25 de novembro de 2011

A 3ª Guerra Mundial

"O 3º Sexo, a 3ª Guerra, o 3º Mundo...são tão difíceis de entender" - EngHaw

A situação geopolítica internacional enfrenta um momento de grave desequilíbrio/crise capitalista econômico-financeira (com centro na Europa e E.U.A) e político (Mundo Árabe com Líbia, Síria, Egito, Irã, a Palestina ainda sem país territorial...), sem esquecermos os eternos (?) barris de pólvora étnico-religiosos que são os Bálcãs e certas regiões africanas, além do Extremo-Oriente (Índia/Paquistão/China/Coreias...), aliada à agressiva política israelense (racista, que se torna cruzadista quando aliada ao Ocidente) e anglo-americana, anglo-americanos que possuem um estratégico campo de influência no Oriente (Israel, Japão, Coreia do Sul, Kuwait, agora o Iraque, talvez já a Líbia...) e que implementaram uma "Guerra ao Terror" que também terrorizes neighborhood...

O historiador Karl Polanyi chamava atenção de que a 1ª Guerra Mundial ocorrera por um desequilíbrio de poder (além dos belicosos nacionalismos, lembro eu); convoco a morte do arquiduque Franz Ferdinand - que aprendemos na escola foi o estopim da 1ª G.M - que não tivesse sido assassinado nunca teria entrado para a História (só saído dela discretamente), nem teria sido nome de banda de rock. A 2ª G.M (apenas 20 anos depois!), claro, teve questões mais profundas envolvidas, o nazi-fascismo, ainda que não devamos esquecer que o Holocausto não era ainda de todo conhecido e assim não foi motor de consciência para a Grande Guerra, como é preciso lembrar que existiam campos de concentração igualmente na Inglaterra e na Rússia, por exemplos.

O que quero eu indicar? que a Guerra Fria - ensaio frustrado da 3ª Guerra Mundial - acabou com o fim do comunismo, mas não apagou essas outras feridas profundas, que continuamente voltam a infeccionar, expelir pus, sangue e luta. Há quase 70 anos não há uma Grande Guerra (a 1ª G.M se deu após "100 anos de paz"), os fatores estão todos aí, e as armas continuamente produzidas não podem enferrujar. No nosso horizonte tem se descortinado - queira Deus, se existir, ou os homens, que não existem mesmo, que eu esteja errado - a proximidade nada remota da 3ª G.M: geoestratégica, étnica, religiosa, petrolífera, aquosa, ambiental (?), numa palavra com dúbios sentidos: atômica.

Walter Andrade

24 de novembro de 2011

Pulseiras do equilíbrio, fórmula 1 e tal...

As famigeradas "power balance" estão prestes a sumir de vez. A empresa espanhola responsável pela fabricação possivelmente cerrará las puertas após condenação por fraude: uma cifra de 42 milhões de euros. Para a "surpresa" de muita gente, o adereço não tinha as propriedades alegadas pelo fabricante. Algumas celebridades aderiram ao uso. Eis a lógica: Cristiano Ronaldo, jogador do Real Madrid, utiliza (ou utilizava) a pulseira = o rendimento do atleta é espetacular = a pulseira é boa; Rubens Barrichello utilizava a pulseira = desempenho ruim (apesar da culpa sempre, ou quase sempre, recair no desequilíbrio do carro [que não usava a pulseira]) = a pulseira atrapalhava. Pela não contradição: a pulseira simplesmente era inútil. Não precisava nem de ciência para a conclusão.
Falando em Barrichello, Felipe Massa andou dando declarações que repercutiram. O nosso Zacarias de macacão afirmou ter dado conselho para o Barrichello parar de correr esse ano. Além de demonstrar pouca percepção dos fatos (o Barrichello já não corre há vários anos!), deu provas da sua imensa falta de auto-crítica: daqui há uns anos será a vez do Bruno Senna dar o conselho pro Massa, e a piada será a mesma.
Falando em piada, parece que o Bruno Senna terá que disputar a vaga deixada provisoriamente aberta por Kubica com o Barrichello (se ele, Barrichello, não der ouvidos ao Massa, e continuar dando-os ao Galvão Bueno).
Falando em Galvão Bueno: Cala a boca, Galvão!

Bruno Silva

17 de novembro de 2011

Ensaio sobre a cegueira?

Certa vez ouvi uma história que me deixou estarrecido: os médicos nazistas testavam procedimentos cruéis em judeus prisioneiros, no intuito de conseguirem modificar a cor dos olhos, transformando-os em azuis. Para fazê-lo, os médicos injetavam tinta nos olhos das "cobaias involuntárias". Até hoje não sei se esta crueldade fazia parte do rol de loucuras do nazismo, mas a simples hipótese de ter sido verdade é suficiente para me fazer sempre menos entusiasta da humanidade. 
Quando se conta uma história dessas, hoje, muitas pessoas podem ficar abaladas pelo procedimento bárbaro então utilizado. Alguns, pouco mais sensíveis, chocam-se com a falta de escolha dos judeus, com a imposição dessa mudança estética. Número talvez menor é o daqueles que pensam: por que mudar a cor? O que isso pode significar? Ocorre que recentemente foi divulgada uma dessas descobertas inúteis da ciência: uma cirurgia a laser capaz de destruir a melanina dos olhos, que é responsável pela coloração castanha, fazendo revelar o azul que há por baixo. Quer dizer, a melanina atrapalharia a verdadeira cor! A "descoberta" partiu dos EUA, e seu responsável (o advogado Gregg Homer, da empresa Stroma Medical) espera que a nova tecnologia esteja disponível primeiro na América Latina e nos países asiáticos, afirmando que são mercados promissores e mais tolerantes à cirurgias estéticas. Será mesmo esse o motivo?
A discussão poderia enveredar por ramos intermináveis: do racismo à liberdade no gozo do próprio corpo, característica de nosso tempo, já tão acostumado às tinturas de cabelo, bronzeadores e lentes de contato coloridas. Poderia se discutir o paradoxo da geração: luta pela afirmação da pluralidade étnica e desenvolvimento de procedimentos sutis de recusa de alguns traços característicos do que alguns ainda chamam de "raça". Engraçado que o Michael Jackson, em entrevista ao jornalista britânico Martim Bashir, chamou a atenção justamente para a questão, pois se tratava de condená-lo (ao Michael Jackson) pela despigmentação da pele, enquanto as indústrias farmacêuticas seguiam faturando bilhões com cosméticos destinados a essas pequenas mudanças de fenótipo acima referidas, sem que isso gerasse grandes inquietações. A propósito, existe um vídeo que faz muito sucesso na rede, somando quase quatorze milhões de exibições. O título do vídeo: o bebê mais lindo do mundo. Mostra uma criança negra de olhos azuis. E se fossem escuros os olhos, será que o bebê seria considerado “o mais lindo do mundo”?
Ao que parece, existe o risco do desenvolvimento do glaucoma pigmentar resultado da cirurgia, podendo levar os pacientes à cegueira. Como o Saramago chamaria um surto proveniente dessa nova “maravilha” da ciência? O “mal azul”?
Além disso, o procedimento deverá custar algo em torno de cinco mil dólares (por olho). Então, eis um possível diálogo de consultório num futuro breve:
 
-Doutor, gostaria de ter o olho direito azul?
-E o esquerdo?
-O esquerdo eu vou usar para pagar a cirurgia!
  
Bruno Silva

10 de novembro de 2011

Os royalties e a Índia

O que a marcha em defesa dos royalties do Rio tem em comum com a Índia? Aparentemente nada, mas foi através da primeira (pela sua tangente, para ser mais exato) que eu fui parar numa exposição sobre a segunda.
A marcha, propriamente dita, foi sofrível: os carros de som uns contra os outros e todos contra mim (improvável hipótese, além de confessado egocentrismo). Mas ao som do funk, axé e samba, eu pouco resisti entre o sol escaldante e uma Rio Branco negra de petróleo, onde o asfalto mais parecia um mar de óleo diesel; e foi andando sobre ele, como um São Pedro temeroso, que cheguei à exposição do CCBB em busca de ar condicionado: entrei na  Índia.
Vi coisas interessantes, vi um amigo meu em trajes estranhos e me senti um George Harisson sem guitarra. Já na entrada mantive um complicado e divertido diálogo com um senhor de problemática dicção, mas de ideias engraçadas. Perguntava-me o bom macróbio se na Índia se sabia do verdadeiro Deus, e que figura esquista era aquela com quatro braços e cabeça de elefante. Começamos a falar de religião e ele disparou: ''mas o verdadeiro Deus apronta umas provações fdp (arrependeu-se em seguida, e pediu perdão pela maneira nada apropriada de se referir). E que história foi aquela de fazer aposta com o Diabo?! Coitado do pobre (rico) Jó: ficou mais teso do que o próprio Cão! Virou praticamente um mendigo!''.
O senhor foi embora como uma aparição, me deixando lá com a ideia desse texto na cabeça.
Que Deus o livre e guarde! Ou Ganesha, talvez...

Bruno Silva

9 de novembro de 2011

A interpretação política de Slavoj Zizek sobre as questões atuais

 Reproduzo aqui um post do site http://dafnesouzasampaio.blogspot.com/2011/10/vermelho-e-cor.html, já os grifos no texto do filósofo Slavoj Zizek são meus. O texto de Zizek é uma espécie de condensador de tudo que está ocorrendo neste ano de 2011, e dialoga assim com nossos post's até aqui, até com o sobre o "fim do mundo".

vermelho é a cor

ano interessantíssimo esse 2011 com revoltas democráticas pelo mundo árabe, o quebra-quebra de londres e agora essa ocupação em várias cidades dos estados unidos (mais informações no site oficial do occupy wall street), sem falar nas nossas marchas da maconha, da liberdade e tantas outras ocupações de espaços públicos (como na USP). na segunda, dia 10 de outubro, o filósofo esloveno slavoj zizek esteve na liberty plaza, em nova york, condensou algumas de suas mais conhecidas teorias recentes e disparou um discurso muito bom sobre o presente, o futuro e o estado das coisas. a tradução abaixo é de Rogério Bettoni, feita para o blog da boitempo editorial; também é possível ver o homem em ação no meio da galera em inúmeros videos espalhados pelo youtube (por exemplo nessa trilogia aqui parte 1, parte 2 e parte 3).
O filósofo esloveno Slavoj Zizek na ocupação anticapitalista da Wall Street

 A TINTA VERMELHA
por Slavoj Zizek


Não se apaixonem por si mesmos, nem pelo momento agradável que estamos tendo aqui. Carnavais custam muito pouco – o verdadeiro teste de seu valor é o que permanece no dia seguinte, ou a maneira como nossa vida normal e cotidiana será modificada. Apaixone-se pelo trabalho duro e paciente – somos o início, não o fim. Nossa mensagem básica é: o tabu já foi rompido, não vivemos no melhor mundo possível, temos a permissão e a obrigação de pensar em alternativas. Há um longo caminho pela frente, e em pouco tempo teremos de enfrentar questões realmente difíceis – questões não sobre aquilo que não queremos, mas sobre aquilo que QUEREMOS. Qual organização social pode substituir o capitalismo vigente? De quais tipos de líderes nós precisamos? As alternativas do século XX obviamente não servem.

Então não culpe o povo e suas atitudes: o problema não é a corrupção ou a ganância, mas o sistema que nos incita a sermos corruptos. A solução não é o lema “Main Street, not Wall Street”, mas sim mudar o sistema em que a Main Street não funciona sem o Wall Street. Tenham cuidado não só com os inimigos, mas também com falsos amigos que fingem nos apoiar e já fazem de tudo para diluir nosso protesto. Da mesma maneira que compramos café sem cafeína, cerveja sem álcool e sorvete sem gordura, eles tentarão transformar isto aqui em um protesto moral inofensivo. Mas a razão de estarmos reunidos é o fato de já termos tido o bastante de um mundo onde reciclar latas de Coca-Cola, dar alguns dólares para a caridade ou comprar um cappuccino da Starbucks que tem 1% da renda revertida para problemas do Terceiro Mundo é o suficiente para nos fazer sentir bem. Depois de terceirizar o trabalho, depois de terceirizar a tortura, depois que as agências matrimoniais começaram a terceirizar até nossos encontros, é que percebemos que, há muito tempo, também permitimos que nossos engajamentos políticos sejam terceirizados – mas agora nós os queremos de volta.


Dirão que somos “não americanos”. Mas quando fundamentalistas conservadores nos disserem que os Estados Unidos são uma nação cristã, lembrem-se do que é o Cristianismo: o Espírito Santo, a comunidade livre e igualitária de fiéis unidos pelo amor. Nós, aqui, somos o Espírito Santo, enquanto em Wall Street eles são pagãos que adoram falsos ídolos.


Dirão que somos violentos, que nossa linguagem é violenta, referindo-se à ocupação e assim por diante. Sim, somos violentos, mas somente no mesmo sentido em que Mahatma Gandhi foi violento. Somos violentos porque queremos dar um basta no modo como as coisas andam – mas o que significa essa violência puramente simbólica quando comparada à violência necessária para sustentar o funcionamento constante do sistema capitalista global?


Seremos chamados de perdedores – mas os verdadeiros perdedores não estariam lá em Wall Street, os que se safaram com a ajuda de centenas de bilhões do nosso dinheiro? Vocês são chamados de socialistas, mas nos Estados Unidos já existe o socialismo para os ricos. Eles dirão que vocês não respeitam a propriedade privada, mas as especulações de Wall Street que levaram à queda de 2008 foram mais responsáveis pela extinção de propriedades privadas obtidas a duras penas do que se estivéssemos destruindo-as agora, dia e noite – pense nas centenas de casas hipotecadas…


Nós não somos comunistas, se o comunismo significa o sistema que merecidamente entrou em colapso em 1990 – e lembrem-se de que os comunistas que ainda detêm o poder atualmente governam o mais implacável dos capitalismos (na China). O sucesso do capitalismo chinês liderado pelo comunismo é um sinal abominável de que o casamento entre o capitalismo e a democracia está próximo do divórcio. Nós somos comunistas em um sentido apenas: nós nos importamos com os bens comuns – os da natureza, do conhecimento – que estão ameaçados pelo sistema.


Eles dirão que vocês estão sonhando, mas os verdadeiros sonhadores são os que pensam que as coisas podem continuar sendo o que são por um tempo indefinido, assim como ocorre com as mudanças cosméticas. Nós não estamos sonhando; nós acordamos de um sonho que está se transformando em pesadelo. Não estamos destruindo nada; somos apenas testemunhas de como o sistema está gradualmente destruindo a si próprio. Todos nós conhecemos a cena clássica dos desenhos animados: o gato chega à beira do precipício e continua caminhando, ignorando o fato de que não há chão sob suas patas; ele só começa a cair quando olha para baixo e vê o abismo. O que estamos fazendo é simplesmente levar os que estão no poder a olhar para baixo…


Então, a mudança é realmente possível? Hoje, o possível e o impossível são dispostos de maneira estranha. Nos domínios da liberdade pessoal e da tecnologia científica, o impossível está se tornando cada vez mais possível (ou pelo menos é o que nos dizem): “nada é impossível”, podemos ter sexo em suas mais perversas variações; arquivos inteiros de músicas, filmes e seriados de TV estão disponíveis para download; a viagem espacial está à venda para quem tiver dinheiro; podemos melhorar nossas habilidades físicas e psíquicas por meio de intervenções no genoma, e até mesmo realizar o sonho tecnognóstico de atingir a imortalidade transformando nossa identidade em um programa de computador. Por outro lado, no domínio das relações econômicas e sociais, somos bombardeados o tempo todo por um discurso do “você não pode” se envolver em atos políticos coletivos (que necessariamente terminam no terror totalitário), ou aderir ao antigo Estado de bem-estar social (ele nos transforma em não competitivos e leva à crise econômica), ou se isolar do mercado global etc. Quando medidas de austeridade são impostas, dizem-nos repetidas vezes que se trata apenas do que tem de ser feito. Quem sabe não chegou a hora de inverter as coordenadas do que é possível e impossível? Quem sabe não podemos ter mais solidariedade e assistência médica, já que não somos imortais?


Em meados de abril de 2011, a mídia revelou que o governo chinês havia proibido a exibição, em cinemas e na TV, de filmes que falassem de viagens no tempo e histórias paralelas, argumentando que elas trazem frivolidade para questões históricas sérias – até mesmo a fuga fictícia para uma realidade alternativa é considerada perigosa demais. Nós, do mundo Ocidental liberal, não precisamos de uma proibição tão explícita: a ideologia exerce poder material suficiente para evitar que narrativas históricas alternativas sejam interpretadas com o mínimo de seriedade. Para nós é fácil imaginar o fim do mundo – vide os inúmeros filmes apocalípticos –, mas não o fim do capitalismo.

Em uma velha piada da antiga República Democrática Alemã, um trabalhador alemão consegue um emprego na Sibéria; sabendo que todas as suas correspondências serão lidas pelos censores, ele diz para os amigos: “Vamos combinar um código: se vocês receberem uma carta minha escrita com tinta azul, ela é verdadeira; se a tinta for vermelha, é falsa”. Depois de um mês, os amigos receberam a primeira carta, escrita em azul: “Tudo é uma maravilha por aqui: os estoques estão cheios, a comida é abundante, os apartamentos são amplos e aquecidos, os cinemas exibem filmes ocidentais, há mulheres lindas prontas para um romance – a única coisa que não temos é tinta vermelha.” E essa situação, não é a mesma que vivemos até hoje? Temos toda a liberdade que desejamos – a única coisa que falta é a “tinta vermelha”: nós nos “sentimos livres” porque somos desprovidos da linguagem para articular nossa falta de liberdade. O que a falta de tinta vermelha significa é que, hoje, todos os principais termos que usamos para designar o conflito atual – “guerra ao terror”, “democracia e liberdade”, “direitos humanos” etc. etc. – são termos FALSOS que mistificam nossa percepção da situação em vez de permitir que pensemos nela. Você, que está aqui presente, está dando a todos nós tinta vermelha.


Walter Andrade

O Real Motivo da Resistência na USP: A Repressão Policial

Essa vai para todos aqueles que compram à vista a informação globista (oficial) e superficial de que a motivação da ocupação da USP pelos estudantes e funcionários é apenas "pra fumar maconha em paz", o vídeo é a entrevista do professor Luiz Renato Martins, da USP:

http://www.youtube.com/watch?v=8MTAcnr-LaQ&sns=fb

Além do texto de Tico Santa Cruz (ele mesmo!), que faz um apanhado de outros textos também sobre o assunto e que podia usar essa inteligência nas suas canções...

http://bloglog.globo.com/blog/blog.do?act=loadSite&id=288&postId=28701&permalink=true

Walter Andrade

Ps: Tentei pôr dentro do post, mas o blogspot não localizava o vídeo.

5 de novembro de 2011

O Fim do Mundo

2012?

Espera-se pelo fim do mundo desde seu começo, ou melhor, desde o início da consciência dos homens. Este longo aguardo é, como se sabe, de origem religiosa, e tem sempre seus ápices em viradas de século, milênio ou em catástrofes religiosas, políticas ou naturais. Tudo parece se juntar atualmente. E é pela atualidade e poesia de um diálogo de 1654, intitulado Hospital das Letras, do escritor-fidalgo português D. Francisco Manoel de Melo, que eu aqui o reproduzo. Antes, deixo meu ceticismo, incluso em Deus e portanto da Criação (partilho do evolucionismo darwinista), de confissão que antecede a citação. Ceticismo que, como se pode ver, não me impede de perceber a beleza e difundi-la, pois é também mérito dos céticos a tolerância:

"[...] porque o mundo, se bem é verdade que se há-de acabar, não se há-de desfazer primeiro que se acabe. Com todas suas forças e faculdades se há-de ir à sepultura, e até o fim permanecerá na própria ordem em que começou, convindo assim ao maior espanto dos vivos e mais admirável crédito da Omnipotência; porque tem proporção que, assim como Deus de nada fez tudo, de tudo faça nada; e, como o mundo nunca ascendeu por graus sucessivos à sua perfeição, não desça por outros tais à sua aniquilação. Porque, se o mundo fosse por graus sucessivos caducando em suas operações, fácil conseqüência e pequena maravilha viera a ser depois o fim dele. Além de que não faltara ignorância que presumisse fora também autor de si mesmo; mas obrar hoje o mundo como o primeiro dia de sua criação e acabar-se amanhã é mistério que inculca todos os espantos e encarecimentos."

Walter Andrade

31 de outubro de 2011

Notas Avulsas

Da série (não é ainda bem uma série, mas pode vir a ser, como o comercial do MacSalada) Notas Avulsas:

* Lamentável a reverência servil brasileira à Europa ou aos E.U.A, encontrada até mesmo em alguns acadêmicos em relação (de inferioridade) junto aos estudiosos europeus, considerados "mais eruditos" e de uma "cultura" um (dois, três?) passos adiante. É a velha ideia de civilização eurocêntrica, e o correspondente "pensamento colonizado" que gera. O fim da colônia não extirpou ainda a colonização das ideias, como a da economia, política, etc. Igualmente identificável num movimento que quer impor a escrita acadêmica em línguas como o inglês, e publicar no exterior, "para ser mais lido". Ora, se eu escrevo sobre Brasil ou Espanha, me interessa (ao menos "obrigatoriamente") publicar no Brasil, onde vivo, e/ou na Espanha, meu objeto de estudo. Se os americanos querem saber do Brasil, que aprendam o português! E ninguém reflete sobre o papel de dominação que uma língua veicula. É, ainda existe imperialismo, está démodé, mas ainda existe, no real...

* Aliás, ainda se encontra, especialmente na Filosofia, mas na área de História também, quem use termos como "insofismável", significando "não falsificável pelo discurso", o que só reproduz a visão pejorativa platônica (dogmática) acerca dos Sofistas, ligando-os ainda à ideia de "mercadorização do saber", quando estes tinham uma relação salutar com o Ceticismo. É mesmo a filosofia socrática o auge do pensamento livre? 

* Entra ano sai ano e a tabela do Brasileirão é construída em benefício do Corinthians, com jogos finais que não são clássicos estaduais, com a única exceção do Palmeiras, colocado ali pra "calar a boca" da crítica, mais do que nunca o bando de loucos tem assim um curingão!

* PM no campus da USP? Primeiro que "a Polícia Militar tinha que acabar", como bem disse o Capitão Nascimento no Tropa de Elite 2, pois guarda com zelo as arbitrariedades da época ditatorial. Seria preciso inventar uma nova polícia civil, que tivesse uma formação realmente cidadã. Segundo , ainda estão prendendo usuários de maconha? Isso não é contra a nova lei? Terceiro que tem gente que fale em colocar até o Exército para essas tarefas miúdas. Para uma corporação que comandou o país hein, que decadénce! Apesar de vocês... 

Walter Andrade

7 bilhões de pessoas num mundo sem Drummond

Os homens não melhoraram e matam-se como percevejos/
Os percevejos heroicos renascem/
Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado/ E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.


Esse é um trecho de "O sobrevivente", poesia que Carlos Drummond de Andrade publicou em 1930, no livro "Alguma poesia". É, não resta dúvida, curioso para nós que já em data tão recuada do século passado a sensação de saturação do mundo estivesse, para os mais sensíveis, evidente. Esse poema poderia ter sido escrito hoje, 31 de outubro de 2011, quando a ONU revela que o mundo está com sete bilhões de habitantes. Na época em que Drummond publicou seu poema, a população mundial era de, mais ou menos, dois bilhões. Dá vontade de construir um imenso reservatório de água potável (hoje mais difícil de encher do que antes) e garantir que meu filho, quando ele vier, não terá que beber a água do mar. O mundo está mais habitado e mais inóspito. Está, também, sem o poeta de Itabira, que faria aniversário hoje. Impressionante como, num mundo com sete bilhões de pessoas, uma em especial faça tanta falta!


Bruno Silva


(texto dedicado à saudosa professora Elenice, in memoriam)

24 de outubro de 2011

A morte de Kadafi e a questão: como se matar um ditador?

A humanidade tem umas coisas esquisitas. Por exemplo: existiu, durante muitos séculos, uma literatura voltada para as formas do bem-morrer. Ensinava-se a maneira mais adequada para se passar dessa para outra (melhor? pior? igual?). Na idade média, o ideal era morrer de forma lenta e até dolorosa, expiante. Hoje existe um sonho macabro: morrer subitamente, morrer enquanto dorme (o que duvido que seja possível, mas que, certamente, produziria a desconsertante sensação de "acordar morto"). Na idade média, ao contrário, seria signo de azar morrer dessa forma, pois qualquer um poderia ser tocado pela morte em momentos de pecado, além de não sobrar tempo para o arrependimento, a última confissão, etc.
Nos últimos tempos a história ganhou um novo capítulo: como se deve matar um ditador ou terrorista (ou os dois ao mesmo tempo)? Adolf Hitler sumiu do mapa, deixando apenas o contestável vestígio de seus dentes.  O Sadam Hussein foi enforcado, de barba e tudo, gerando desconforto e embrulho de estômago. O Osama jaz insepulto no mar, não houve espetáculo de seu corpo, oque gerou desconfiança e teorias conspiratórias. O Kadafi, segundo indícios, foi torturado pelos responsáveis por sua captura. Além disso, ficou exposto, gerou memória visual, sentimentos de horror por parte de uns e de admiração por parte de outros. Agora há toda uma discussão internacional para se saber se houve crime de tortura, violação de direitos humanos, etc... A conclusão que se tira disso tudo? É que a morte perturba, causa espanto, escandaliza. A morte de quem amamos, a morte de quem não sabemos, a morte dos que nos matam. Heróis ou criminosos, todos tem a sua morte. Sinistra herança. Não se sabe como se deve matar um ditador, mas eles estão aí, morrendo de todas as formas, aumentando o repertório.

Bruno Silva

13 de outubro de 2011

Poesia diagnóstica

Já fui muito ingênuo. Acreditava que eu era um poeta, e que os poetas morriam sempre do coração. Ficava com um caderninho tosco e uma caneta na mão, anotando aquelas coisas que me vinham na cabeça e que eu supunha serem dádivas de Érato. Depois abandonei o caderno, mais ou menos na mesma época em que os homens desaprenderam a escrever à mão. E quando a tristeza sobrevinha, eu a afogava em lágrimas de lúpulo, cevada ou malte. Nunca mais caderno.
Na semana passada adoeci um pouco: fortes dores, distensões no abdômen, dificuldades de locomoção. Várias idas ao posto de saúde, veias tricotadas, exames... descobri uma pequena alteração no fígado. Destino de Prometeu.
Talvez precise voltar para o caderno.

Bruno Silva

1 de outubro de 2011

Eu Vou ao Rock In Rio?

 
O Rock in Rio - quando há rock ou ritmos adjacentes, ou mesmo o pop bem feito - têm sido até aqui melhor que eu esperava (eu e mais muitos pelo que tenho percebido). Algumas pessoas, como eu, que não estavam nem aí pro evento têm se sentido "caramba, será que não vou nenhum dia?".

O Palco Sunset roubou a cena do Palco Mundo, com Joss Stone, Janelle Monae (que é o espetáculo em si, pois é uma performista), Angra + Tarja, Sepultura com a percussão do Tambours du Bronx, Nação Zumbi com Tulipa Ruiz, enfim, misturas bem pensadas e praticadas, de gente que está no evento por amor à música e ao experimentalismo que herda de festivais como Woodstock. No Palco Mundo há obscenidades (de obs-cena, aquilo que deveria não aparecer!), como NX Zero (hemácia!) e Gloria, uma bandinha emocore! no dia do Metal; Claudia Leitte (a apresentadora do Multishow "justificou-a" dizendo que ela entrou "linda, gostosa, um arraso", então bastava colocar uma top model... estamos falando de música ora essa), Ivete Sangalo... que estão tentando enfiar goela abaixo como "unanimidade", inventar uma diva, diva do axé/MPB... Preciso contrariar a mediocracia, que com seus "jornalistas", preterindo Shakira por Ivete, mal disfarçam o eurocentrismo/americanismo (E.U.A)/nacionalismo brasileiro, que não vê a cultura da América Latina (será que a enxerga de verdade?), não dá o devido valor a uma Shakira (que além da boa música é amiga do Gabo!) e que é queridíssima nos E.U.A e na mesmíssima Europa...

E pra você que achou inflexível o que eu disse: Você á a favor de Metallica na Micareta?!

Outra coisa que queria falar é do slogan "Eu vou sem drogas ao Rock in Rio". Apreciei muito o Capital Inicial (vejam vocês!), quando lançou um balão escrito "Operação Lei Seca: Cala a Boca" (poderíamos discutir melhor o assunto, mas não nesse post), e o Marcelo D2 que tocou músicas do Planet Hemp (da época que ele ainda fazia algo de bom). Assim fica meu desprezo a um Emicida, por exemplo, que parece achar necessário justificar a música que faz pela droga que não usa.

Nossa sociedade está entrando numa de "drogas zero", e isso até mesmo quanto às legalizadas, como o cigarro, a bebida, com impostos altíssimos. É perigoso entrarmos nessa lógica funcionalista onde tudo é coerente, eficaz, 100 % saúde e bem-estar... é um mito que se cria da vida completamente saudável, uma obsessão, a medicalização e normalização da existência. Ora, o "normal não é mais que uma média aritmética" (ou uma "médica aritmética", como ia saindo segundo meu lapso), como já observou Georges Canguilhem em O Normal e o Patológico. E eu ainda evoco os mesmos "normais", os surrealistas, os psicanalistas e os demais artistas, aqueles que sabem da importância e necessidade da fuga, do relaxamento da realidade (ou a passagem a uma hiperrealidade), e mesmo a ligação indissociável entre drogas e arte, ao longo dos séculos. O perigo é vivermos numa sociedade tecnocrática, eficiente, onde não há espaço para a fantasia, o sonho, as experiências, onde se encontram trancadas as Portas da Percepção...  

Ah! Ainda estou em busca de ingressos pro dia do Guns N'Roses, uma das bandas-símbolo do Sexo, Drogas e Rock N'Roll...

Walter Andrade

Ps: O negrito é sinal de correção/adição feita ao post original . A propósito, fui à Cidade do Rock, ia assistir do lado de fora, mas uma confusão dos demais com a polícia (além do ingresso inflacionadíssimo) me fez retornar e ver o GNR em casa. ¬¬ (mas nem tão frustrado assim...).

29 de setembro de 2011

Brasil versus Argentina; os dois versus o gramado ruim

O jogo entre Brasil e Argentina revelou algumas coisas e reiterou outras tantas. Primeiro: boa parte do que temos de bom no futebol nacional deixa de ser aproveitada. É preciso que seja obrigado por regulamento para que a seleção dê espaço aos que estão jogando muito nos seus times: Borges, Cortês, Jeferson, Lucas (na titularidade), Diego Souza e outros mais. Sem a pressão maciça dos empresários, a coisa até que funciona melhor! Segundo: o comentarista Casa Grande tem cujones para falar o que pensa e não se esconde atrás do cada vez mais lamentável Galvão Bueno. Terceiro: a continuar assim, a seleção vai ter que convocar atletas do futebol de praia, pois o gramado era areia pura. Por fim, o Neymar precisa começar a escutar as gravações das transmissões em que o Casa Grande comenta, e o Ronaldinho joga demais! É preciso comentar, também, a força que a torcida demonstrou, fazendo festa a todo instante!

Bruno Silva.

21 de setembro de 2011

O advento da Primavera

"A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la...
Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.
Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul..."  Este é um trecho de Primavera, de 
Cecília Meireles. O texto inteiro é muito lindo e longe de mim ficar passando sua precisão em revista: não se trata de um artigo acadêmico sobre a primavera (até porque, se fosse, eu jamais teria lido!). Não posso deixar de notar, contudo, que as mudanças em torno da primavera são menos metafísicas do que climáticas, muito embora essas mudanças tenham o dedo de monóxido de carbono dos homens. Não que as pessoas não saibam mais o seu (da primavera) nome; elas não sabem, isso sim, para que existe. O Rio, pelo menos, costumava ter duas estações apenas: verão e inverno. Elas continuam a existir, mas parecem estar mais misturadas. Primavera? No máximo como estado de espírito. Quanto aos passarinhos, não falta muito para que, em pleno vôo, sejam assados pelo calor e já caiam prontos para serem comidos. Não seria a primeira vez que aconteceria na história a comida cair do céu...


Bruno Silva

1 de setembro de 2011

Tristeza de livraria

Tenho uma tristeza profunda de entrar em livrarias. Os livros que não li (jamais lerei) me lançam para baixo, numa série de angústias que se cruzam e me recolocam em choque com as condições a que estou submetido. Não há dinheiro para tantas obras, nem tempo para tanta leitura. Sinceramente, talvez nem mesmo necessidade. Um Pessoa já disse: "Ler é maçada,/estudar é nada./O sol doira sem literatura./O rio corre bem ou mal,/Sem edição original". Drummond também: "A literatura estragou tuas melhores horas de amor".
É a pobreza do bolso, é a pobreza da duração. O dinheiro não resolveria: são muitos livros, não há tempo. A eternidade, se alguém merecesse tanta complacência ou castigo, também não: são muitos livros, não há porquê. 
O mandamento popular: escreva um livro, faça um filho e plante uma árvore (que outro livro destruirá!). O conselho pessoal: faça dois filhos, ou plante duas árvores, entre as quais você poderá estender uma rede e se deixar balançar por horas a fio. Talvez com um livro na mão...

Bruno Silva

22 de agosto de 2011

A Ideológica Caridade de um Criança Esperança...

Aproveitando o ensejo de uma crítica feita por um amigo (Dian) à dedução fiscal de que a Globo se utiliza com o "Criança Esperança", preferi publicar aqui o comentário que postaria no facebook (que estava se estendendo demais pra uma rede social... rs).

Interessante que os anos passem e os valores de doação aumentem (inclusive o mínimo, este ano R$7, e os demais R$20 e R$40), índice do crescimento do salário ou da inflação/desvalorização da moeda, ou ainda da ambição e necessidades globistas?

A caridade dos grandes sempre foi compensação (mínima) da desigualdade social, com o intuito de manter o status quo sob o alarde de uma solidariedade social das elites, meio durkheimiana, um modo de diminuir as tensões e os conflitos sociais, de classe (é, ninguém mais fala, mas não é por esse pudor ou olvido que elas não existem, né Prof. Rômulo!?), "pacificando" a sociedade. Que um bom número acredite verdadeiramente na caridade advém talvez do catolicismo (ainda e talvez daqui a pouco não mais) dominante e, concedo, da bondade de coração que uns e outros possam ter (alguém há de ter isso!). Eu, contraditório como todo ser humano o é, digo que sou um "humanista à distância", que não aprecia muito o contato social, nem sou um otimista antropológico...

Mas que as pessoas não se enganem (e muitos me parecem estar contidos na frase "Eu quase que nada sei mas desconfio de muita coisa..."), não esqueçam do óbvio: São Gonçalo continua miserável, o Fome Zero fracassou, e Capitalismo Solidário é, em boa e velha lógica, uma contradição em termos, em termos uma TV que chama os jovens desempregados europeus de "criminosos", "marginais", e que quer salvar as crianças brasileiras...

Mas são tudo exemplos, não se trata de uma conspiração, mas de uma estrutura social (o tal "sistema"). Se existe comida no mundo suficiente para alimentar a todos, porque o homem, que segundo filosofias (já) comuns é racional, não divide em justiça os produtos da natureza e do seu trabalho? É que a maior parte do tempo ele é uma besta. Que não venham achar que eu acredito na felicidade do homem! Num mundo sem fome continuariam a existir crimes passionais, tragédias sem conta, mesquinharias... Porém ninguém deixaria de ter a dignidade mínima das condições básicas de sobrevivência, com um programa habitacional realmente revolucionário, bom sistema de saúde, educação etc.

Apenas aqui do ponto de vista econômico - já que eu não defendo a "ditadura do proletariado", o comunismo soviético; socialismo sem liberdade é outro tipo de escravidão... mas, do ponto de vista econômico, a União Soviética em menos de 50 anos saiu da terra feudal ao espaço sideral! (o foguete que explodiu foi da NASA...). Só um exemplo do quanto se pode fazer com uma economia planificada, socialista.

Walter Andrade

19 de agosto de 2011

''O tempo é o vento'': da condição humana, parte II

Mais do que medir e projetar, os relógios e calendários procuram reter o tempo em sua tragetória irregular. Muitos dizem, todos percebem: o tempo anda cada vez mais rápido.
Atravessando o Rio de ônibus - nunca a nado -, por vezes tenho a certeza de que não conseguirei cumprir o cronograma que, para minha tristeza e miséria, eu mesmo ajudei a estabelecer, por iniciativa (raras vezes) ou omissão.
O relógio de pulso eu já abandonei, tantas foram as vezes em que insistiu em fazer a coisa certa: parava de quando em quando. Eu é que nunca aprendi; eu e os de minha espécie. Não conseguimos deixar de ser, nem deixar de passar: não podemos ser para sempre (oxalá!, talvez...).
''Vai tudo a cem por hora!'': expressão hoje desatualizada, pois quem vai a cem atrasa o trânsito da vida, para o qual não foi projetada via alternativa.
O bom de tudo isso? O inferno pode não durar para sempre. O mal? O paraíso também não.


Bruno Silva

16 de agosto de 2011

Sobre Animalidade, Cultura Humana e Arte

 Voltando a "Sobre Herois e Tumbas", do escritor argentino Ernesto Sábato (tinha parado a leitura faltando umas 40 páginas e a retomei agora), não resisti a postar um trecho transcendental da obra, e que ademais dialoga com o post sobre "a lição do sabiá" e com o próprio fato de escrevermos - os autores do blog - contos. Vale a pena a leitura das penas humanas que segue...

"E naquele reduto solitário me punha a escrever contos. Agora noto que escrevia cada vez que estava infeliz, que me sentia só ou desajustado no mundo em que me coubera nascer. E me pergunto se não será sempre assim, que a arte de nosso tempo, essa arte tensa e desgarrada, nasça invariavelmente de nosso desajuste, de nossa ansiedade e de nosso descontentamento. Uma espécie de tentativa de reconciliação com o universo dessa raça de frágeis, inquietas e anelantes criaturas que são os seres humanos. Posto que os animais dela não necessitam: basta-lhes viver. Pois sua existência desliza harmoniosamente ao sabor das necessidades atávicas. E ao pássaro bastam algumas sementinhas ou insetos, uma árvore onde construir seu ninho, grandes espaços para voar; e sua vida transcorre desde seu nascimento até sua morte em um venturoso ritmo que não é perturbado jamais nem pelo desespero metafísico, nem pela loucura. Ao passo que o homem, ao levantar-se sobre as duas patas traseiras e ao converter em machado a primeira pedra afiada, instituiu as bases de sua grandeza mas também as origens de sua angústia; pois com suas mãos e com os instrumentos feitos com suas mãos iria erigir essa construção tão poderosa e estranha que se chama cultura e iria assim começar seu extravio, já que deixou de ser um simples animal, mas não chegou a ser o deus que seu espírito lhe sugere. Será esse ser dual e desgraçado que se move e vive entre a terra dos animais e o céu de seus deuses, que perdeu o paraíso terrestre de sua inocência e não ganhou o paraíso celeste de sua redenção. Esse ser dolorido e enfermo do espírito que se perguntará, pela primeira vez, sobre o porquê de sua existência. E assim as mãos, e depois aquele machado, aquele fogo, e depois a ciência e a técnica irão cavando cada dia mais o abismo que o separa de sua raça originária e de sua felicidade zoológica. E a cidade será finalmente a última etapa de sua louca carreira, a expressão máxima de seu orgulho e a máxima forma de sua alienação. E então seres descontentes, um pouco cegos e um pouco enlouquecidos, tentam recuperar às apalpadelas aquela harmonia perdida com o mistério e o sangue, pintando ou escrevendo uma realidade distinta da que infelizmente os rodeia, uma realidade amiúde de aparência fantástica e dementada, mas que, coisa curiosa, vem a ser finalmente mais profunda e verdadeira que a cotidiana. E assim, sonhando um pouco por todos, esses seres frágeis conseguem erguer-se sobre sua desventura individual e se convertem em intérpretes e até salvadores (dolorosos) do destino coletivo. Mas minha infelicidade foi sempre dupla, porque minha debilidade, meu espírito contemplativo, minha indecisão, minha abulia, me impediram sempre de alcançar essa nova ordem, esse novo cosmos que é a obra de arte; e acabei sempre por cair dos andaimes daquela anelada construção que me salvaria. E ao cair, machucado e duplamente entristecido, acudi em busca dos simples seres humanos".

Walter Andrade

14 de agosto de 2011

Um Contraponto ao Discurso Global em plena Globo (G1)!

 

Contra o ponto de vista "imparcial" da Rede Globo, que vem tratando dos protestos de rua em Londres e outras cidades inglesas como simples "anarquia", "crime" e "violência" gratuitas, é que compartilhamos este vídeo. Vejam que a todo momento os jornalistas do G1 tentam fazer que o sociólogo Silvio Caccia Bava subscreva a versão global para os acontecimentos britânicos, no que é, sem irritações manifestas, continuamente obliterada pelo estudioso. Nesse post, portanto, apenas ecoaremos e reproduziremos a fala do pesquisador. Sinalizamos, assim, como o neoliberalismo corta as conquistas sociais dos jovens europeus em momentos de crise, como o que está em jogo lá (como aqui e em todo o mundo) é a disputa entre um modelo de Estado de bem-estar social (com socialização das oportunidades de melhores condições de vida, estudo, trabalho...) e um modelo neoliberal que tudo quer privar-nos por privatizar-nos e a tudo o mais, favorecendo ao lucro de uma percentagem irrisória da humanidade os recursos naturais e o trabalho de bilhões de pessoas, o que se chama, em Economia, "mais-valia" ou "apropriação do trabalho pelo capital".

Walter Andrade

9 de agosto de 2011

A lição da Sabiá

Por ocasião dos preparativos do "Arraiá Medinense" tive oportunidade de me favorecer da hospitalidade dos Medina em Piraí. Sem muito o que fazer no mais do dia, e sem muitos com quem conversar até a noite de sexta feira, estive vagando pela graciosa propriedade da família: flora magnífica, rio cortando o sítio e uma infinidade de aves. De repente, a ideia: "e se eu colocasse a música Black Bird, dos Beatles!? Ficaria ainda melhor, enriquecida pelos cantos dessas aves!". Como sempre, a uma ideia idiota sempre corresponde outra: "Será que o canto do Melro, que é usado na gravação da música, despertará a atenção dessas aves despreocupadas daqui?" Coloca-se a música, o comportamento dos bichinhos não revela nenhuma modificação... a música, esta sim, ficou melhor. Já satisfeito com o sucesso da primeira missão, sou surpreendido pela aproximação de uma sabiá (ou um sabiá, que as duas formas são utilizadas pela sabedoria popular, vide a música "Sabiá" do Tom Jobim). O bichinho me fita profundamente, encaro-o com expectativa: "vai responder ao canto, ou, e nada é impossível, talvez me dirija alguma palavra de conforto passarinhesco!" O bichinho chega ainda mais perto, cerra os olhinhos: "é agora!", penso eu. Palavra nenhuma:  a sabiá faz seu cocô e levanta vôo. E esse é o melhor ensinamento que se podia dar a alguém.

Bruno Silva