vida adoidado, indo para vários lugares, vivendo fantásticas aventuras. Ao que argumento: pode ser, mas Ferris Bueller não estava perto dos trinta!

Bruno Silva

22 de julho de 2012

Gerais: o que um piercing de castidade, Humberto Gessinger e um gordo num fusca tem em comum?

Na Índia acontece tanta coisa esquisita que faz um deus de quatro braços e tromba de elefante parecer pinto (não, não fica parecendo um pequeno bípede penado; é apenas uma forma de expressão). Dois exemplos: um homem de 83 anos (em 2010) intrigara cientistas ao ficar dez dias sem comer e sem beber! O fato até serviu de prenúncio para o que se acredita ser o advento do apocalipse zumbi. Mais recentemente, outro indiano, dos que comem, instalou um artefato revoltante em sua esposa: um "piercing de castidade". O marido instalara um cadeado na genitália de sua esposa e levava as chaves na meia, todos os dias antes de ir trabalhar. Quer dizer: um indiano não quer comer, e o outro, não quer que os outros comam! Fiquei pensando: esse cara não só é um idiota ignorante, como tem pouca imaginação sexual. Isso vindo da terra do Kama Sutra é, no mínimo, absurdo!
Mudando de assunto, preciso comentar dois acontecimentos da esfera pessoal. O primeiro diz respeito a uma noite de autógrafos no Rio Sul. Os fãs de Humberto Gessinger tivemos uma oportunidade rara de conhecer o ídolo e, ainda por cima, tirar uma foto para recordação. Tendo lido na tarde do dia 18 que Gessinger estaria por lá lançando seu último livro "Nas entrelinhas do horizonte", não pensei duas vezes:

Por fim, quero compartilhar uma reflexão que tive na manhã seguinte: vi um gordo dentro de um fusca e achei a coisa mais leve do mundo! Aquela imagem me emocionou e me passou uma sensação de harmonia nas coisas. Parecia que o gordo havia se sentado num banco e esperado que o fusca fosse montado ao seu redor. Parecia que o fusca era um casaco de chuva daquele gordo. Um quilo a menos no proprietário, um centímetro a mais no fusca, e lá se ia a harmonia. Coisa complicada é o equilíbrio: pode estar num gordo dentro de um fusca, mas pode faltar num estudante de neurociências numa sala de cinema dos Estados Unidos da América.


Bruno Silva

17 de julho de 2012

Da comunicação mãe-bebê

Mães e bebês possuem uma forma específica e enigmática de comunicação. Como no trânsito, as mães sabem o que ignifica o choro breve, o choro longo, dois choros breves, etc. Eu não entendo de apitos, quem dirá de choro de crianças! Mas o que chamou minha atenção na sexta feira passada foi outra coisa: dentro de uma kombi estavam uma mãe e seu bebê. Era uma menina (falo do bebê), e me olhava fixamente. Tentei algum tipo de aproximação (falo do bebê), mas rejeitei, como sempre faço, apelar para o estilo bilo-bilo. É como dizia o Quintana: "O idiota estilo bilo-bilo com que os adultos se dirigem às crianças, isso deve chateá-las enormemente..." Fiquei olhando, mexendo as sombrancelhas, os lábios... sendo ridículo de outra maneira, em suma.
A menina, que se chamava Izabeli, não esboçava reação, apenas me fitava como se soubesse algum segredo meu. Comecei a me sentir mal, fiz revisão do meu dia: o que será que essa criança sabe a meu respeito. Comentei com a mãe da menina: - poxa, ela não dá chance! Está me olhando de uma maneira adulta, parece que sabe algum segredo meu! Continuamos nos olhando, e era sempre a mesma ameaça nos olhos da Izabeli. Quando desci da kombi, de alguma forma aliviado, a criança, que tinha um ano e pouco, subitamente olhou para a mãe. Mas olhou de uma forma tão eloquente que até eu consegui traduzir o que ela queria dizer: "Mãe, de onde você conhece aquele idiota!"

Bruno Silva

25 de maio de 2012

Pseudos ou Quase Isso!





Triste como se vulgariza tudo neste país (e não só aqui), do sertanejo de raiz tornado "batidão sertanejo"(!), do samba ao "pagode romântico", do forró tornado "aviões do". Agora ainda assistimos ao Rock virado happy rock, emo, hip-rock, new metal... Que mundo nos ficou! Ao que a indústria cultural e outros tantos fatores nos levaram!


E daí surgem ainda os cult's, do outro lado do espectro (os pseudos), que endeusam qualquer banda/artista doce (apenas ou quase bom) que surja num mar salgado...


Ah, este Brasil brasileiro que tem, quiçá, a melhor música no mundo, não por nacionalismo, mas exatamente por cosmopolitismo, por antropofagia criadora.

Lembro hoje (saudosamente já!) da década de 1990 - que em breve passará por um processo de "cultização" também -, na qual se emparelhavam ainda bandas/artistas como Engenheiros do Hawaii, Nação Zumbi, Angra, Djavan,  (para ficarmos nos mais conhecidos apenas)... com a ascensão do "pagode romântico", do "axé" e do "funk" (ao menos aquele que ficou para a classe média televisiva e baladeira, sabe-se lá do "funk de protesto" que rumo tomou). Tivemos no âmbito internacional muita coisa boa ainda (Oasis, Pearl Jam, Radiohead etc.), mas já se sentia o avançar das correntes deletérias...



Hoje a defesa da boa música tem tomado um aspecto "cult" que também me incomoda, com um lado artificial e artificioso de artistas afortunados, entediados e sem vida, que não podem revolucionar verdadeiramente a arte como um dia Astor Piazzola, Jimi Hendrix, Miles Davis e a Tropicália o fizeram. O punk veio dos subúrbios londrinos... não quero dizer com isto que gente rica não possa fazer música "profunda", mas decididamente não com esta postura indiferente! (No mais, o próprio rock progressivo seria uma contraprova)


Hoje as "novidades" que ouço são o passado esquecido, as bandas quase desconhecidas que busco na net, os gêneros diversos como a música latina, o fado, o tango, o jazz, o blues, a MPB claro, tudo isso que passou também (tirante a música latina talvez) pelo tal processo artificioso de "cultização", porque é preciso que se lembre que são todos gêneros populares, populares eu disse. O jazz e o blues são apanágio da black music norte-americana! O tango dos subúrbios de Buenos Aires como La Boca, se o fado não for popular também eu de nada mais sei...

Parece que antes era "natural" ouvir música boa, era parte do Zeitgeist, da atmosfera, do "espírito do tempo"; hoje é um esforço - o esforço é incontornável - que tende a premiar o ouvinte com um status de culto...

Devemos ser, antes de tudo, não dever, e, depois de mais nada, iconoclastas.

Este texto é um desabafo. Pois não posso compactuar com a inautenticidade dos pseudos atuais 
(e receio ser confundido com um "cult").. É só mais uma forma - das inúmeras - de alienação, esta cultural. 


Walter Andrade 

11 de março de 2012

O homem; as viagens... de ônibus!

Eis um trecho do brilhante poema de Carlos Drummond de Andrade: "O homem; as viagens", publicado em época tão recente quanto seja 1973, quando a possibilidade de se chegar a Marte era mais remota do que hoje!

"O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão.
Faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para o Lua
desce cauteloso na Lua
Pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte - ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.
Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?"
(...)

Dispensam-se maiores comentários sobre a poesia, que parece ter algo a ver com a ida (terá ido?) do homem à Lua. Fala, claro está, da insatisfação e inquietação do ser humano, da vontade de ver o novo, errar de novo.
Ocorre que, atualmente, a ida a outra parte (digamos: Marte!) coloca-se quase como uma questão de manutenção da vida: não falta só diversão, falta espaço para tantas ruas; ruas para tantos carros. Ponho-me a imaginar marcianos em seus cinemas, tremendo com a possibilidade de uma invasão terráquea ao seu planeta. Um amigo e autor no blog esteve por esses dias numa infernal viagem de ônibus interminável! Veio-lhe, então, a inspiração que eu, sem prévia autorização, dou a conhecer:

"Vai vir um dia em que a malha viária será menor do que o comprimento de todos os automóveis perfilados; nesse mesmo dia não haverá terreno para se construir. Os prédios ficarão mais altos, talvez os carros subam na parede, talvez nos mudemos para Marte. Talvez os prédios, de tão altos, cheguem até Marte. Vias expressas interplanetárias sobre as empenas desses edifícios...caberiam mais alguns carros!
Chegaríamos em Marte na metade do tempo, iríamos mais à Marte, finais de semana incríveis, em Marte! Casa de campo! Iates! Carro off road pra fazer trilha, em MARTE! E vai chegar um dia em que não haverá mais espaço em Marte..."
Marte humanizado.

Bruno Silva/ J.G.

6 de março de 2012

Ressurgimento do Carnaval de rua do Rio?

(foto aérea do Monobloco/2012)
Pode ser que eu esteja apenas ficando velho, mas não consigo ver essa melhora tão propagada por todos no carnaval de blocos no Rio de Janeiro.
A prefeitura e o Estado certamente gostam, pois com um patrocinador fixo pagando milhões para exibir sua marca (que nem é a melhor delas!) e jogando a responsabilidade de organização, segurança e horários a seguir nos blocos, deixam seus ombros livres e leves pra curtir a festa.

As mudanças que eram realmente necessárias estão sendo feitas, deve-se ressaltar: mais banheiros químicos (apesar de, em alguns casos, mal distribuídos), um policiamento mais ostensivo e presente e, principalmente, a coleta mais eficaz do lixo deixado pelos foliões.
Porém, em minha opinião, estão querendo bahianizar nosso carnaval! Estão querendo colocar todos (ou a maioria esmagadora) os blocos no Centro, na Avenida Rio Branco, como se fosse um corredor, uma espécie de Barra/Ondina em que os foliões se aglomerassem e ficassem no constante ritmo das ondas, indo com um bloco (Monobloco?) e voltando ao início da avenida para acompanhar outro. E assim durante o dia todo em nosso Mauá/ Cinelândia.

Não acredito que alguém que tenha ido ao Monobloco em Ipanema, ou em Copacabana, com 80 mil pessoas, goste ou vá no desfile da Rio Branco, com suas 500 mil. O Monobloco foi nascido na zona sul, e tiraram um pouco de sua originalidade quando o mudaram de lugar. Seria o mesmo que tirar o Suvaco do Cristo de baixo do suvaco do Cristo Redentor. Sinceramente espero que não viva para ver 2 ou 3 milhões de pessoas se espremendo no circuito Paes/Cabral para ver o "Virilha do Teatro" passar, acompanhados de milhares de uniformizados dentro da corda com seus abadás.

Mas pode ser que eu esteja apenas ficando velho.


Thiguim

14 de fevereiro de 2012

Cadê a rede?

No texto que escrevi anteriomente, ainda acreditava que a felicidade cabia numa rede. Mas ela não cabe, não. Porquê? Porque me levaram a rede num dia de calor. Dava pena de ver as paredes nuas! A casa ficou desproporcional sem aquele pano pendurado que era, para mim,  precipício e pára-quedas. Raptaram o meu sossego e nem sequer deixaram bilhete para o resgate!
(...)
Uma lenda muito antiga ensina que o homem desceu das árvores e foi aprendendo a andar cada vez mais ereto, até conseguir ficar de pé sem que isso representasse grandes desafios de equilibrio. Esse homem, que no início não era homem, não era nada... esse homem trocou as frutas pela carne vermelha, amaldiçoou o pequenique e bendisse o churrasco. Acontece que eu estou a meio caminho da evolução: quero a carne e quero a rede! Luto pelo indulto da eterna penitência que é estar de pé!
A felicidade que eu tinha caiu da rede... mas nao morreu! Ela não pode morrer, porque está, para sua segurança e para a nossa, espalhada por vários cantos, contida em várias coisas: chalé, cachoeira, mulher morena, café, comida mineira...
Há quem diga que a felicidade é encontrar finalmente o seu lugar ao sol!
Particularmente, eu tô atrás de sombra...

Bruno Silva

30 de janeiro de 2012

A felicidade cabe numa rede



Estive pensando na felicidade que encontro quando estou desfalecido na rede, como um Marat assassinado. Não peço e não preciso de mais nada para estar bem. A ideia é bem poética, mas logo vem a evidência materialista para atrapalhar: uma rede não flutua no espaço; é preciso dois ganchos que a sustenham. Ganchos não possuem asas, precisam ser fixados em dois pontos fixos. Até poderia usar duas árvores, mas então vem a prefeitura, o proprietário, ou mesmo um pássaro no seu momento mais íntimo e aí... Reclamemos, pois, o conforto de um teto sobre a rede, para que ninguém venha encher a paciência. Mas casas custam dinheiro; dinheiro não nasce em árvore (olha a árvore, não resolvendo pela segunda vez o meu problema!). Vamos atrás do dinheiro para o teto. Mas é a estória do "Capitão de Indústria", música dos irmãos Valle, gravada pelos Paralamas do Sucesso: "Eu acordo prá trabalhar/ Eu durmo prá trabalhar/ Eu corro prá trabalhar/ Eu não tenho tempo de ter/ O tempo livre de ser/ De nada ter que fazer..." Não dá pra ficar o tempo todo em cima da rede, assim como não dá para ser feliz o tempo inteiro. Uma hora você tem que se levantar, mas até lá...




Bruno Silva

23 de janeiro de 2012

Niilismo em raso mar!

Bela Foto de Satélite do Naufrágio
Contraste entre o Colosso e as Comuns Embarcações










O Cruzeiro Concordia desrealizou o seu nome: indignação comungada como uma missa, heroicização da pessoa que cumpria docilmente sua função. Há algo de recusa hierárquica na atitude do comandante do navio, de não se submeter a ordens de alguém da capitania dos portos. Há também, quiçá, qualquer coisa de simplesmente intangível no abandonar do navio pelo comandante: cito aqui Bukowski, não para justificar tal ato - Bukowski nunca será citado por um advogado num tribunal real - mas para compreender, se foi mesmo isto que ocorreu:

"Andava com mania de suicídio e com crises de depressão aguda; não suportava ajuntamentos perto de mim e, acima de tudo, não tolerava entrar em fila comprida pra esperar seja lá o que fosse. E é nisso que toda a sociedade está se transformando: em longas filas à espera de alguma coisa. Tentei me matar com gás e não consegui. Mas tinha outro problema. Levantar da cama. Sempre tive ódio disso. Vivia afirmando: 'as duas maiores invenções da humanidade foram a cama e a bomba atômica; não saindo da primeira, a gente se salva, e, soltando a segunda, se acaba com tudo'. Acharam que estava louco. Brincadeira de criança, é só disso que essa gente entende: brincadeira de criança - passam da placenta pro túmulo sem nem se abalar com este horror que é a vida".


Fiquei refletindo sobre isso quando imaginei a cena do comandante em seu bote, num momento de epifania, olhando fascinado e hipnótico para o navio a naufragar, um colosso afundado por "simples" pedras drummondianas (que agora o sustentam, evitando seu pleno afundamento), negligenciando auxílio aos passageiros em filas pânicas, em seu horror à mutação ligeira daquelas pessoas dantes civilizadamente, irrefletidamente, felizes. Não consigo esconder em um de mim (qual, quain?) uma certa simpatia por ele. Crucificar-me-ão, claro, reação instantânea, e por isso instintiva e impensada.

Walter Andrade

PS: Vi o anúncio nos cinemas de que a versão em 3D de TITANIC será exibida. Estranha "coincidência casual", ou propaganda real para um filme baseado em fatos reais, que reeditará numa dimensão a mais o esplendoroso sucesso de bilheteria!

3 de janeiro de 2012

Tarde-sépia

Ontem de tarde havia uma luz diferente. Tentei capturar uma imagem mas, por sorte, a câmera de meu telefone não funcionou. A única maneira de registrar o instante era o papel e o lápis. Não que eu fosse me por a desenhar: escrevi com minha letra cada vez pior as ideias que me vinham. Choveu muito em todo Estado, com maior prejuízo para os moradores da ainda convalescente região serrana. Espero que o sofrimento dessa gente passe logo, seja breve; como aquela tarde-sépia que a noite carregou.

Tarde-sépia
Chuva fina
Rua derretida

Na calçada
Passos breves
Vão seguindo a vida

Poça d'água
Luz de sódio
Cena revelada

Mas se a noite
Tem neblina
Já não deixa nada

Bruno Silva

27 de dezembro de 2011

Somos todos piratas, mesmo sem pernas de pau, olho de vidro ou cara de mau

"A pirataria é o meio que o pobre tem de participar da sociedade de consumo"

"A mais-valia, ou a (maior) parte do trabalho não-pago de um assalariado, nada mais é do que uma apropriação, expropriação, com palavras menos eufêmicas, um roubo, em suma, uma pirataria legalmente praticada pelos capitalistas"


"O pensamento é pirata": Nenhuma lógica de propriedade intelectual privada (que é recente, fruto do liberalismo) pode esconder esta verdade, a saber, de que todo pensamento é dialógico, logo é realizado sempre em relação com o outro, o que faz ruir a ingênua ideia de "pura criação" ou de "originalidade" no sentido pleno das palavras. Sem o outro não há um eu, que, na verdade, não há mesmo.

"Mesmo a arte se faz com piratarias: créditos não dados a inspirações ocultadas"

Estas são as minhas respostas com "frases fortes" a todos os repetitivos e monótonos jornalistas, que podiam estudar mais a fundo as ciências humanas e sociais e aprofundar debates, em vez de somente nos legar descrições pretensamente objetivas dos "fatos cotidianos".

Como veem, ando um pouco cansado de desenvolver longamente as ideias, e assim recorro aos aforismos, técnica já da Antiguidade, de dizer muito usando poucas palavras. De dizer, como Nietzsche, numa frase o que muitos levam livros inteiros para dizer (e muitos nem dizem!)

Walter Andrade

13 de dezembro de 2011

Roupas novas: a forma como as coisas mudam

Hoje, quando não comemoramos nenhuma data especial para o Traquitana, o blog aparece de cara nova. O motivo da mudança, como é frequente no mundo, foi ocasional. Nada tem a ver com a proximidade do Natal ou  Ano novo: nos últimos dias o lay out do Traquitana enfrentava problemas e acabava dificultando a leitura. Naturalmente, apenas uma pessoa registrou o fato para mim, o que dá provas da imensidão de leitores que já possuímos! Fui tentar resolver a questão, mas o modelo de lay out que utilizávamos, turrão, não se permitia alterações significativas. Quis experimentar outro, testar a aparência, mas foi um passo sem volta! Como na vida, a minha decisão acarretou uma modificação que não pude desfazer. A vida virtual, cada vez mais desejosa de substituir a vida real, vai aos poucos aprendendo seus defeitos!

Bruno Silva.

1 de dezembro de 2011

Pense rápido I: a expectativa de vida do brasileiro.

Nova pesquisa publicada hoje revela que a expectativa de vida do brasileiro que nasceu em 2010 é de 73,5 anos de vida. Mas o adiamento da cova só é válido para os que vieram à luz no ano passado. Quem nasceu em 2009 leva uma desvantagem de 3 meses e 22 dias. Já os de 2000, segundo os indicadores para aquele ano, viverão 3 anos e 10 dias a menos. Eu me pergunto: qual a indenização para os que empacotarem antes? E mais: dá pra comemorar, se a expectativa de vida do planeta é cada vez menor?

Bruno Silva

17 de novembro de 2011

Ensaio sobre a cegueira?

Certa vez ouvi uma história que me deixou estarrecido: os médicos nazistas testavam procedimentos cruéis em judeus prisioneiros, no intuito de conseguirem modificar a cor dos olhos, transformando-os em azuis. Para fazê-lo, os médicos injetavam tinta nos olhos das "cobaias involuntárias". Até hoje não sei se esta crueldade fazia parte do rol de loucuras do nazismo, mas a simples hipótese de ter sido verdade é suficiente para me fazer sempre menos entusiasta da humanidade. 
Quando se conta uma história dessas, hoje, muitas pessoas podem ficar abaladas pelo procedimento bárbaro então utilizado. Alguns, pouco mais sensíveis, chocam-se com a falta de escolha dos judeus, com a imposição dessa mudança estética. Número talvez menor é o daqueles que pensam: por que mudar a cor? O que isso pode significar? Ocorre que recentemente foi divulgada uma dessas descobertas inúteis da ciência: uma cirurgia a laser capaz de destruir a melanina dos olhos, que é responsável pela coloração castanha, fazendo revelar o azul que há por baixo. Quer dizer, a melanina atrapalharia a verdadeira cor! A "descoberta" partiu dos EUA, e seu responsável (o advogado Gregg Homer, da empresa Stroma Medical) espera que a nova tecnologia esteja disponível primeiro na América Latina e nos países asiáticos, afirmando que são mercados promissores e mais tolerantes à cirurgias estéticas. Será mesmo esse o motivo?
A discussão poderia enveredar por ramos intermináveis: do racismo à liberdade no gozo do próprio corpo, característica de nosso tempo, já tão acostumado às tinturas de cabelo, bronzeadores e lentes de contato coloridas. Poderia se discutir o paradoxo da geração: luta pela afirmação da pluralidade étnica e desenvolvimento de procedimentos sutis de recusa de alguns traços característicos do que alguns ainda chamam de "raça". Engraçado que o Michael Jackson, em entrevista ao jornalista britânico Martim Bashir, chamou a atenção justamente para a questão, pois se tratava de condená-lo (ao Michael Jackson) pela despigmentação da pele, enquanto as indústrias farmacêuticas seguiam faturando bilhões com cosméticos destinados a essas pequenas mudanças de fenótipo acima referidas, sem que isso gerasse grandes inquietações. A propósito, existe um vídeo que faz muito sucesso na rede, somando quase quatorze milhões de exibições. O título do vídeo: o bebê mais lindo do mundo. Mostra uma criança negra de olhos azuis. E se fossem escuros os olhos, será que o bebê seria considerado “o mais lindo do mundo”?
Ao que parece, existe o risco do desenvolvimento do glaucoma pigmentar resultado da cirurgia, podendo levar os pacientes à cegueira. Como o Saramago chamaria um surto proveniente dessa nova “maravilha” da ciência? O “mal azul”?
Além disso, o procedimento deverá custar algo em torno de cinco mil dólares (por olho). Então, eis um possível diálogo de consultório num futuro breve:
 
-Doutor, gostaria de ter o olho direito azul?
-E o esquerdo?
-O esquerdo eu vou usar para pagar a cirurgia!
  
Bruno Silva

10 de novembro de 2011

Os royalties e a Índia

O que a marcha em defesa dos royalties do Rio tem em comum com a Índia? Aparentemente nada, mas foi através da primeira (pela sua tangente, para ser mais exato) que eu fui parar numa exposição sobre a segunda.
A marcha, propriamente dita, foi sofrível: os carros de som uns contra os outros e todos contra mim (improvável hipótese, além de confessado egocentrismo). Mas ao som do funk, axé e samba, eu pouco resisti entre o sol escaldante e uma Rio Branco negra de petróleo, onde o asfalto mais parecia um mar de óleo diesel; e foi andando sobre ele, como um São Pedro temeroso, que cheguei à exposição do CCBB em busca de ar condicionado: entrei na  Índia.
Vi coisas interessantes, vi um amigo meu em trajes estranhos e me senti um George Harisson sem guitarra. Já na entrada mantive um complicado e divertido diálogo com um senhor de problemática dicção, mas de ideias engraçadas. Perguntava-me o bom macróbio se na Índia se sabia do verdadeiro Deus, e que figura esquista era aquela com quatro braços e cabeça de elefante. Começamos a falar de religião e ele disparou: ''mas o verdadeiro Deus apronta umas provações fdp (arrependeu-se em seguida, e pediu perdão pela maneira nada apropriada de se referir). E que história foi aquela de fazer aposta com o Diabo?! Coitado do pobre (rico) Jó: ficou mais teso do que o próprio Cão! Virou praticamente um mendigo!''.
O senhor foi embora como uma aparição, me deixando lá com a ideia desse texto na cabeça.
Que Deus o livre e guarde! Ou Ganesha, talvez...

Bruno Silva