16 de maio de 2013

Desculpe incomodar sua viagem

O sujeito entra no ônibus e permanece de pé, fitando os passageiros. Depois de uma breve pausa, começa a falar:
- Boa tarde, senhores passageiros! Desculpe incomodar o sossego da sua viagem. Eu sou ex-presidiário, paguei meu débito com a sociedade e estou aqui para saber se algum dos senhores pode me abençoar com uma oportunidade. Muitas vezes o ex-presidiário volta a cometer crimes, a roubar, porque a sociedade não lhe dá outra oportunidade. Eu estou aqui para pedir esta oportunidade para os senhores. Quem puder estar me abençoando com qualquer quantia, que Deus o abençoe. Aqueles que não tiverem como ajudar, que Deus abençoe também. Esse dinheiro, senhores passageiros, será para comprar balas e doces para vender nos ônibus, podendo, assim, levar o sustento para minha família sem precisar voltar ao mundo do crime. Eu nunca mais quero roubar! Obrigado senhores passageiros!
O sujeito começa a percorrer o corredor do ônibus. Alguns passageiros fingem estar dormindo (que é a maneira que muitos encontram para escapar a essas e outras situações cotidianas nos ônibus -sobretudo para não ceder o assento a quem de direito!), outros fixam o olhar pela janela. Alguns entregam moedas.
O sujeito recolhe tudo, agradecido, e põe-se novamente de pé, de costas para o motorista. Ele conta o montante e desabafa:
-Dez reais e quarenta e cinco centavos!... senhores passageiros, a passagem custa dois e setenta e cinco. Vai me sobrar sete reais e pouco! Deus e os senhores são testemunhas de que estou aqui me humilhando para conseguir o meu sustento, mas muitos de vocês endurecem o coração quando veem alguém necessitando de ajuda. Peço desculpas aos que contribuíram, mas eu agora vou assaltá-los! Não quiseram me dar, então eu tomo! 
O sujeito saca um revólver da cintura enquanto anuncia o roubo. Ele recolhe o dinheiro de todos, os celulares, relógios, jóias e até alianças de casamento! Ao final, informa que aquilo foi provocado por eles mesmos, que não souberam ser generosos. Manda o motorista abrir a porta e, para surpresa geral, paga a passagem antes de descer.
Os passageiros, atônitos, custam a acreditar que aquilo lhes sucedeu. O irreal do acontecimento parece informar que tudo se trata de um pesadelo coletivo, do qual acordarão antes do ponto final. Mas nós sabemos que isso não acontecerá. Eles continuarão dormindo. Todos continuaremos a dormir. Estamos no país do sono. Até quando?

Bruno Silva

7 de maio de 2013

As Guerras das Coreias

É isto a animalização do homem, parece gado abatido. Eu não gozo com isso...


A preocupação das últimas semanas com a possibilidade de uma guerra nuclear (finalmente, diriam os de humor negríssimo!) entre a Coreia do Norte e os E.U.A cedeu lugar na semana em que vivenciamos à descoberta da geopolítica na Coreia do Oeste. É, fica ali, no Extremo-Oriente, próximo a Bangu. Só que o caso não abalou só Bangu, mas a opinião pública carioca como um todo. As pessoas em sua maioria estão indignadas! E com a Globo, vejam vocês, só que pelo motivo errado (ou desumano). Muito me intriga as (des)razões escusas da emissora ao transmitir tais imagens, aliado a um frenesi da violência real mas que, com aquela câmera térmica, mais parece uma sorte de GTA: Rio. Gerações viciadas em videogame, filmes violentos e lutas de boxe (e agora de UFC) parecem não entender que aí se trata de ficção ou violência controlada por regras e um juiz mais foda que os oponentes muitas vezes. É de perguntar se essa cultura da imagem desrealizou esse pessoal, que ficaram imersos num mundo fantástico onde não se precisa crer em eternidade da alma pois a salvação dos corpos se encontra a um clique de restart (sem salpicar a tela de sangue real, sem a dor da morte, cadáveres em decomposição com odor fétido, sem ter a vida real interrompida por uma bala perdida). Essa é a visão da classe média, mediana, midiática, medíocre, sobre a realidade.


Naquelas brincadeiras matemáticas em que se falava da morte de milhares de chineses, cambojanos, vietnamitas...poucos conseguiam evitar o riso sádico de que não fazia diferença (são bilhões afinal!) que mal escondia uma implícita hierarquia na ordem das vidas humanas. E hoje a vida de um coreano nunca valeu tão pouco!

Walter Andrade

16 de abril de 2013

Maioridade penal no Brasil?

Maioridade penal no Brasil é questão para debates acalorados. Toque no assunto quando estiver em uma mesa de bar com seus amigos e lá se vai a noite por água abaixo! Periga até sair briga no boteco, com polícia convocada e todo mundo indo parar na cadeia (pense bem: um bando de marmanjos em plena maioridade penal trocando tapas quando os argumentos já não bastam).
Existem algumas formas distintas e talvez complementares de se enxergar o problema. Em primeiro lugar: o que fez e continua fazendo com que a juventude ponha uma pistola (real ou de brinquedo) na mão e saia para o ganho nas ruas? Em algum momento, parece, alguém não cumpriu seu papel (pais, Estado, etc.). Podemos nos perguntar o porquê dessa omissão, e o texto não acabaria mais. Peço vênia para deixar esta questão para ser resolvida em momento apropriado. Encarar o problema dessa forma pode parecer ideológico, demonizador do Estado e vitimizador do delinquente. É aquela velha história: "conheço uma pessoa que catava latinhas e hoje é empresário", "pessoas de bem sempre encontram uma maneira honesta de ganhar a vida", etc. Afastemo-nos desta discussão, tomemos um gole e pensemos no concreto da situação. Assim, chegamos a uma segunda forma de se abordar o problema: deixando de lado a "querela da culpa", podemos analisar mais de perto a proposta de "solução do problema". O sistema prisional no Brasil (e no mundo) reúne as características desejadas para fornecer uma solução definitiva? O que há de terapêutico em se deixar um ser humano trancado num ambiente de falência da moral e dignidade por, digamos, 12 anos? Antes, portanto, de se decidir com quantos anos mandar alguém para a prisão, pensemos na própria prisão em si: funciona, corrige, "reabilita"? Vigiar e punir é um livro que ajuda a pensar na questão. Não adianta assistir ao Tropa de Elite, porque as conclusões lá apresentadas sobre Foucault, sinceramente, até me dão vontade de pedir pra sair!

Bruno Silva

8 de abril de 2013

Nonsense com 40 anos de Dark Side

Storm Thorgerson (Storm Studios)(c) Pink Floyd (1987) Ltd/Pink Floyd Music Ltd.
O histórico álbum Dark Side of The Moon completou recentemente 40 anos.

De 24 de março 1973 até hoje foram vendidas mais de 50 milhões de cópias do disco,
que trata das loucuras modernas, como o tempo, dinheiro, esquizofrenia, vida e morte.
E o triângulo simboliza a ambição e o pensamento.

 


O branco assusta. E a despeito da (cons)ciência de sua cobertura das cores outras. Do prisma floydiano. Mas o branco, se absorve, também oprime. Se é folha para a escrita, afugenta-a. Lugar para a inscrição da memória? amnésia. Traz-nos a sensação própria do vazio, que se transporta ou vincula ao nosso e do mundo, criando ligações angustiantes. Até que se a preencha com o possível, é o provável que sofre, o potencial que não se atualiza, o brilhantismo que queda na promessa. O branco, sinônimo do puro, limpo e imaculado, é, por força disto, superfície sujável por excelência, é o preto no branco. No fim das contas (ou das metáforas!) é a nota preta que vale, se bem que no fim só vale o crido, e mesmo sem tê-lo visto.

Estranho que do ponto de vista das cores seja o branco que simbolize o racismo! Ainda mais que os "brancos" mais com a cor dos botos se parecem... óh, onde sonham as formigas verdes?

Ou, como diria Humberto Gessinger...

"Nem todo nonsense faz sentido
 Nem todo sentido faz falta
 Nem toda falta de sentido é sentida"

Ou como uma segunda voz dos soldados respondendo à do comandante militar

"Não faz...SENTIDO!"                        

Talvez nem este post...



Walter Andrade

21 de fevereiro de 2013

Fevereiros idos

Sempre que chovia em fevereiro parecia que a natureza ofertava um imerecido carinho. De tanto sol, que também não se merecia, vinha um riachinho de pé abençoar os bichos e as plantas. Chovendinho. Naquele não choveu, não. Era o sol, como uma rodela de abacaxi sobre o triste povo nosso. O caminho de barro malsão, dava o tempo de empapar os corpos, de grudar as vestes e, de repente, lufada de poeira. Era uma raiva e uma tristeza, tudo junto. Triste travessia nos fevereiros idos! Chuva não dava sinal, e quando viesse era mais para desespero e desalojo.
Tinha urubuzal no alto, devia de ser res morta. Não era. Cheiro paposo, daqueles que os lixos e os mortos dão, depois de envelhecidos. Eram os idos de fevereiros. Tempo melhor há de vir, sem dar aviso. Aí vai ser uma fartura de chuva prazenteira, muito bem-te-vi de dia e noturnos grilos. Esses dias chegarão? Gregas calendas...

Bruno Silva

30 de janeiro de 2013

Manhã londrina

Manhã londrina.
É janeiro no trópico, mas nada informa.
Cai uma chuva temporã, e o ramo de trepadeiras, do muro, sorri seu verde.
Engraçado que jamais fui à Inglaterra.
Perambulo pelo aeroporto, e é pena que o trajeto de meus passos não conte para o programa de milhas!
Manhã londrina.
O mundo só tem quarenta dias, mas há tanto construído!
O governo quer mais, e já não há espaço.
Vai o governo, com seus tratores de borracha, apaga o que havia e reinventa por cima.
Nem tudo fica bom.
O Maracanã, dizem os saudosistas, deixou de ser (além da Inglaterra, nunca fui ao Maracanã).
A borracha, insaciável, procura mais para borrar!
Mas hoje, nessa manhã londrina, acordei confuso e sem cabeça para esses assuntos pesados, de concreto e memória.
Quero apenas registar isto: tivemos um janeiro atípico, acordei me sentindo um britânico sem chá nem rainha.
Fevereiro já está na porta, a nos lembrar que é Brasil.
Chega, outono!

Bruno Silva

24 de janeiro de 2013

O homem do futuro e o jabuti do passado

O The Sun, jornal britânico, publicou uma matéria sobre como será o homem de 3012. Em mil anos teremos menos cérebro, seremos mais altos e teremos dedos mais longos, olhos maiores, bocas menores... Já não bastavam as previsões apocalípticas para o futuro do planeta; agora os cientistas nos mostram como seremos em mil anos. Acho melhor nos preocuparmos em como faremos esse planeta e os seus destruidores (nós) durarmos tanto tempo! Se não houver saída mais razoável, vou me mudar para dentro de uma caixa de som velha e viver, pelo menos, mais trinta anos, tal como o jabuti da zona oeste. Para quem ainda não sabe, a Manuela, um jabuti (talvez ficasse mais correto escrever jabota, que é a fêmea da espécie) que havia sumido há 30 anos, foi encontrada recentemente dentro de uma caixa de som. Depois que o antigo proprietário da caixa esticou o pernil, o jabuti já ia para o lixo junto com a caixa de som (provavelmente viria para Seropédica!) quando, alertados por vizinhos, a família retirou o adorável quelônio do monturo e o reintroduziu ao seio do lar. Desnecessário dizer, claro está, que lá se foi a paz do bicho!

Bruno Silva

17 de janeiro de 2013

"Não pise"

"Não pise a grama" ou "Não pise na grama"? Tanto faz, contanto que você não pise! Para não pisar, aliás, nem a crase atrapalha: "Não pise à grama" está errado do ponto de vista gramatical, mas nem por isso se deve sair sapateando sobre o verde todas as vezes que a placa deixar furo! Bom, o que eu to querendo dizer é que, a rigor, não se deve pisar na grama quando houver proibição expressa (muito embora nos pareça impossível cumprir esta tola regra). Mas o que eu fiquei sabendo na semana passada me chamou a atenção: é proibído pisar nas asas dos aviões! Putz, ainda bem que isso está registrado, vai que algum desavisado...!
Fiquei discutindo o tema com minha mulher: esse aviso deve ser para os famosos demônios verdes que costumam viajar nas asas dos aviões, conforme os variados relatos, até então injustamente qualificados de fantasiosos. A razão feminina ainda quis me alertar para o fato de que aquele aviso destinava-se aos profissionais responsáveis pela manutenção das aeronaves. Não sei, não fiquei totalmente convencido. Daí vieram as instruções de vôo, e nos informaram que, no caso de um eventual problema, existiam portas de emergência sobre as asas. Mas se é proibído pisá-las! Concluímos, então, que, quando se trata de sobreviver, as vezes é preciso quebrar algumas regras (as do uso da crase, por exemplo!).

Bruno Silva

31 de dezembro de 2012

"O mundo não sabe que o ano mudou"


"O mundo não sabe que o ano mudou", dizia Artur da Távola, para lembrar que somos o único ente a comemorar o fim do ano. A data de hoje só possui significado para o ser humano, e mesmo assim não para todos. Como o mundo não acabou (e, ao que parece, não acabará muito em breve) talvez devêssemos fazer as contas do que nos espera em 2013: este fará uma dieta, aquele deixará o cigarro; esta comprará bicicleta, a outra não beberá gota alcoólica.
Parece que o branco ainda predomina sobre o amarelo nas vestes da passagem de ano. Sincero ou não, ainda é um bom sinal. O ano que se avizinha tem bagagem parecida com a de seus antecessores. Ao imprevisto é que cabem as surpresas. Fará calor, choverá de vez em quando. Indiferente ao calendário, o mundo não estará diferente em 2013. Você estará?
A paz continuará cavando seu espaço. A intolerância, pertinaz, buscará por todos os meios manter seu território... cada vez menor. Temos uma tarefa tão nobre quanto árdua: conviver na diferença. A felicidade continuará sendo a eterna busca, mas em 2013 ganhará um reforço!

Bruno Silva
                     

22 de dezembro de 2012

O fim do mundo já passou ou vamos fazer um filme?



Já tinha ouvido outras tantas vezes essa estória do mundo se acabar...

Dizia mesmo que desde que o mundo é mundo ou, antes, desde que existem seres humanos no mundo que se pensa em seu fim.

O problema estava, claro, no(s) calendário(s), que não está no mundo mas lhe é imposto pela mesma humanidade. Porque não bastava ao homem imaginar, querer, recear o fim do mundo...era preciso determinar até sua data final!

As numerologias dos anos fechados em zero ou em repetições de números, o fim dos ciclos temporais de civilizações antigas (tudo meio misturado ainda à ideia dos deuses astronautas...), o apocalipse cristão, zumbi, nuclear, meteoros, mudanças climáticas.... e lá ficava o homem, a mulher... a pensar nestas coisas todas.

Mal sabendo que o mundo se acaba a todo instante.
Que mais tempo é menos tempo.

Ou que é justo o contrário disso tudo, que o mundo se renova a cada dia que nasce...

Que pior que o mundo acabar talvez seja continuar como é. Ou aqueles cenários pós-apocalípticos...

Aliás, bem podia ser do mundo não acabar, senão nós acabarmos nele. 
Ficava daí o mundo livre sem nós.

Contudo, se diversas vezes que se disse que ia abaixo o mundo se não acabava, que desmoralização a ideia não sofria? Dava ensejo a memes, brincadeiras, "eu sobrevivi" e etcéteras...ah, e a filmes, claro!

Porém sempre ficava a ideia de que, se não foi desta vez, se pode concluir que da próxima é mais certo que ocorra...Se não chegou ainda é porque deve estar vindo...

Ps: Como esperado, já adiaram novamente o fim do mundo: o mais próximo deles está previsto para 2021, quando se espera o apocalipse ligado ao fim da inversão dos polos magnéticos... Em 2036 o asteroide Apophis pode colidir com a Terra (?). Em 2060 pode chegar o fim do mundo previsto por Isaac Newton em 1704, baseado no livro do Antigo Testamento de Daniel... Só aí temos 3 chances neste século XXI!

Walter Andrade

19 de dezembro de 2012

Papai Noel estilo Bukowski

Papai Noel terminou seu expediente no shopping center, tomou um banho ligeiro e saiu apressadamente, de chinelos e barba molhada. Vai Papai Noel, atravessa a rua fora da faixa, entra num bar:
- Porra, Santa! Até que enfim, pô! Pensei que tinha fugido no seu trenó...
- Vem cá, que porra é essa de Santa? Tá querendo ferrar comigo!? A galera escuta um troço desses e pronto: to fudido pra sempre!
Papai Noel pede um traçado de conhaque com vinho quinado e uma cerveja. Tira um maço de cigarros do bolso e acende um.
- Vou te contar, hoje foi um dos piores dias! O ar condicionado não deu vazão, um chororô de criança... teve um que peidou no meu colo!
Agora os dois estão vermelhos de tanto rir
- Peidou? Puta que o pariu! E você, disse o que?
- Rou, rou, rou! A mãe do fedelho ainda ficou rindo! Mas o pior foi um gordinho que encheu a sacola do pai, berrando e dizendo que queria tirar foto comigo. Fui pegar aquela rolha no colo e ainda tomei um pisão nos bagos! Putz, quase joguei o moleque no chão! A mãe de um outro, maravilhosa, colocou o filho em uma perna minha, sentou na outra e mandou o Zé B. do marido bater uma foto. Vou te contar, meu irmão, minha rena deu até sinal de vida!
- Aí, vida boa do caramba! Tá reclamando, mas vai passar o natal com as burras cheias de dinheiro! Aproveita e paga uma porção de calabresa pra nós.
- Escuta essa: um garotinho me contou que no ano passado ele colocou a meia dele pendurada no portão, pra ganhar presente, coisa e tal... acho que ele queria um tênis do Ben 10. Esse ano ele desistiu de fazer assim e veio falar diretamente comigo.
- O que ele queria?
- O tênis do Ben 10... e uma meia nova, porque levaram a dele no ano passado!

Bruno Silva

18 de dezembro de 2012

Crônica de Natal?

Gerard Von Honthorst:  Adoração dos Pastores. 1622
Escrever a crônica natalina é uma tarefa da qual não se pode esquivar; nem os grandes escritores, nem aquele anônimo, cujo alcance do que escreve ainda pode ser menor do que aquilo que fala para seu círculo mais íntimo. Reviste a antologia de crônicas e você encontrará tantas e tão diversas apreciações do que seja o Natal que poderá pensar que os autores referem-se a festas diferentes.
Existe a crônica de celebração: o clima familiar, a família reunida...; a crônica saudosista: o Natal perdeu seu significado...; a crônica gulosa: ah, os pratos natalinos!...; a crônica cristã-inquisidora: vocês se lembram do aniversariante?...; a cristã crítica: o natal não tem a ver com Cristo, que não nasceu no 25 de dezembro...; a crônica comunista: o papai noel representa o espírito do capitalismo e o imperialismo yankee!...; a crônica capitalista com ternura: chegou o momento de presentear aqueles que amamos!...; as crônicas dos vários pseudo-Veríssimos,...  já chega?
Num universo tão grande, é difícil se direcionar. Eu me lembro que, na minha infância o Natal e a Páscoa eram os únicos momentos em que o azeite entrava no carrinho de mercado. Lembro que a azeitona tinha caroço, e que ficávamos esperando para dar o polimento geral neles, eventualmente sendo beneficiados pela generosidade materna, que deixava passar um caroço com mais azeitona. Hoje a azeitona sem caroço domina, o que bem pode ter seus pontos positivos, tirando o fato de que ficam mais salgadas por causa da conserva. Com certeza esse incômodo passará quando a ciência nos der pílulas de azeitona, ou azeitonas de soja...  
Mas era da tarefa de ser fazer a crônica de Natal que falávamos. Depois que se escreve uma fica difícil voltar ao tema. Já disse que o natal me deixa triste, e isso não mudou. Não há o que dizer de novo, e talvez seja mais difícil ainda no ano que vem. Mas na última crônica eu não desejei feliz Natal pra ninguém, grosseria da qual vou me redimir agora: feliz Natal para todos!

Bruno Silva

8 de dezembro de 2012

Crônica tragicômica

Tendo chegado com duas horas de antecedência, esganei o quanto de tempo pude e deixei o edifício do IFCS, em direção à rua do Ouvidor, muito menos fantástica do que se crê ao terminar um livro de Machado de Assis. Entro inseguro numa confeitaria granfina: Manon. Ainda não sei o que pedir quando, para meu alívio e surpresa, alguém diz "pão na chapa e café". Que bom que não preciso saber francês! Puxo um cachorro do bolso, mas a conta não passa de R$ 2,60! Vou satisfeito para minha mesa; uma tragédia se abaterá sobre mim mas eu ainda não sei.
De volta para o edifício, um galo com uma fita amarrada em seu tornozelo passa na minha frente (13, para quem quiser o palpite). Cumpro de maneira desastrada minha tarefa e saio, atordoado, atrás de chope e bolinhos de bacalhau.
Um dia no centro do Rio de Janeiro pode ser imenso! Entro na Candelária, almoço num fast food, perambulo para lá e para cá e ainda não são duas horas. Procuro algo numa livraria e cometo uma pequena extravagância. Na saída (como escrever isso sem parecer grosseiro?) sou alvejado pelos dejetos de alguma ave de muito maus desígnios. Não acredito que tenha sido um pombo: ele precisaria ser, no mínimo, do tamanho de um chester para conseguir produzir aquela quantidade! Não. Foi alguma espécie parente dos dragões mitológicos, acometida de sérios problemas intestinais, provável habitante de uma árvore da rua Almirante Barroso.Que bom que não tenha sido um vaso de plantas! Pensando assim, o azar até que não foi tanto, e eu devo ter exagerado ao usar o termo "tragédia". De todo modo, vejo-me obrigado a tirar a camisa e a mochila e ficar, no meio de uma tarde ensolarada, em plena avenida Rio Branco, com uma barriga de caminhoneiro, à procura de alguma solução menos embaraçante. Lavo-me em plena rua com uma garrafa de água mineral e compro uma camisa, valendo-me da gentiliza de um vendedor que serviu de intermédio (eu não estava em condições de entrar num aviário, quanto menos em uma loja de roupas!)
Nm dia cão como este, após mais três horas de espera, só me sobrava afogar minhas frustrações com meu amigo no Beco das Sardinhas!

Bruno Silva

4 de dezembro de 2012

A Medicalização da Existência

Os desenhos, feitos por gente grande, já retratavam estereótipos doentios.
Minha vó, que não é intelectual, disse uma frase capital hoje, em conversa telefônica com a vó de outros netos: "Menina (sic), tá muito difícil marcar consulta! as pessoas estão mais doentes que nunca...". Olha que até rima tem, se não tiver razão também... o que tem por certo é cada vez mais brasileiros com algum tipo de seguro, como plano de saúde (em 2003 tínhamos 32 milhões de associados, hoje passam dos 47! uma ampliação de quase 50 % em 8 ou 9 anos!). Mas há mais fatores além do acréscimo de segurados e a consequente busca maior de consultas.

Estamos na encruzilhada - como dizia uma professora antropóloga não há Brasil sem encruzilhada! - entre a medicalização da existência e a hipocondria, cujo mecenato midiático da primeira é cada vez maior com programas até matutinos sobre saúde, segurança alimentar, dietas...para aqueles que acordam cedo ou mal dormem de preocupação! Ah! temos horários para os notívagos também (e sobre eles, why not?), pelo menos um programa mensal do Globo Repórter é sobre o assunto, sem falar nas demais emissoras.

O hipocondríaco é um ser fantástico. Ele é como o metafísico de Voltaire: busca gatos pretos num quarto escuro onde os não há! E pus no plural conscientemente, pois que o hipocondríaco não se satisfaz com uma doença. Inconformados com exames de rotina, fazem os extraordinários também procurando uma segunda , terceira, quarta...doença ou opinião médica, automedicando-se, usando métodos curandeiros alternativos... E com razão! ele está doente, só não entendeu que é por crer que está!, e a força da mente é tal que o seu estado de saúde doença pode mesmo ser induzido pelo que ele pensa que sofre.

Há ainda curiosos casos, como o insólito da descoberta de doenças causadas pela ingestão sistemática de alimentos industrializados. O que as empresas fizeram? Lançaram os produtos light and diet. Uau! Seus problemas acabaram! Isto se você tiver dinheiro pra pagar por estes produtos, que têm assim um diferencial comercial....Como se vê, os problemas não se criam nem se resolvem, apenas se transformam!

Vivemos um poder "mediciático" que - se pode nos fazer viver com mais saúde - pode paradoxalmente nos lançar numa corrida doentia pelo corpo perfeito.

Walter Andrade

27 de novembro de 2012

Vinil x Blue-ray

"Nunca mais apareceu ninguém como Tom Jobim!", "Jamais haverá outro grupo como The Beatles!", "Renato Russo revira-se na cova quando escuta o dito Rock dos nossos tempos!". Em geral, frases como essas são prelúdios para o arremate saudosista: gostaria de ter nascido naquela época!
Este sentir-se deslocado no mundo é uma instituição inabalável do nosso tempo. Ignoro se os homens nascidos nos fins do século XIX experimentavam a mesma sensação diante dos bondes e da iluminação à gás. É provável que sim. Mas os de hoje padecem muito mais desse mal-estar!
Argumentos favoráveis ao hoje existem: a informação circula mais, há mais liberdade ("prá escolher a cor da embalagem"?!), avanços da medicina, encurtamento das distâncias...
O ontem, com o perdão do trocadilho, não fica para tras: respirava-se melhor ar, ouvia-se melhor música, dormia-se em maior silêncio, comia-se melhor...
É difícil uma decisão convicta: "gostaria de conhecer a boemia de verdade, mas Deus me livre morrer de tuberculose!"; "é muito bom poder, com apenas um toque, ter acesso à toda obra de Noel Rosa, mas seria melhor se ele estivesse vivo!"
De que lado você está? Vinil ou Blue-ray? Bem, você está lendo isso numa tela de computador ou qualquer gadget. Se fosse num jornal, você teria chegado até aqui? Difícil saber. O certo é que, se os bons tempos se foram, é reconfortante a possibilidade de um download!
Mas não fique deprimido, você ainda pode enfiar sua face em algum bom e velho book de papel, ou morder uma Apple das que se encontram nas quitandas!

Bruno Silva

p.s.: Ia ilustrar o texto com uma imagem que fizesse alusão ao título, mas a utilizada não só é pertinente ao assunto, como também constitui um exemplo da criatividade que podemos conferir no endereço seguinte: http://www.ciadodesigner.com/2011/03/sobreposicao-de-fotos-passado-x.html

22 de novembro de 2012

Que mané Belle Époque!

De todos os conceitos que a história criou ou cultivou, o tal de Belle Époque é, sem dúvidas, um dos mais metidos a besta! Nas vezes em que sou solicitado a falar sobre o assunto sempre procuro, sem grandes sucessos, traduzir para o português esta noção que não se refere à outra coisa senão àquela época, entre o fim do século XIX e o início do XX, quando a então capital do Brasil passava por um processo de importação de costumes franceses; quando se ouvia um "Viva a França!" ao se encontrarem dois brasileiros, possivelmente na Avenida Central (hoje Rio Branco), indo ou vindo de alguma confeitaria com ares parisienses. O ridículo chegou ao ponto do prefeito Pereira Passos, não conformado com o alargamento das ruas, encomendar pardais e estátuas, tudo para transformar a terra de São Sebastião em um protótipo tropical da Cidade Luz.
Hoje, nossa Belle Époque C'est la merde! Não faltam pardais em todas as avenidas, estrategicamente posicionados e com intenções menos nobres do que aquelas pobres avezinhas de penas cinzentas e apetite pouco exigente. Os pardais de hoje, longe de comporem sinfonias para o sabiá, como os de antanho, não cantam nem avoam, mas são capazes de fazer qualquer um chorar! As ruas, contam-se nos dedos as que foram duplicadas. São tempos ruins para se ter um carro. Voltemos ao tílburi!

Bruno Silva

12 de novembro de 2012

Sardinhas sem Rio Card

O tempo consagrou uma expressão que hoje em dia talvez mereça revisão: passageiros como sardinhas em lata! Os apreciadores desse bom quitute, também conhecido como frango do mar ou pastel, sabem bem que, no geral, são três peixinhos por lata, o que dá uma margem de conforto não encontrada nos lotações, trens e BRTrens! Nossos gestores, se estivessem no ramo alimentício, jamais permitiriam tamanha expansividade! "Qual!? Cabem pelo menos umas cinco sardinhas por lata, é só espremer bem!"
É provável que, assim espremidinhas, as sardinhas mais se assemelhassem ao patê, atum ralado ou fiambre (se você come sardinhas em lata, possivelmente sabe do que estou falando).
Abaixo à degradante (para as sardinhas) comparação do transporte público às latas da democrática iguaria, carrasca dos figueiredos! Passemos ao outro nível! Somos todos patês; o que vai muito bem com o pão (que o diabo amassou)!

Bruno Silva

7 de novembro de 2012

Trens, Metrens e BRTrens

Com o passar dos anos nos acostumamos a reclamar dos trens urbanos de transporte coletivo, sempre lotados e sucateados, chegam a ser referência de desconforto para a população carioca, que, sempre muito criativa, já apelidou os novos BRT's de "BRTrens", pois vivem lotados (embora ainda não sucateados)! Penso eu: será tão difícil dimensionar a demanda diaria por tal serviço? Obviamente, não! Nossos gestores sabem muito bem fazer contas, mas nesse caso e em muitos outros, a matemática é mais perversa; porém, bem simples: o lucro é diretamente proporcional ao número de passageiros e inversamente proporcional ao investimento. Ou seja: mais pessoas em pouco espaço e maior velocidade = dinheiro pra caráleo! E nesse ponto, o atual PrefeitoGovernadorPresidente do RJ foi genial! Temos novos trens orientais nos trilhos do Metrô; são bonitos, geladões, painés com LED que iluminam o percurso no mapa e se apagam a cada estação (achei o máximo essas luzinhas), mas a sensível mudança é o conforto... para os que vão em pé!!! Possui, notavelmente, maior espaço livre nos corredores, em detrimento dos assentos, claro! Entendeu agora? Mais pessoas... Mesmo espaço...
E os BRT's? E a transoeste? Aí existe o dolo com requintes de crueldade. Não vou nem discutir a relevancia do modal, se não ficou claro, que fique agora: Fuck the rodovia! Keep calm and vamos de trem! (não esse lotado, claro!) A perversidade está no produto vendido: "você, trabalhador que depende do transporte público para sustentar sua família..."; "com a transoeste, você faz o trajeto casa-trabalho na metade do tempo... Qualidade de vida e talz". Sacou? "metade do tempo"... o dobro do lucro! A lógica é essa: Nunca Resolveremos o Transporte, pois resolvido foi dessa forma.

J.G

18 de outubro de 2012

A Cor Púrpura

Meu pai é um bruto, autêntico leão: só come uma vez por dia, tem mãos pesadas como bigornas, trabalha exposto às intempéries. Seu estilo soviético dos filmes herdeiros da Guerra Fria não exclui, todavia, algumas notas de sensibilidade: veio dele o meu gosto pelo violão; o que não herdei de meu pai foi a devoção à sétima arte. Colecionador, meu pai possui quase novecentos dvds originais. Sabe a posição de cada filme na estante, e é capaz de fornecer uma sinopse autoral de praticamente todos os filmes que possui.
Sou preguiçoso e indiferente ao cinema. Chocam-se os meus conhecidos mais "cults" com essa minha desdita. Por outro lado, gosto muito de alguns poucos filmes, e os revejo de maneira obsessiva. Vez por outra cedo ao conselho paternal e assisto algum de seus favoritos. Foi assim que assisti A Cor Púrpura, baseado no livro de Alice Walker (e aqui será honestidade minha informar que todo o lido até agora constitui apenas uma introdução meio autobiográfica!)
A Cor Púrpura foi a reunião de genialidades:  dirigido por Spilberg, ele marca a estreia de Woopie Goldberg, e conta com a atuação brilhante de Oprah Winfrey, de Dany Glover e de Margaret Avery na pele de uma cantora de blues de cabaré. A trilha é assinada pelo Quincy Jones (produtor de Michael Jackson). Chamou minha atenção a estreia de Woopie pois, tal como aconteceu com o Charlie Sheen em Platoon, foi marcada por uma atuação dramática em um filme até, de alguma forma, pesado. Ela está sensacional numa personagem que quase não tem diálogo no filme, mas cujos olhos enormes transmitem a mais profunda mensagem. Abusada sexualmente pelo homem a quem chamava de pai numa Georgia do início do século XX, ela dá á luz duas crianças das quais é imediatamente separada. Vê-se forçada a um casamento-escravidão com Mister (Dany Glover) enquanto vive assombrada com o destino dos filhos e de sua irmã mais nova, a quem o pai (e posteriormente seu proprio marido) também procura violentar. Celie (Woopie Goldberg) é uma sofredora estóica. Vive preocupada com seus filhos e sua irmã, aparentemente resignada com sua vida. Com a entrada em cena de Shug Avery (Margaret Avery) sua vida sofre uma transformação. Shug é uma paixão vadia de Mister. Quando este a leva para morar em sua casa, um relacionamento afetivo surge entre Shug e Celie. Amante e esposa-escrava se confraternizam, e a força da personalidade de Shug invade Celie. Curiosamente, a primeira relação de carinho experimentada com a libido vem de Shug. Elas se beijam (e o filme é de 85) e se unem em sentimento.
Não convem contar a história do filme. Basta apontar que seu tema fundamental é a redenção: dos pecadores, dos fracos e dos covardes. Acho que é o filme que mais me marcou nos últimos anos.
Para finalizar, é preciso comentar a música-tema do filme: Miss Celie's Blues (Sister). Já a conhecia da gravação de Renato Russo em seu Stonewall Celebretion Concert, mas fiquei duplamente surpreso quando ela surge no filme: primeiro que eu descobri que havia sido feita para o filme, e segundo que a música é de Quincy Jones, Lionel Richie e Rod Temperton, letrista de vários sucessos de Michael Jackson. Isso sem falar na interpretação fantástica de Avery, motivo pelo qual encerro me desculpando pelo tamanho do texto e oferecendo o vídeo como forma de compensar o esforço de quem leu:



Bruno Silva

17 de setembro de 2012

Você fecha com quem? Velhos igredientes, novas receitas e uma lula a menos na minha paella

Estive lendo algum artigo de alguma Época em que se dizia: " O Brasil ético está escandalizado com o aperto de mãos entre Lula e Paulo Maluf". Os embates dos tempos heróicos entre o lider sindical e a artilharia da elite econômica brasileira ficaram tão distantes que se teme que talvez jamais tenham existido, não passando tudo de uma fábula sonâmbula.
O ex-uma série de coisas inclusive presidente Lula talvez estivesse indo longe demais com o aperto de mãos. Aos seus seguidores ainda restava o consolo de dizer: é uma foto, apenas. Mas agora, as declarações  a favor de Eduardo Paes constituem o último tiro, sem misericórdia. Não faz outra coisa o Lula senão desqualificar o posicionamento do qual durante anos foi o principal modelo: a oposição. Quando ele diz que a oposição fala, critica, mas a administração empreende e realiza, não está apenas dando um colher de óbvio, muito menos o suco do fruto da experiência: está se posicionando, se reposicionando.
Na certa há muita cara avermelhando, e não é o vermelho do comunismo. Talvez Eduardo Paes não precisasse do luxuoso depoimento de Lula e Dilma, mas foi bom que eles viessem a público, de mãos limpas como um Pilatos do século XXI, declarar seu apoio ao Paes e desqualificar a opção que, atualmente, aparece representada por outra bandeira: a de número 50. Isso coloca tudo às claras e serve, deve servir, de lembrete e alerta para a próxima corrida presidencial. Estão aí todos os elementos de uma tragédia grega. Grega, não: de uma tragédia carioca.
Enquando escrevia essas linhas ia ouvindo a gravação de "Amanhã", de Gulherme Arantes, feita por Caetano Veloso. Lembro que já foi usada em campanha para o Lula e depois para o Gabeira no Rio. Acho que o Brasil dormiu 48 horas, e não viu esse amanhã. Acordemos, enfim!

Bruno Silva