29 de fevereiro de 2012

Le Carnaval Soleil


Cirque du Soleil
Unidos da Tijuca 2012

 







O carnavalesco Paulo Barros é, sans doute, un (malin) génie. Reinvenção do carnaval, inventividade fantasista, psicodélica, insólita, a criação adjetivada do artista. "Tá legal, eu aceito o argumento, mas não me altere o samba tanto assim... olha que a rapaziada está sentindo falta, de um cavaco, de um pandeiro e de um tamborim", resposta brilhante uma vez dada, segundo a "lenda", por Paulinho da Viola à Benito di Paula que estourava, ano após ano, tocando samba no piano, e que eu entendo (ou reinterpreto com a ambiguidade e polissemia da canção) como provocação à Bossa-Nova - "toda bossa é nova e você não liga se é usada...todo carnaval tem seu fim" - aqui cito-as à guisa de algo que quero dizer sobre a Sapucaí. Qual foi o último grande samba-enredo de carnaval? Na minha memória recente só chega o da Mangueira sobre Cartola ("Descendo a ladeira/Com o trio da Mangueira/Doce Cartola sua alma está aqui", 2002!). Hoje, ontem e anteontem cada vez mais se tem ganho o Carnaval com desfiles "técnicos" (como já na década de 1990 conquistava o caneco a Imperatriz), caso de escolas como a Beija-Flor (escancaradamente apoiada pela Globo), e a Unidos da Tijuca (da qual nem se lembrará o samba campeão deste ano, como muitos da Beija-Flor). As escolas de samba tradicionais (isso aqui não é uma agremiação, é uma escola de samba!) como Portela, Mangueira, Mocidade, Império Serrano, Vila Isabel (tantas!), têm sido preteridas em sua autoridade no samba por um carnaval que a cada ano mais se parece com o Cirque du Soleil, que deveria propor a Paulo Barros a direção de um espetáculo, por certo de grande fortuna!

Ademais, a tal diferença entre o 9,5 e o 10 pode ser compreendida, mas entre 9.9 e 10... Algum jurado carnavalesco (dos quais nem sabemos sequer mais a profissão!) explicaria sem hesitar uma diferença de 0.1? Há algum tempo a diferença (se era pra existir) era de pelo menos 0,5 ponto, o que dava maior credibilidade às notas (porque pressionava a consciência do jurado a notar uma diferença mais concreta entre as escolas). Hoje, você, um hipotético jurado, pode sair dando 10 por princípio e escolhendo as escolas que você não quer que sejam campeãs e dar 9.9, 9.8, 9.7... O dado de subjetividade (sempre ineliminável no todo) tem hoje um grau de decisão muito grande, da qual a objetividade (pois há de haver alguma!) se enciuma, inveja e reclama. E não só ela! Denúncias de favorecimento à Inocentes de Belford Roxo no Grupo de Acesso, tiranicídio de rasgação de notas em São Paulo... parece que não sou sozinho na minha desconfiança.

Para evitar a vitória sem mais dos desfiles "técnicos" dever-se-ia ainda aduzir um critério, algo como "Empatia com o Público", na qual sairiam na frente aquelas escolas que levantassem os espectadores das arquibancadas, escolhidas pelo "povo" como as vencedoras. Queria que lembrássemos dos sambas campeões dos anos (e pra isso eles teriam de ser muito bons, como não se tem estimulado mais a serem, já que escolas com sambas-enredo fracos, fracos ganham 10!), não das acrobacias de circo na Sapucaí. Do contrário o carnaval corre o risco de tornar-se cada vez mais - a Grande Rio quer contratar Paulo Barros... - um Cirque du Soleil, belo, fascinante, intrépido... mas fora de tempo e lugar! E pra classe alta/média/estrangeiro ver...

Walter Andrade

Ps: Este ano o Cacique de Ramos, Patrimônio Cultural do Rio e hors concours, foi homenageado pela Mangueira e desfilou na segunda de carnaval na Sapucaí pela primeira vez na história.  Na terça foi a vez da Mangueira ir pra Rio Branco, no desfile do Cacique de Ramos. Naquele dia ouvi o diretor do Cacique dizer no microfone "Aqui se vive o verdadeiro carnaval do Rio de Janeiro, com o Povo". Vendo e participando daquela confusão organizada, não tive meios de discordar...

14 de fevereiro de 2012

Cadê a rede?

No texto que escrevi anteriomente, ainda acreditava que a felicidade cabia numa rede. Mas ela não cabe, não. Porquê? Porque me levaram a rede num dia de calor. Dava pena de ver as paredes nuas! A casa ficou desproporcional sem aquele pano pendurado que era, para mim,  precipício e pára-quedas. Raptaram o meu sossego e nem sequer deixaram bilhete para o resgate!
(...)
Uma lenda muito antiga ensina que o homem desceu das árvores e foi aprendendo a andar cada vez mais ereto, até conseguir ficar de pé sem que isso representasse grandes desafios de equilibrio. Esse homem, que no início não era homem, não era nada... esse homem trocou as frutas pela carne vermelha, amaldiçoou o pequenique e bendisse o churrasco. Acontece que eu estou a meio caminho da evolução: quero a carne e quero a rede! Luto pelo indulto da eterna penitência que é estar de pé!
A felicidade que eu tinha caiu da rede... mas nao morreu! Ela não pode morrer, porque está, para sua segurança e para a nossa, espalhada por vários cantos, contida em várias coisas: chalé, cachoeira, mulher morena, café, comida mineira...
Há quem diga que a felicidade é encontrar finalmente o seu lugar ao sol!
Particularmente, eu tô atrás de sombra...

Bruno Silva

30 de janeiro de 2012

A felicidade cabe numa rede



Estive pensando na felicidade que encontro quando estou desfalecido na rede, como um Marat assassinado. Não peço e não preciso de mais nada para estar bem. A ideia é bem poética, mas logo vem a evidência materialista para atrapalhar: uma rede não flutua no espaço; é preciso dois ganchos que a sustenham. Ganchos não possuem asas, precisam ser fixados em dois pontos fixos. Até poderia usar duas árvores, mas então vem a prefeitura, o proprietário, ou mesmo um pássaro no seu momento mais íntimo e aí... Reclamemos, pois, o conforto de um teto sobre a rede, para que ninguém venha encher a paciência. Mas casas custam dinheiro; dinheiro não nasce em árvore (olha a árvore, não resolvendo pela segunda vez o meu problema!). Vamos atrás do dinheiro para o teto. Mas é a estória do "Capitão de Indústria", música dos irmãos Valle, gravada pelos Paralamas do Sucesso: "Eu acordo prá trabalhar/ Eu durmo prá trabalhar/ Eu corro prá trabalhar/ Eu não tenho tempo de ter/ O tempo livre de ser/ De nada ter que fazer..." Não dá pra ficar o tempo todo em cima da rede, assim como não dá para ser feliz o tempo inteiro. Uma hora você tem que se levantar, mas até lá...




Bruno Silva

23 de janeiro de 2012

Niilismo em raso mar!

Bela Foto de Satélite do Naufrágio
Contraste entre o Colosso e as Comuns Embarcações










O Cruzeiro Concordia desrealizou o seu nome: indignação comungada como uma missa, heroicização da pessoa que cumpria docilmente sua função. Há algo de recusa hierárquica na atitude do comandante do navio, de não se submeter a ordens de alguém da capitania dos portos. Há também, quiçá, qualquer coisa de simplesmente intangível no abandonar do navio pelo comandante: cito aqui Bukowski, não para justificar tal ato - Bukowski nunca será citado por um advogado num tribunal real - mas para compreender, se foi mesmo isto que ocorreu:

"Andava com mania de suicídio e com crises de depressão aguda; não suportava ajuntamentos perto de mim e, acima de tudo, não tolerava entrar em fila comprida pra esperar seja lá o que fosse. E é nisso que toda a sociedade está se transformando: em longas filas à espera de alguma coisa. Tentei me matar com gás e não consegui. Mas tinha outro problema. Levantar da cama. Sempre tive ódio disso. Vivia afirmando: 'as duas maiores invenções da humanidade foram a cama e a bomba atômica; não saindo da primeira, a gente se salva, e, soltando a segunda, se acaba com tudo'. Acharam que estava louco. Brincadeira de criança, é só disso que essa gente entende: brincadeira de criança - passam da placenta pro túmulo sem nem se abalar com este horror que é a vida".


Fiquei refletindo sobre isso quando imaginei a cena do comandante em seu bote, num momento de epifania, olhando fascinado e hipnótico para o navio a naufragar, um colosso afundado por "simples" pedras drummondianas (que agora o sustentam, evitando seu pleno afundamento), negligenciando auxílio aos passageiros em filas pânicas, em seu horror à mutação ligeira daquelas pessoas dantes civilizadamente, irrefletidamente, felizes. Não consigo esconder em um de mim (qual, quain?) uma certa simpatia por ele. Crucificar-me-ão, claro, reação instantânea, e por isso instintiva e impensada.

Walter Andrade

PS: Vi o anúncio nos cinemas de que a versão em 3D de TITANIC será exibida. Estranha "coincidência casual", ou propaganda real para um filme baseado em fatos reais, que reeditará numa dimensão a mais o esplendoroso sucesso de bilheteria!

17 de janeiro de 2012

Estupro de BBB - Um Contributo Histórico


Já vai milenarmente incutido em nossas mentes uma crítica de "sólidos" e metafísicos princípios à sociedade do espetáculo, que põem o efêmero, a aparência e o fútil como manifestações superficiais, do outro lado do discurso verdadeiro e, para além do epidérmico, sob o signo do engodo - diríamos mais modernamente também sob o emblema dos interesses privados (Gilles Lipovetsky. O Império do Efêmero). Que esta descrição adapte-se com louvor à TV Globo, não se está muito longe do verossímil em muitos casos. Ocorre que nenhuma análise apriorística pode ter lugar quando ainda não se sabe se realmente ocorreu um estupro no BBB atual - que eu nem vi, aliás, só flashes sobre o caso. Não se pode aventar tão levianamente a ideia do "bode expiatório", do "racismo" (o rapaz era até contra cotas, estaria realizando talvez um serviço à Globo), da busca desenfreada por Ibope (que na verdade despencou desde então). Eu induzo que ocorreu sim, dada a sumária expulsão do "Brother" (que seria além de estupro um incesto?! rs), sem qualquer defesa feita pelo mesmo (contra a expulsão) e a investigação que a Polícia está fazendo, incluso com intervenção da Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres. Tanto mais que "estupro de vulnerável" não exige "penetração", "apenas" abuso sexual.

A outra "justificativa" da total indiferença pelo caso é mais profunda, e se disfarça sob a ideia de que "devia-se usar o twitter e outros canais para detonar o Sarney e a corrupção, os reais problemas do país, não para expulsar um Brother". Ora... primeiro que uma coisa não inviabiliza, sem mais, a outra. Segundo que se está a querer dizer que o estupro então não é um "problema real do país"? Aí adentramos, quer queiramos ou não, no terreno da cultura do machismo, e aqui eu trago um contributo histórico à questão.

"O estupro na Era Moderna (Sécs XVI-XVIII) configurava uma transgressão moral associada aos crimes contra os costumes - fornicação, adultério, sodomia, bestialidade - e não aos crimes de sangue. Pertencia ao universo do impudor, sendo gozo ilícito antes que violência corporal. A visão moralizada do crime reforçava o silêncio da vítima sobre a violência sexual, envolvendo a vítima na indignidade do ato, transformando em infâmia o simples fato de ela ter vivido, pelos sentidos e pelos gestos, a transgressão condenada. O estupro só passou a ser considerado legalmente violência moral e física a partir do século XIX. Esta nova visão não permitiu, contudo, superar a vergonha da vítima ou a suspeita do investigador. Isto significa  que esses limites confirmam a manutenção da dominação sobre a mulher, a existência de um julgamento de saída inigualitário, a estabilidade relativa dos costumes, apesar da inegável mudança na lei. Elas ilustram ainda a duradoura dificuldade de levar materialmente em conta a consciência da vítima, de objetivar suas falhas interiores, essas perturbações do dominado pelas quais a violência é reforçada".


(Itálicos nossos, fragmentos selecionados e parafraseados de VIGARELLO, Georges. História do Estupro: A Violência Sexual nos Séculos XVI-XX. Jorge Zahar Editor: 1998).

Como se vê, a suspeita apriorística sobre a vítima de estupro ainda prossegue, a inexistência de uma educação realmente igualitária, no campo sexual, que ensine um homem a conter seus impulsos quando necessário, para não falar já da ideia comum de que mulher que usa pouca roupa está "pedindo" estupro, que é já puta. Ora, puta quer dinheiro por sexo, não estupro, e tem ainda o direito de não querer um dado cliente. Tudo isto demonstra que o estupro ainda prossegue, nos costumes, filiado à esfera do impudor e do machismo, antes que do crime. E assim, via BBB, um programa sem dúvida fútil, que eu particularmente não suporto, podemos sim, porque não?, discutirmos problemas reais do país, quando a ocasião assim surgir.

Walter Andrade

11 de janeiro de 2012

A Visita de Eduardo Paes à Barra de Guaratiba ou O Paraíso também tem seus Infernos



Barra de Guaratiba é conhecida pelo seu tradicional roteiro turístico-gastronômico, pelo Sítio Burle Marx, belas praias, algumas com trilhas, a Restinga da Marambaia...

Desde César Maia, em cujo mandato foi realizada uma reformulação na orla da praia grande, quando traillers foram alterados para os atuais quiosques, que não se via intervenções urbanas no local.

O atual prefeito Eduardo Paes autorizou uma importante obra de tratamento de esgoto na praia grande, que está acabando com as "línguas negras" no local (haviam pelo menos duas grandes), e é para a "inauguração" da estação que o mesmo visitará BG dia 12/01/2012, aproveitando o ensejo para reunir-se com representantes do Polo Gastronômico de Guaratiba, da Associação de Moradores (que nem é legalizada, o que inviabilizaria, ao que parece, a organização do Reveillón pela Prefeitura), onde serão debatidas melhorias para BG.

Com efeito, há muito mais necessidades,.Como ampliar o tratamento de esgoto para a prainha e praia do canto. Outros exemplos são o asfalto da estrada Roberto Burle Marx, que se encontra em estado lamentável e com excesso de quebra-molas. É preciso ainda melhorar o transporte público na região, especialmente para o Recreio/Barra/Zona Sul/Centro, com a introdução de uma nova linha que fizesse o trajeto até a Barra da Tijuca e tivesse intervalo regular de, no mínimo, 30 minutos. Isto evitaria a espera pelo atraso rotineiro do 387 (Barra de Guaratiba - Carioca), que, por ser longo o trajeto e cheio de retenções, sempre atrasa, e cuja empresa Pégasus nada faz para evitá-lo, não colocando mais carros para a linha. Não me parece que o motivo seja alguma restrição por conta de Guaratiba ser "área de reserva ambiental", já que o 867 (Campo Grande - B. Guaratiba) tem uma grande frota, e que lota o local em dias de sol (linha que deveria não passar mais pela Ilha de Guaratiba, e sim seguir até CG via Rio-Santos). Este aliás é outro problema: a superlotação verificada nestes dias. Não há posto policial próximo - seria preciso haver um na entrada para a serra do Grumari - onde a guarda municipal ou PM's deveriam controlar o tráfego de carros, restringindo o acesso apenas para moradores em dias muito concorridos, para além de uma vigilância mais concreta das pessoas na praia e quando há blocos de samba (quando ocorrem brigas e até tiros). Ah! os shows e fogos (e os últimos já foram muito bonitos) no Ano-Novo deveriam voltar, porque as pessoas não deixam de lotar a praia grande mesmo sem...  É preciso dar um pouco de, para usar uma palavra meio falaciosa, "sustentabilidade" ao local.

Mas o que se está vendo hoje, um dia antes da visita de Eduardo Paes, são intervenções maquiadoras, com brita emergencial no asfalto próximo às praias, carros da Cedae (há um problema crônico de água na região), reparo do refletor da prainha (que estava sem funcionar há meses). Ao que parece, tudo para que as reclamações sejam amenizadas amanhã...

Walter Andrade

7 de janeiro de 2012

Um Bêbado (com mais bebidas!) vai a um Encontro de AA!

Darrin Porter, Condição: Bêbado Idade: 45 Anos
Darrin Porter, de 45 anos, pode ser considerado o homem errado, no lugar errado, na hora errada. O americano simplesmente invadiu uma reunião dos Alcóolatras [sic] Anônimos em Cincinnati, no estado de Ohio (EUA), completamente embrigado [sic] e carregando algumas garrafas de cerveja.
Os agentes do AA escoltaram Darrin até a rua, mas ele estava decidido a participar do encontro para debater os males que o alcool faz ao homem. Como se negava a deixar o recinto, a polícia teve que ser chamada. Ao ver os guardas, Darrin pediu a eles nome completo, número da identidade e da previdência social.
Darrin foi em cana (olha o trocadilho!) por desordem pública e desacato.
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Glosando a matéria...

Quem nunca pensou em fazer algo parecido?

Darrin Porter (de quem sabemos ao menos o nome!) queria debater os males do alcoolismo com os alcoolatras anônimos; bêbado, claro, e portando mais bebidas, ironicamente talvez. Teve uma consciência crítica no momento mesmo da embriaguez (ou uma atitude sarcástica!). Devia ser enaltecido ou... espíritos bukowskianos o enalteceriam também!, e não preso por desordem pública (talvez por desordem interior alheia!). Mas, como desconfia-se por aí (e por aqui), os alcoolatras anônimos, um pouco como os vegetarianos, não conseguem esconder o gosto (bom!) que sabem que as coisas têm: por isso uns chamam guardas para prender quem leva bebidas - imaginem a tensão nervosa dos AA! - e outros comem carne de soja.

Walter Andrade

Ps: Nunca disse que era o menos sádico...

3 de janeiro de 2012

Tarde-sépia

Ontem de tarde havia uma luz diferente. Tentei capturar uma imagem mas, por sorte, a câmera de meu telefone não funcionou. A única maneira de registrar o instante era o papel e o lápis. Não que eu fosse me por a desenhar: escrevi com minha letra cada vez pior as ideias que me vinham. Choveu muito em todo Estado, com maior prejuízo para os moradores da ainda convalescente região serrana. Espero que o sofrimento dessa gente passe logo, seja breve; como aquela tarde-sépia que a noite carregou.

Tarde-sépia
Chuva fina
Rua derretida

Na calçada
Passos breves
Vão seguindo a vida

Poça d'água
Luz de sódio
Cena revelada

Mas se a noite
Tem neblina
Já não deixa nada

Bruno Silva

27 de dezembro de 2011

Somos todos piratas, mesmo sem pernas de pau, olho de vidro ou cara de mau

"A pirataria é o meio que o pobre tem de participar da sociedade de consumo"

"A mais-valia, ou a (maior) parte do trabalho não-pago de um assalariado, nada mais é do que uma apropriação, expropriação, com palavras menos eufêmicas, um roubo, em suma, uma pirataria legalmente praticada pelos capitalistas"


"O pensamento é pirata": Nenhuma lógica de propriedade intelectual privada (que é recente, fruto do liberalismo) pode esconder esta verdade, a saber, de que todo pensamento é dialógico, logo é realizado sempre em relação com o outro, o que faz ruir a ingênua ideia de "pura criação" ou de "originalidade" no sentido pleno das palavras. Sem o outro não há um eu, que, na verdade, não há mesmo.

"Mesmo a arte se faz com piratarias: créditos não dados a inspirações ocultadas"

Estas são as minhas respostas com "frases fortes" a todos os repetitivos e monótonos jornalistas, que podiam estudar mais a fundo as ciências humanas e sociais e aprofundar debates, em vez de somente nos legar descrições pretensamente objetivas dos "fatos cotidianos".

Como veem, ando um pouco cansado de desenvolver longamente as ideias, e assim recorro aos aforismos, técnica já da Antiguidade, de dizer muito usando poucas palavras. De dizer, como Nietzsche, numa frase o que muitos levam livros inteiros para dizer (e muitos nem dizem!)

Walter Andrade

13 de dezembro de 2011

Roupas novas: a forma como as coisas mudam

Hoje, quando não comemoramos nenhuma data especial para o Traquitana, o blog aparece de cara nova. O motivo da mudança, como é frequente no mundo, foi ocasional. Nada tem a ver com a proximidade do Natal ou  Ano novo: nos últimos dias o lay out do Traquitana enfrentava problemas e acabava dificultando a leitura. Naturalmente, apenas uma pessoa registrou o fato para mim, o que dá provas da imensidão de leitores que já possuímos! Fui tentar resolver a questão, mas o modelo de lay out que utilizávamos, turrão, não se permitia alterações significativas. Quis experimentar outro, testar a aparência, mas foi um passo sem volta! Como na vida, a minha decisão acarretou uma modificação que não pude desfazer. A vida virtual, cada vez mais desejosa de substituir a vida real, vai aos poucos aprendendo seus defeitos!

Bruno Silva.

7 de dezembro de 2011

Fim da Escrita à Mão?

 
A MÃO ATIVA O CÉREBRO
31/08/2011



A palavra escrita no papel está ameaçada de extinção pelo computador. E não se trata de ser apocalíptico...

Na semana passada, uma decisão tomada nos EUA veio reforçar essa ideia que tanto atormenta os (cada vez mais raros) entusiastas do lápis, caneta e papel. Em ato inédito, o governo do estado de Indiana desobrigou as escolas de ensinar a escrita cursiva (aquela em que as letras são emendadas umas nas outras) e recomendou que elas passassem a dedicar-se mais à digitação em teclados de computador - decisão que deve ser acompanhada por outros quarenta estados seguidores do mesmo currículo. Oficializa-se com isso algo que, na prática, já se percebe de forma acentuada, inclusive no Brasil. Diz a VEJA o especialista americano Mark Warschauer, professor da Universidade da Califórnia: "Ter destreza no computador tornou-se um bem infinitamente mais valioso do que produzir uma boa letra". 

Um conjunto de pesquisas recentes na área de neurociência, no entanto, afirma que a escrita de próprio punho provoca uma atividade significativamente mais intensa que a da digitação na região dedicada ao processamento das informações armazenadas na memória (o córtex pré-frontal), o que tem conexão direta com a elaboração e a expressão de ideias. Está provado também que o ato de escrever desencadeia ligações entre os neurônios naquela parte do cérebro que faz o reconhecimento visual das palavras, contribuindo assim para a fluidez na leitura (diria-se aqui: se quem lê mais escreve melhor, o contrário também ocorre). Com a digitação, essa área fica inativa. "Pelas habilidades que requer, o exercício da escrita manual é mais sofisticado, por isso põe o cérebro para trabalhar com mais vigor", explica a neurocientista Elvira Souza Lima, especialista em desenvolvimento humano. Isso só vem reforçar a complexidade do problema sobre o qual as escolas estão hoje debruçadas. 

O hábito da escrita vem caindo em desuso à medida que o computador - cujo primeiro chip foi traçado pelo americano Gordon Moore de posse de um velho lápis... - se dissemina. Lembro até de ter ouvido, não sem riso e alguma cumplicidade, de um colega no mestrado: "acho que não sei mais escrever sem backspace!". 
 
Até aqui, foi a palavra eternizada em papel (ou pedra, pergaminho, papiro) que se encarregou de registrar a história da humanidade, não raro em garranchos deixados por seus protagonistas. O computador traz uma nova dimensão à aquisição de conhecimento e à interação entre as gerações que chegam aos bancos escolares. Para elas, escrever a mão corre o risco de se tornar apenas mais um registro do passado...guardado em arquivo digital! Como a foto cimeira...


 Adaptado de "Educar".

Walter Andrade

6 de dezembro de 2011

O fim de uma era: a entrega das chaves.

As chaves do 714, na Rua Júlio de Castilhos, serão entregues amanhã, pondo fim a uma era. O apartamento foi palco e cenário de várias entre as melhores coisas que nos aconteceram desde 2004. Ele testemunhou o início de amizades cheias de irritação e bons momentos, porém nunca abrigou discórdia profunda entre os amigos; viu reconciliações efêmeras de blindex; foi vinho, foi cerveja e foi cinzeiro.
Ponto de encontro efusivo e de encontros de alcova, o apartamento se viu diminuído quando do fechamento do escritório do Dr. Evanildo. Mas não se abateu de todo, antes se desdobrou ao máximo do apartamentalmente possível! Ocupávamos o sétimo andar, não o sétimo céu: a fossa, o desespero, a desesperança, tudo isso teve vez naquela pequenina janela sobre amendoeiras de uma Copacabana que não volta mais. Mas o mundo doía e pesava menos quando estávamos reunidos naqueles quarenta metros quadrados.
Os meus melhores amigos passaram por ali; muitos dos nossos melhores momentos foram passados ali. Um tempo que a roda viva carrega sabe-se lá para que paragens. 
É por isso que hoje, nas vésperas do grande golpe, eu estou escrevendo esse elogio amargurado do apartamento: berço e túmulo de uma felicidade sem projeto.

Bruno Silva

1 de dezembro de 2011

Pense rápido I: a expectativa de vida do brasileiro.

Nova pesquisa publicada hoje revela que a expectativa de vida do brasileiro que nasceu em 2010 é de 73,5 anos de vida. Mas o adiamento da cova só é válido para os que vieram à luz no ano passado. Quem nasceu em 2009 leva uma desvantagem de 3 meses e 22 dias. Já os de 2000, segundo os indicadores para aquele ano, viverão 3 anos e 10 dias a menos. Eu me pergunto: qual a indenização para os que empacotarem antes? E mais: dá pra comemorar, se a expectativa de vida do planeta é cada vez menor?

Bruno Silva

25 de novembro de 2011

A 3ª Guerra Mundial

"O 3º Sexo, a 3ª Guerra, o 3º Mundo...são tão difíceis de entender" - EngHaw

A situação geopolítica internacional enfrenta um momento de grave desequilíbrio/crise capitalista econômico-financeira (com centro na Europa e E.U.A) e político (Mundo Árabe com Líbia, Síria, Egito, Irã, a Palestina ainda sem país territorial...), sem esquecermos os eternos (?) barris de pólvora étnico-religiosos que são os Bálcãs e certas regiões africanas, além do Extremo-Oriente (Índia/Paquistão/China/Coreias...), aliada à agressiva política israelense (racista, que se torna cruzadista quando aliada ao Ocidente) e anglo-americana, anglo-americanos que possuem um estratégico campo de influência no Oriente (Israel, Japão, Coreia do Sul, Kuwait, agora o Iraque, talvez já a Líbia...) e que implementaram uma "Guerra ao Terror" que também terrorizes neighborhood...

O historiador Karl Polanyi chamava atenção de que a 1ª Guerra Mundial ocorrera por um desequilíbrio de poder (além dos belicosos nacionalismos, lembro eu); convoco a morte do arquiduque Franz Ferdinand - que aprendemos na escola foi o estopim da 1ª G.M - que não tivesse sido assassinado nunca teria entrado para a História (só saído dela discretamente), nem teria sido nome de banda de rock. A 2ª G.M (apenas 20 anos depois!), claro, teve questões mais profundas envolvidas, o nazi-fascismo, ainda que não devamos esquecer que o Holocausto não era ainda de todo conhecido e assim não foi motor de consciência para a Grande Guerra, como é preciso lembrar que existiam campos de concentração igualmente na Inglaterra e na Rússia, por exemplos.

O que quero eu indicar? que a Guerra Fria - ensaio frustrado da 3ª Guerra Mundial - acabou com o fim do comunismo, mas não apagou essas outras feridas profundas, que continuamente voltam a infeccionar, expelir pus, sangue e luta. Há quase 70 anos não há uma Grande Guerra (a 1ª G.M se deu após "100 anos de paz"), os fatores estão todos aí, e as armas continuamente produzidas não podem enferrujar. No nosso horizonte tem se descortinado - queira Deus, se existir, ou os homens, que não existem mesmo, que eu esteja errado - a proximidade nada remota da 3ª G.M: geoestratégica, étnica, religiosa, petrolífera, aquosa, ambiental (?), numa palavra com dúbios sentidos: atômica.

Walter Andrade

24 de novembro de 2011

Pulseiras do equilíbrio, fórmula 1 e tal...

As famigeradas "power balance" estão prestes a sumir de vez. A empresa espanhola responsável pela fabricação possivelmente cerrará las puertas após condenação por fraude: uma cifra de 42 milhões de euros. Para a "surpresa" de muita gente, o adereço não tinha as propriedades alegadas pelo fabricante. Algumas celebridades aderiram ao uso. Eis a lógica: Cristiano Ronaldo, jogador do Real Madrid, utiliza (ou utilizava) a pulseira = o rendimento do atleta é espetacular = a pulseira é boa; Rubens Barrichello utilizava a pulseira = desempenho ruim (apesar da culpa sempre, ou quase sempre, recair no desequilíbrio do carro [que não usava a pulseira]) = a pulseira atrapalhava. Pela não contradição: a pulseira simplesmente era inútil. Não precisava nem de ciência para a conclusão.
Falando em Barrichello, Felipe Massa andou dando declarações que repercutiram. O nosso Zacarias de macacão afirmou ter dado conselho para o Barrichello parar de correr esse ano. Além de demonstrar pouca percepção dos fatos (o Barrichello já não corre há vários anos!), deu provas da sua imensa falta de auto-crítica: daqui há uns anos será a vez do Bruno Senna dar o conselho pro Massa, e a piada será a mesma.
Falando em piada, parece que o Bruno Senna terá que disputar a vaga deixada provisoriamente aberta por Kubica com o Barrichello (se ele, Barrichello, não der ouvidos ao Massa, e continuar dando-os ao Galvão Bueno).
Falando em Galvão Bueno: Cala a boca, Galvão!

Bruno Silva

17 de novembro de 2011

Ensaio sobre a cegueira?

Certa vez ouvi uma história que me deixou estarrecido: os médicos nazistas testavam procedimentos cruéis em judeus prisioneiros, no intuito de conseguirem modificar a cor dos olhos, transformando-os em azuis. Para fazê-lo, os médicos injetavam tinta nos olhos das "cobaias involuntárias". Até hoje não sei se esta crueldade fazia parte do rol de loucuras do nazismo, mas a simples hipótese de ter sido verdade é suficiente para me fazer sempre menos entusiasta da humanidade. 
Quando se conta uma história dessas, hoje, muitas pessoas podem ficar abaladas pelo procedimento bárbaro então utilizado. Alguns, pouco mais sensíveis, chocam-se com a falta de escolha dos judeus, com a imposição dessa mudança estética. Número talvez menor é o daqueles que pensam: por que mudar a cor? O que isso pode significar? Ocorre que recentemente foi divulgada uma dessas descobertas inúteis da ciência: uma cirurgia a laser capaz de destruir a melanina dos olhos, que é responsável pela coloração castanha, fazendo revelar o azul que há por baixo. Quer dizer, a melanina atrapalharia a verdadeira cor! A "descoberta" partiu dos EUA, e seu responsável (o advogado Gregg Homer, da empresa Stroma Medical) espera que a nova tecnologia esteja disponível primeiro na América Latina e nos países asiáticos, afirmando que são mercados promissores e mais tolerantes à cirurgias estéticas. Será mesmo esse o motivo?
A discussão poderia enveredar por ramos intermináveis: do racismo à liberdade no gozo do próprio corpo, característica de nosso tempo, já tão acostumado às tinturas de cabelo, bronzeadores e lentes de contato coloridas. Poderia se discutir o paradoxo da geração: luta pela afirmação da pluralidade étnica e desenvolvimento de procedimentos sutis de recusa de alguns traços característicos do que alguns ainda chamam de "raça". Engraçado que o Michael Jackson, em entrevista ao jornalista britânico Martim Bashir, chamou a atenção justamente para a questão, pois se tratava de condená-lo (ao Michael Jackson) pela despigmentação da pele, enquanto as indústrias farmacêuticas seguiam faturando bilhões com cosméticos destinados a essas pequenas mudanças de fenótipo acima referidas, sem que isso gerasse grandes inquietações. A propósito, existe um vídeo que faz muito sucesso na rede, somando quase quatorze milhões de exibições. O título do vídeo: o bebê mais lindo do mundo. Mostra uma criança negra de olhos azuis. E se fossem escuros os olhos, será que o bebê seria considerado “o mais lindo do mundo”?
Ao que parece, existe o risco do desenvolvimento do glaucoma pigmentar resultado da cirurgia, podendo levar os pacientes à cegueira. Como o Saramago chamaria um surto proveniente dessa nova “maravilha” da ciência? O “mal azul”?
Além disso, o procedimento deverá custar algo em torno de cinco mil dólares (por olho). Então, eis um possível diálogo de consultório num futuro breve:
 
-Doutor, gostaria de ter o olho direito azul?
-E o esquerdo?
-O esquerdo eu vou usar para pagar a cirurgia!
  
Bruno Silva

10 de novembro de 2011

Os royalties e a Índia

O que a marcha em defesa dos royalties do Rio tem em comum com a Índia? Aparentemente nada, mas foi através da primeira (pela sua tangente, para ser mais exato) que eu fui parar numa exposição sobre a segunda.
A marcha, propriamente dita, foi sofrível: os carros de som uns contra os outros e todos contra mim (improvável hipótese, além de confessado egocentrismo). Mas ao som do funk, axé e samba, eu pouco resisti entre o sol escaldante e uma Rio Branco negra de petróleo, onde o asfalto mais parecia um mar de óleo diesel; e foi andando sobre ele, como um São Pedro temeroso, que cheguei à exposição do CCBB em busca de ar condicionado: entrei na  Índia.
Vi coisas interessantes, vi um amigo meu em trajes estranhos e me senti um George Harisson sem guitarra. Já na entrada mantive um complicado e divertido diálogo com um senhor de problemática dicção, mas de ideias engraçadas. Perguntava-me o bom macróbio se na Índia se sabia do verdadeiro Deus, e que figura esquista era aquela com quatro braços e cabeça de elefante. Começamos a falar de religião e ele disparou: ''mas o verdadeiro Deus apronta umas provações fdp (arrependeu-se em seguida, e pediu perdão pela maneira nada apropriada de se referir). E que história foi aquela de fazer aposta com o Diabo?! Coitado do pobre (rico) Jó: ficou mais teso do que o próprio Cão! Virou praticamente um mendigo!''.
O senhor foi embora como uma aparição, me deixando lá com a ideia desse texto na cabeça.
Que Deus o livre e guarde! Ou Ganesha, talvez...

Bruno Silva

9 de novembro de 2011

A interpretação política de Slavoj Zizek sobre as questões atuais

 Reproduzo aqui um post do site http://dafnesouzasampaio.blogspot.com/2011/10/vermelho-e-cor.html, já os grifos no texto do filósofo Slavoj Zizek são meus. O texto de Zizek é uma espécie de condensador de tudo que está ocorrendo neste ano de 2011, e dialoga assim com nossos post's até aqui, até com o sobre o "fim do mundo".

vermelho é a cor

ano interessantíssimo esse 2011 com revoltas democráticas pelo mundo árabe, o quebra-quebra de londres e agora essa ocupação em várias cidades dos estados unidos (mais informações no site oficial do occupy wall street), sem falar nas nossas marchas da maconha, da liberdade e tantas outras ocupações de espaços públicos (como na USP). na segunda, dia 10 de outubro, o filósofo esloveno slavoj zizek esteve na liberty plaza, em nova york, condensou algumas de suas mais conhecidas teorias recentes e disparou um discurso muito bom sobre o presente, o futuro e o estado das coisas. a tradução abaixo é de Rogério Bettoni, feita para o blog da boitempo editorial; também é possível ver o homem em ação no meio da galera em inúmeros videos espalhados pelo youtube (por exemplo nessa trilogia aqui parte 1, parte 2 e parte 3).
O filósofo esloveno Slavoj Zizek na ocupação anticapitalista da Wall Street

 A TINTA VERMELHA
por Slavoj Zizek


Não se apaixonem por si mesmos, nem pelo momento agradável que estamos tendo aqui. Carnavais custam muito pouco – o verdadeiro teste de seu valor é o que permanece no dia seguinte, ou a maneira como nossa vida normal e cotidiana será modificada. Apaixone-se pelo trabalho duro e paciente – somos o início, não o fim. Nossa mensagem básica é: o tabu já foi rompido, não vivemos no melhor mundo possível, temos a permissão e a obrigação de pensar em alternativas. Há um longo caminho pela frente, e em pouco tempo teremos de enfrentar questões realmente difíceis – questões não sobre aquilo que não queremos, mas sobre aquilo que QUEREMOS. Qual organização social pode substituir o capitalismo vigente? De quais tipos de líderes nós precisamos? As alternativas do século XX obviamente não servem.

Então não culpe o povo e suas atitudes: o problema não é a corrupção ou a ganância, mas o sistema que nos incita a sermos corruptos. A solução não é o lema “Main Street, not Wall Street”, mas sim mudar o sistema em que a Main Street não funciona sem o Wall Street. Tenham cuidado não só com os inimigos, mas também com falsos amigos que fingem nos apoiar e já fazem de tudo para diluir nosso protesto. Da mesma maneira que compramos café sem cafeína, cerveja sem álcool e sorvete sem gordura, eles tentarão transformar isto aqui em um protesto moral inofensivo. Mas a razão de estarmos reunidos é o fato de já termos tido o bastante de um mundo onde reciclar latas de Coca-Cola, dar alguns dólares para a caridade ou comprar um cappuccino da Starbucks que tem 1% da renda revertida para problemas do Terceiro Mundo é o suficiente para nos fazer sentir bem. Depois de terceirizar o trabalho, depois de terceirizar a tortura, depois que as agências matrimoniais começaram a terceirizar até nossos encontros, é que percebemos que, há muito tempo, também permitimos que nossos engajamentos políticos sejam terceirizados – mas agora nós os queremos de volta.


Dirão que somos “não americanos”. Mas quando fundamentalistas conservadores nos disserem que os Estados Unidos são uma nação cristã, lembrem-se do que é o Cristianismo: o Espírito Santo, a comunidade livre e igualitária de fiéis unidos pelo amor. Nós, aqui, somos o Espírito Santo, enquanto em Wall Street eles são pagãos que adoram falsos ídolos.


Dirão que somos violentos, que nossa linguagem é violenta, referindo-se à ocupação e assim por diante. Sim, somos violentos, mas somente no mesmo sentido em que Mahatma Gandhi foi violento. Somos violentos porque queremos dar um basta no modo como as coisas andam – mas o que significa essa violência puramente simbólica quando comparada à violência necessária para sustentar o funcionamento constante do sistema capitalista global?


Seremos chamados de perdedores – mas os verdadeiros perdedores não estariam lá em Wall Street, os que se safaram com a ajuda de centenas de bilhões do nosso dinheiro? Vocês são chamados de socialistas, mas nos Estados Unidos já existe o socialismo para os ricos. Eles dirão que vocês não respeitam a propriedade privada, mas as especulações de Wall Street que levaram à queda de 2008 foram mais responsáveis pela extinção de propriedades privadas obtidas a duras penas do que se estivéssemos destruindo-as agora, dia e noite – pense nas centenas de casas hipotecadas…


Nós não somos comunistas, se o comunismo significa o sistema que merecidamente entrou em colapso em 1990 – e lembrem-se de que os comunistas que ainda detêm o poder atualmente governam o mais implacável dos capitalismos (na China). O sucesso do capitalismo chinês liderado pelo comunismo é um sinal abominável de que o casamento entre o capitalismo e a democracia está próximo do divórcio. Nós somos comunistas em um sentido apenas: nós nos importamos com os bens comuns – os da natureza, do conhecimento – que estão ameaçados pelo sistema.


Eles dirão que vocês estão sonhando, mas os verdadeiros sonhadores são os que pensam que as coisas podem continuar sendo o que são por um tempo indefinido, assim como ocorre com as mudanças cosméticas. Nós não estamos sonhando; nós acordamos de um sonho que está se transformando em pesadelo. Não estamos destruindo nada; somos apenas testemunhas de como o sistema está gradualmente destruindo a si próprio. Todos nós conhecemos a cena clássica dos desenhos animados: o gato chega à beira do precipício e continua caminhando, ignorando o fato de que não há chão sob suas patas; ele só começa a cair quando olha para baixo e vê o abismo. O que estamos fazendo é simplesmente levar os que estão no poder a olhar para baixo…


Então, a mudança é realmente possível? Hoje, o possível e o impossível são dispostos de maneira estranha. Nos domínios da liberdade pessoal e da tecnologia científica, o impossível está se tornando cada vez mais possível (ou pelo menos é o que nos dizem): “nada é impossível”, podemos ter sexo em suas mais perversas variações; arquivos inteiros de músicas, filmes e seriados de TV estão disponíveis para download; a viagem espacial está à venda para quem tiver dinheiro; podemos melhorar nossas habilidades físicas e psíquicas por meio de intervenções no genoma, e até mesmo realizar o sonho tecnognóstico de atingir a imortalidade transformando nossa identidade em um programa de computador. Por outro lado, no domínio das relações econômicas e sociais, somos bombardeados o tempo todo por um discurso do “você não pode” se envolver em atos políticos coletivos (que necessariamente terminam no terror totalitário), ou aderir ao antigo Estado de bem-estar social (ele nos transforma em não competitivos e leva à crise econômica), ou se isolar do mercado global etc. Quando medidas de austeridade são impostas, dizem-nos repetidas vezes que se trata apenas do que tem de ser feito. Quem sabe não chegou a hora de inverter as coordenadas do que é possível e impossível? Quem sabe não podemos ter mais solidariedade e assistência médica, já que não somos imortais?


Em meados de abril de 2011, a mídia revelou que o governo chinês havia proibido a exibição, em cinemas e na TV, de filmes que falassem de viagens no tempo e histórias paralelas, argumentando que elas trazem frivolidade para questões históricas sérias – até mesmo a fuga fictícia para uma realidade alternativa é considerada perigosa demais. Nós, do mundo Ocidental liberal, não precisamos de uma proibição tão explícita: a ideologia exerce poder material suficiente para evitar que narrativas históricas alternativas sejam interpretadas com o mínimo de seriedade. Para nós é fácil imaginar o fim do mundo – vide os inúmeros filmes apocalípticos –, mas não o fim do capitalismo.

Em uma velha piada da antiga República Democrática Alemã, um trabalhador alemão consegue um emprego na Sibéria; sabendo que todas as suas correspondências serão lidas pelos censores, ele diz para os amigos: “Vamos combinar um código: se vocês receberem uma carta minha escrita com tinta azul, ela é verdadeira; se a tinta for vermelha, é falsa”. Depois de um mês, os amigos receberam a primeira carta, escrita em azul: “Tudo é uma maravilha por aqui: os estoques estão cheios, a comida é abundante, os apartamentos são amplos e aquecidos, os cinemas exibem filmes ocidentais, há mulheres lindas prontas para um romance – a única coisa que não temos é tinta vermelha.” E essa situação, não é a mesma que vivemos até hoje? Temos toda a liberdade que desejamos – a única coisa que falta é a “tinta vermelha”: nós nos “sentimos livres” porque somos desprovidos da linguagem para articular nossa falta de liberdade. O que a falta de tinta vermelha significa é que, hoje, todos os principais termos que usamos para designar o conflito atual – “guerra ao terror”, “democracia e liberdade”, “direitos humanos” etc. etc. – são termos FALSOS que mistificam nossa percepção da situação em vez de permitir que pensemos nela. Você, que está aqui presente, está dando a todos nós tinta vermelha.


Walter Andrade

O Real Motivo da Resistência na USP: A Repressão Policial

Essa vai para todos aqueles que compram à vista a informação globista (oficial) e superficial de que a motivação da ocupação da USP pelos estudantes e funcionários é apenas "pra fumar maconha em paz", o vídeo é a entrevista do professor Luiz Renato Martins, da USP:

http://www.youtube.com/watch?v=8MTAcnr-LaQ&sns=fb

Além do texto de Tico Santa Cruz (ele mesmo!), que faz um apanhado de outros textos também sobre o assunto e que podia usar essa inteligência nas suas canções...

http://bloglog.globo.com/blog/blog.do?act=loadSite&id=288&postId=28701&permalink=true

Walter Andrade

Ps: Tentei pôr dentro do post, mas o blogspot não localizava o vídeo.

5 de novembro de 2011

O Fim do Mundo

2012?

Espera-se pelo fim do mundo desde seu começo, ou melhor, desde o início da consciência dos homens. Este longo aguardo é, como se sabe, de origem religiosa, e tem sempre seus ápices em viradas de século, milênio ou em catástrofes religiosas, políticas ou naturais. Tudo parece se juntar atualmente. E é pela atualidade e poesia de um diálogo de 1654, intitulado Hospital das Letras, do escritor-fidalgo português D. Francisco Manoel de Melo, que eu aqui o reproduzo. Antes, deixo meu ceticismo, incluso em Deus e portanto da Criação (partilho do evolucionismo darwinista), de confissão que antecede a citação. Ceticismo que, como se pode ver, não me impede de perceber a beleza e difundi-la, pois é também mérito dos céticos a tolerância:

"[...] porque o mundo, se bem é verdade que se há-de acabar, não se há-de desfazer primeiro que se acabe. Com todas suas forças e faculdades se há-de ir à sepultura, e até o fim permanecerá na própria ordem em que começou, convindo assim ao maior espanto dos vivos e mais admirável crédito da Omnipotência; porque tem proporção que, assim como Deus de nada fez tudo, de tudo faça nada; e, como o mundo nunca ascendeu por graus sucessivos à sua perfeição, não desça por outros tais à sua aniquilação. Porque, se o mundo fosse por graus sucessivos caducando em suas operações, fácil conseqüência e pequena maravilha viera a ser depois o fim dele. Além de que não faltara ignorância que presumisse fora também autor de si mesmo; mas obrar hoje o mundo como o primeiro dia de sua criação e acabar-se amanhã é mistério que inculca todos os espantos e encarecimentos."

Walter Andrade