14 de agosto de 2013

Meu evangelho particular





The promised child
Shines in a baby's eyes
All nations sing 
Let's harmonize all around the world
(Michael Jackson - History)


Evangelho, sabe-o até o mais empedernido rival do cristianismo, significa "Boas-novas": narrativas religiosas que dão notícias do advento de Jesus para a salvação da humanidade. Outra característica do Evangelho diz respeito às diversas profecias anunciadoras do messias.
No meu evangelho particular eu falo da vinda de uma outra criança (sem estrela, presentes e reis magos), sem escritos anteriores que nos antecipassem sua chegada redentora: minha filha Marina!
"E sucedeu por aqueles dias que, tendo percorrido quanto alfarrábio conhecesse, nada pode encontrar que lhe dissesse claramente, ou mesmo insinuasse, a chegada da criança que mudaria para sempre e para melhor a sua vida, bem como a de sua esposa. Foi no inverno de 2013. Para seu pai, pessimista contumaz, ela veio trazendo a nova verdade da existência: você tem sorte e tudo vai dar certo.O começo desse aprendizado foi um choro compartido: o de Marina, marcando sua própria vinda à luz; o de seu pai, um pranto de felicidade, alívio e recomeço. Outra vez haveriam de chorar juntos, numa sala de clínica. Marina veio para ensinar o novo conhecimento necessário; como contar de um a cinco dedos... quatro vezes; como se manter acordado, noite após noite, decifrando sons recém-nascidos, trocando o sono de um pelo de outro.
Todas essas coisas lhes são relatadas para que creiam que um homem pode, sim, nascer de novo.  E todos quantos a virem saberão que essas são palavras verdadeiras. Amém."

Bruno Silva

24 de julho de 2013

A Poesia devassa a Política

Há uma Violência Normal
Monopólio Legítimo Estatal,
é Natural a Pena Capital aos deserdados do mundo,
As fichas de Delinquência "juvenil" que tombam (Amarildos?) no chão
do Purismo da Vida como Imaculada Duração

Armas Químicas encenam uma guerra duplamente biológica
Lacrimogêneos, Bombas de Efeito mais-que-moral, Spray de Pimenta
nos olhos alheios como Refresco.

GUERRA CIVIL
PACIFISMO gera MILITARISMO...


[Ah!] Só o Amor (à Mammon) Constroi!
Obrigado pela Solidariedade (aos Ricos & Segurados)

Brindemos ao Socialismo das Classes Meio-Altas!


(Nas seguintes noites gélidas os mendigos do Leblon agradeceriam a um
Deus Silencioso a Moda Outono-Inverno da Empresa Saqueada, parecendo-lhes
Providencial a Frente Fria tardia em Julho)


Espionagem interna, inimigo à paisana, Sabá de Estados Policiarescos
Decretos inconstitucionais de aprendizes histéricos de ditadores nostálgicos
Comissões de inquirição de pequenos delitos incitados para salvar o Mal Maior...
Mídia monopolista que entrevista desinformantes,
manuseada proto-oficialmente por editores-chefe imparciais na defesa do status quo...




E assim, por meio dos meios da disparidade,
se reproduz incessante o Milagre da NORMANIMALIDADE.



Walter Andrade

21 de julho de 2013

Poema Gullar





Encho um copo com Whisky de Morais
Atiro-me no sofá Drummond de minha sala ampla:
Eu vou escrever um poema Gullar

Procuro, em minha Bandeira infância
Algum fragmento de Pessoa
Uma Quintana de inspiração qualquer

Nada vem, de abstrato ou concreto
Nada vem
Nada v
Em
N
A
D
A
Nada



















Reverbera, no fundo de meus ouvidos, 
Aquela sonoridade Jobim
Se nada funciona por aqui
Pego hoje mesmo um avião
E mudo-me para  Hollanda


Bruno Silva

19 de junho de 2013

Fora do campo, no meio das ruas



Entre o Redentor e a Igreja da Penha iluminada
Chego na Ilha do Governador
Como a avenida Brasil é grande, meu Deus!
Estou entre dois símbolos piedosos
E meus iguais, a esta hora, marcham nas ruas
Há um rio de refresco correndo pelo país:
Pimenta nos olhos
"Em meio a tantos gases lacrimogênios..."
Penso na multidão anônima dos que, de joelhos, subiram os degraus da ermida
Eis que, agora, outros sobem de pé a escadaria da Alerj,
O Congresso Nacional,
E tantos outros lugares aos quais, de ônibus, jamais alcançaríamos.

Bruno Silva



13 de junho de 2013

Na pista contra o negócio



Vândalos era o nome de um povo germano que por ter invadido o Império Romano (como outros tantos povos germanos à época) tornou-se termo pejorativo (somos herdeiros da cultura greco-romana né). Mas ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão (afinal os territórios romanos eram conquistados à outros povos também...). E é no fundo linguístico e além dele que essa romanidade receia ter seu domínio contestado pela "plebe" nas ruas brasileiras (o Rio já foi chamado de A Nova Roma séculos atrás).

O vândalo agora é inimigo interno (?). Intifada nas ruas contra a ação repressora policial e reclama-se que os "manifestantes não respeitaram o patrimônio histórico", ora, querem que "gases lacrimogêneos fiquem calmos..." fora da canção! (que nem são estritamente armas não-letais, como spray de pimenta também não...), no meio da fumaça, do medo, da correria: "Por favor: mirem bem! olha a Igreja aí...". Eu, que sempre fui meio iconoclasta, considero essa proliferação de lugares de memória, de tombamento de patrimônios históricos (para que nunca tombem!) um excesso memorial que tende a fixar a ideia de conservação de tal modo que as pessoas se sintam museólogas em tudo. E o receio dos governos, da mídia, das classes altas, é de que o povo brasileiro, sempre historicamente demasiado pacífico, ordeiro, quieto...acorde de vez, deponha-os de seus lugares cativos, de sua corrupção, tirem-nos de baixo do tapete vermelho dos gabinetes onipotentes, excluídos de suas dignidades ímpares e (logo) hierárquicas. Manifestação na Turquia tudo bem, no Egito que lindo, mas no Brasil? "Arruaceiros, vândalos!".

Saiu no O Globo (!) que 37 milhões de brasileiros não têm dinheiro para o transporte público [atentem mil vezes a esta palavra]. Depois no noticiário noturno (onde não reproduzem esta matéria...) fala-se que as manifestações impedem o "direito de ir e vir". Ora, as manifestações são justamente pelo direito de ir e vir (e de se manifestar indo e vindo)!. Estamos falando de um (des)serviço prestado à população por um cartel de empresas (nalguns casos de empreiteiras, como das Barcas S.A!), caríssimo (com aumentos regulares e bem acima da inflação), com poucos coletivos na madrugada, com o ônibus que passa direto e te deixa na pista.

E na pista ficaremos, mas não mais esbravejando sozinhos como o Muttley (o cachorro do Dick Vigarista, lembram-se?), porém em comunhão, afinal, como greco-romanos que afinal somos, sabemos que o homem é um animal social, político, ritual, que ri...mas que também reage.

Walter Andrade

9 de junho de 2013

Falecido conto do vigário, conto do Vigário falecido, sei lá...

Foto tirada no São João Batista. Cristo Redentor ao fundo. 
Morar na área nobre do Rio não é nada barato, como já sabemos. Ter o direito de dividir espaço com as amendoeiras, na Zona Sul,não é para qualquer mortal. Nada de surpreendente nisso. Agora, fui tomar conhecimento de que a vizinhança com as raízes do gramado também não é para qualquer defunto: o preço de um jazigo perpétuo no São João Batista - em Botafogo -pode chegar à vultuosa quantia de 300 mil reais!
Assustou? Então imagina isso: seus ossos descansando aristocraticamente no cemitério carioca e, de repente, não mais que de repente, para citar Vinícius de Moraes (que aliás jaz no São João Batista, assim como Tom Jobim, Drummond e tantos outros), sendo exumados sem autorização da família, indo parar sabe-se lá em qual cemitério! Foi o golpe de que tomei conhecimento assistindo ao noticiário da Record: um corretor que vendia o mesmo jazigo para várias pessoas; isto sem a autorização legítima dos antigos proprietários, num esquema de exumação fraudulenta.
 É o velho golpe do conto do Vigário, com o requinte macabro de estar associado à venda de tumbas! Nunca foi tão difícil viver, morrer e continuar morto aqui na boa sociedade carioca!

Para quem quiser ver a reportagem: http://noticias.r7.com/jornal-da-record/videos/edicao/?idmedia=51afdf860cf26f34e0263af5

Bruno Silva

16 de maio de 2013

Desculpe incomodar sua viagem

O sujeito entra no ônibus e permanece de pé, fitando os passageiros. Depois de uma breve pausa, começa a falar:
- Boa tarde, senhores passageiros! Desculpe incomodar o sossego da sua viagem. Eu sou ex-presidiário, paguei meu débito com a sociedade e estou aqui para saber se algum dos senhores pode me abençoar com uma oportunidade. Muitas vezes o ex-presidiário volta a cometer crimes, a roubar, porque a sociedade não lhe dá outra oportunidade. Eu estou aqui para pedir esta oportunidade para os senhores. Quem puder estar me abençoando com qualquer quantia, que Deus o abençoe. Aqueles que não tiverem como ajudar, que Deus abençoe também. Esse dinheiro, senhores passageiros, será para comprar balas e doces para vender nos ônibus, podendo, assim, levar o sustento para minha família sem precisar voltar ao mundo do crime. Eu nunca mais quero roubar! Obrigado senhores passageiros!
O sujeito começa a percorrer o corredor do ônibus. Alguns passageiros fingem estar dormindo (que é a maneira que muitos encontram para escapar a essas e outras situações cotidianas nos ônibus -sobretudo para não ceder o assento a quem de direito!), outros fixam o olhar pela janela. Alguns entregam moedas.
O sujeito recolhe tudo, agradecido, e põe-se novamente de pé, de costas para o motorista. Ele conta o montante e desabafa:
-Dez reais e quarenta e cinco centavos!... senhores passageiros, a passagem custa dois e setenta e cinco. Vai me sobrar sete reais e pouco! Deus e os senhores são testemunhas de que estou aqui me humilhando para conseguir o meu sustento, mas muitos de vocês endurecem o coração quando veem alguém necessitando de ajuda. Peço desculpas aos que contribuíram, mas eu agora vou assaltá-los! Não quiseram me dar, então eu tomo! 
O sujeito saca um revólver da cintura enquanto anuncia o roubo. Ele recolhe o dinheiro de todos, os celulares, relógios, jóias e até alianças de casamento! Ao final, informa que aquilo foi provocado por eles mesmos, que não souberam ser generosos. Manda o motorista abrir a porta e, para surpresa geral, paga a passagem antes de descer.
Os passageiros, atônitos, custam a acreditar que aquilo lhes sucedeu. O irreal do acontecimento parece informar que tudo se trata de um pesadelo coletivo, do qual acordarão antes do ponto final. Mas nós sabemos que isso não acontecerá. Eles continuarão dormindo. Todos continuaremos a dormir. Estamos no país do sono. Até quando?

Bruno Silva

7 de maio de 2013

As Guerras das Coreias

É isto a animalização do homem, parece gado abatido. Eu não gozo com isso...


A preocupação das últimas semanas com a possibilidade de uma guerra nuclear (finalmente, diriam os de humor negríssimo!) entre a Coreia do Norte e os E.U.A cedeu lugar na semana em que vivenciamos à descoberta da geopolítica na Coreia do Oeste. É, fica ali, no Extremo-Oriente, próximo a Bangu. Só que o caso não abalou só Bangu, mas a opinião pública carioca como um todo. As pessoas em sua maioria estão indignadas! E com a Globo, vejam vocês, só que pelo motivo errado (ou desumano). Muito me intriga as (des)razões escusas da emissora ao transmitir tais imagens, aliado a um frenesi da violência real mas que, com aquela câmera térmica, mais parece uma sorte de GTA: Rio. Gerações viciadas em videogame, filmes violentos e lutas de boxe (e agora de UFC) parecem não entender que aí se trata de ficção ou violência controlada por regras e um juiz mais foda que os oponentes muitas vezes. É de perguntar se essa cultura da imagem desrealizou esse pessoal, que ficaram imersos num mundo fantástico onde não se precisa crer em eternidade da alma pois a salvação dos corpos se encontra a um clique de restart (sem salpicar a tela de sangue real, sem a dor da morte, cadáveres em decomposição com odor fétido, sem ter a vida real interrompida por uma bala perdida). Essa é a visão da classe média, mediana, midiática, medíocre, sobre a realidade.


Naquelas brincadeiras matemáticas em que se falava da morte de milhares de chineses, cambojanos, vietnamitas...poucos conseguiam evitar o riso sádico de que não fazia diferença (são bilhões afinal!) que mal escondia uma implícita hierarquia na ordem das vidas humanas. E hoje a vida de um coreano nunca valeu tão pouco!

Walter Andrade

16 de abril de 2013

Maioridade penal no Brasil?

Maioridade penal no Brasil é questão para debates acalorados. Toque no assunto quando estiver em uma mesa de bar com seus amigos e lá se vai a noite por água abaixo! Periga até sair briga no boteco, com polícia convocada e todo mundo indo parar na cadeia (pense bem: um bando de marmanjos em plena maioridade penal trocando tapas quando os argumentos já não bastam).
Existem algumas formas distintas e talvez complementares de se enxergar o problema. Em primeiro lugar: o que fez e continua fazendo com que a juventude ponha uma pistola (real ou de brinquedo) na mão e saia para o ganho nas ruas? Em algum momento, parece, alguém não cumpriu seu papel (pais, Estado, etc.). Podemos nos perguntar o porquê dessa omissão, e o texto não acabaria mais. Peço vênia para deixar esta questão para ser resolvida em momento apropriado. Encarar o problema dessa forma pode parecer ideológico, demonizador do Estado e vitimizador do delinquente. É aquela velha história: "conheço uma pessoa que catava latinhas e hoje é empresário", "pessoas de bem sempre encontram uma maneira honesta de ganhar a vida", etc. Afastemo-nos desta discussão, tomemos um gole e pensemos no concreto da situação. Assim, chegamos a uma segunda forma de se abordar o problema: deixando de lado a "querela da culpa", podemos analisar mais de perto a proposta de "solução do problema". O sistema prisional no Brasil (e no mundo) reúne as características desejadas para fornecer uma solução definitiva? O que há de terapêutico em se deixar um ser humano trancado num ambiente de falência da moral e dignidade por, digamos, 12 anos? Antes, portanto, de se decidir com quantos anos mandar alguém para a prisão, pensemos na própria prisão em si: funciona, corrige, "reabilita"? Vigiar e punir é um livro que ajuda a pensar na questão. Não adianta assistir ao Tropa de Elite, porque as conclusões lá apresentadas sobre Foucault, sinceramente, até me dão vontade de pedir pra sair!

Bruno Silva

8 de abril de 2013

Nonsense com 40 anos de Dark Side

Storm Thorgerson (Storm Studios)(c) Pink Floyd (1987) Ltd/Pink Floyd Music Ltd.
O histórico álbum Dark Side of The Moon completou recentemente 40 anos.

De 24 de março 1973 até hoje foram vendidas mais de 50 milhões de cópias do disco,
que trata das loucuras modernas, como o tempo, dinheiro, esquizofrenia, vida e morte.
E o triângulo simboliza a ambição e o pensamento.

 


O branco assusta. E a despeito da (cons)ciência de sua cobertura das cores outras. Do prisma floydiano. Mas o branco, se absorve, também oprime. Se é folha para a escrita, afugenta-a. Lugar para a inscrição da memória? amnésia. Traz-nos a sensação própria do vazio, que se transporta ou vincula ao nosso e do mundo, criando ligações angustiantes. Até que se a preencha com o possível, é o provável que sofre, o potencial que não se atualiza, o brilhantismo que queda na promessa. O branco, sinônimo do puro, limpo e imaculado, é, por força disto, superfície sujável por excelência, é o preto no branco. No fim das contas (ou das metáforas!) é a nota preta que vale, se bem que no fim só vale o crido, e mesmo sem tê-lo visto.

Estranho que do ponto de vista das cores seja o branco que simbolize o racismo! Ainda mais que os "brancos" mais com a cor dos botos se parecem... óh, onde sonham as formigas verdes?

Ou, como diria Humberto Gessinger...

"Nem todo nonsense faz sentido
 Nem todo sentido faz falta
 Nem toda falta de sentido é sentida"

Ou como uma segunda voz dos soldados respondendo à do comandante militar

"Não faz...SENTIDO!"                        

Talvez nem este post...



Walter Andrade

21 de fevereiro de 2013

Fevereiros idos

Sempre que chovia em fevereiro parecia que a natureza ofertava um imerecido carinho. De tanto sol, que também não se merecia, vinha um riachinho de pé abençoar os bichos e as plantas. Chovendinho. Naquele não choveu, não. Era o sol, como uma rodela de abacaxi sobre o triste povo nosso. O caminho de barro malsão, dava o tempo de empapar os corpos, de grudar as vestes e, de repente, lufada de poeira. Era uma raiva e uma tristeza, tudo junto. Triste travessia nos fevereiros idos! Chuva não dava sinal, e quando viesse era mais para desespero e desalojo.
Tinha urubuzal no alto, devia de ser res morta. Não era. Cheiro paposo, daqueles que os lixos e os mortos dão, depois de envelhecidos. Eram os idos de fevereiros. Tempo melhor há de vir, sem dar aviso. Aí vai ser uma fartura de chuva prazenteira, muito bem-te-vi de dia e noturnos grilos. Esses dias chegarão? Gregas calendas...

Bruno Silva

30 de janeiro de 2013

Manhã londrina

Manhã londrina.
É janeiro no trópico, mas nada informa.
Cai uma chuva temporã, e o ramo de trepadeiras, do muro, sorri seu verde.
Engraçado que jamais fui à Inglaterra.
Perambulo pelo aeroporto, e é pena que o trajeto de meus passos não conte para o programa de milhas!
Manhã londrina.
O mundo só tem quarenta dias, mas há tanto construído!
O governo quer mais, e já não há espaço.
Vai o governo, com seus tratores de borracha, apaga o que havia e reinventa por cima.
Nem tudo fica bom.
O Maracanã, dizem os saudosistas, deixou de ser (além da Inglaterra, nunca fui ao Maracanã).
A borracha, insaciável, procura mais para borrar!
Mas hoje, nessa manhã londrina, acordei confuso e sem cabeça para esses assuntos pesados, de concreto e memória.
Quero apenas registar isto: tivemos um janeiro atípico, acordei me sentindo um britânico sem chá nem rainha.
Fevereiro já está na porta, a nos lembrar que é Brasil.
Chega, outono!

Bruno Silva

24 de janeiro de 2013

O homem do futuro e o jabuti do passado

O The Sun, jornal britânico, publicou uma matéria sobre como será o homem de 3012. Em mil anos teremos menos cérebro, seremos mais altos e teremos dedos mais longos, olhos maiores, bocas menores... Já não bastavam as previsões apocalípticas para o futuro do planeta; agora os cientistas nos mostram como seremos em mil anos. Acho melhor nos preocuparmos em como faremos esse planeta e os seus destruidores (nós) durarmos tanto tempo! Se não houver saída mais razoável, vou me mudar para dentro de uma caixa de som velha e viver, pelo menos, mais trinta anos, tal como o jabuti da zona oeste. Para quem ainda não sabe, a Manuela, um jabuti (talvez ficasse mais correto escrever jabota, que é a fêmea da espécie) que havia sumido há 30 anos, foi encontrada recentemente dentro de uma caixa de som. Depois que o antigo proprietário da caixa esticou o pernil, o jabuti já ia para o lixo junto com a caixa de som (provavelmente viria para Seropédica!) quando, alertados por vizinhos, a família retirou o adorável quelônio do monturo e o reintroduziu ao seio do lar. Desnecessário dizer, claro está, que lá se foi a paz do bicho!

Bruno Silva

17 de janeiro de 2013

"Não pise"

"Não pise a grama" ou "Não pise na grama"? Tanto faz, contanto que você não pise! Para não pisar, aliás, nem a crase atrapalha: "Não pise à grama" está errado do ponto de vista gramatical, mas nem por isso se deve sair sapateando sobre o verde todas as vezes que a placa deixar furo! Bom, o que eu to querendo dizer é que, a rigor, não se deve pisar na grama quando houver proibição expressa (muito embora nos pareça impossível cumprir esta tola regra). Mas o que eu fiquei sabendo na semana passada me chamou a atenção: é proibído pisar nas asas dos aviões! Putz, ainda bem que isso está registrado, vai que algum desavisado...!
Fiquei discutindo o tema com minha mulher: esse aviso deve ser para os famosos demônios verdes que costumam viajar nas asas dos aviões, conforme os variados relatos, até então injustamente qualificados de fantasiosos. A razão feminina ainda quis me alertar para o fato de que aquele aviso destinava-se aos profissionais responsáveis pela manutenção das aeronaves. Não sei, não fiquei totalmente convencido. Daí vieram as instruções de vôo, e nos informaram que, no caso de um eventual problema, existiam portas de emergência sobre as asas. Mas se é proibído pisá-las! Concluímos, então, que, quando se trata de sobreviver, as vezes é preciso quebrar algumas regras (as do uso da crase, por exemplo!).

Bruno Silva

31 de dezembro de 2012

"O mundo não sabe que o ano mudou"


"O mundo não sabe que o ano mudou", dizia Artur da Távola, para lembrar que somos o único ente a comemorar o fim do ano. A data de hoje só possui significado para o ser humano, e mesmo assim não para todos. Como o mundo não acabou (e, ao que parece, não acabará muito em breve) talvez devêssemos fazer as contas do que nos espera em 2013: este fará uma dieta, aquele deixará o cigarro; esta comprará bicicleta, a outra não beberá gota alcoólica.
Parece que o branco ainda predomina sobre o amarelo nas vestes da passagem de ano. Sincero ou não, ainda é um bom sinal. O ano que se avizinha tem bagagem parecida com a de seus antecessores. Ao imprevisto é que cabem as surpresas. Fará calor, choverá de vez em quando. Indiferente ao calendário, o mundo não estará diferente em 2013. Você estará?
A paz continuará cavando seu espaço. A intolerância, pertinaz, buscará por todos os meios manter seu território... cada vez menor. Temos uma tarefa tão nobre quanto árdua: conviver na diferença. A felicidade continuará sendo a eterna busca, mas em 2013 ganhará um reforço!

Bruno Silva
                     

22 de dezembro de 2012

O fim do mundo já passou ou vamos fazer um filme?



Já tinha ouvido outras tantas vezes essa estória do mundo se acabar...

Dizia mesmo que desde que o mundo é mundo ou, antes, desde que existem seres humanos no mundo que se pensa em seu fim.

O problema estava, claro, no(s) calendário(s), que não está no mundo mas lhe é imposto pela mesma humanidade. Porque não bastava ao homem imaginar, querer, recear o fim do mundo...era preciso determinar até sua data final!

As numerologias dos anos fechados em zero ou em repetições de números, o fim dos ciclos temporais de civilizações antigas (tudo meio misturado ainda à ideia dos deuses astronautas...), o apocalipse cristão, zumbi, nuclear, meteoros, mudanças climáticas.... e lá ficava o homem, a mulher... a pensar nestas coisas todas.

Mal sabendo que o mundo se acaba a todo instante.
Que mais tempo é menos tempo.

Ou que é justo o contrário disso tudo, que o mundo se renova a cada dia que nasce...

Que pior que o mundo acabar talvez seja continuar como é. Ou aqueles cenários pós-apocalípticos...

Aliás, bem podia ser do mundo não acabar, senão nós acabarmos nele. 
Ficava daí o mundo livre sem nós.

Contudo, se diversas vezes que se disse que ia abaixo o mundo se não acabava, que desmoralização a ideia não sofria? Dava ensejo a memes, brincadeiras, "eu sobrevivi" e etcéteras...ah, e a filmes, claro!

Porém sempre ficava a ideia de que, se não foi desta vez, se pode concluir que da próxima é mais certo que ocorra...Se não chegou ainda é porque deve estar vindo...

Ps: Como esperado, já adiaram novamente o fim do mundo: o mais próximo deles está previsto para 2021, quando se espera o apocalipse ligado ao fim da inversão dos polos magnéticos... Em 2036 o asteroide Apophis pode colidir com a Terra (?). Em 2060 pode chegar o fim do mundo previsto por Isaac Newton em 1704, baseado no livro do Antigo Testamento de Daniel... Só aí temos 3 chances neste século XXI!

Walter Andrade

19 de dezembro de 2012

Papai Noel estilo Bukowski

Papai Noel terminou seu expediente no shopping center, tomou um banho ligeiro e saiu apressadamente, de chinelos e barba molhada. Vai Papai Noel, atravessa a rua fora da faixa, entra num bar:
- Porra, Santa! Até que enfim, pô! Pensei que tinha fugido no seu trenó...
- Vem cá, que porra é essa de Santa? Tá querendo ferrar comigo!? A galera escuta um troço desses e pronto: to fudido pra sempre!
Papai Noel pede um traçado de conhaque com vinho quinado e uma cerveja. Tira um maço de cigarros do bolso e acende um.
- Vou te contar, hoje foi um dos piores dias! O ar condicionado não deu vazão, um chororô de criança... teve um que peidou no meu colo!
Agora os dois estão vermelhos de tanto rir
- Peidou? Puta que o pariu! E você, disse o que?
- Rou, rou, rou! A mãe do fedelho ainda ficou rindo! Mas o pior foi um gordinho que encheu a sacola do pai, berrando e dizendo que queria tirar foto comigo. Fui pegar aquela rolha no colo e ainda tomei um pisão nos bagos! Putz, quase joguei o moleque no chão! A mãe de um outro, maravilhosa, colocou o filho em uma perna minha, sentou na outra e mandou o Zé B. do marido bater uma foto. Vou te contar, meu irmão, minha rena deu até sinal de vida!
- Aí, vida boa do caramba! Tá reclamando, mas vai passar o natal com as burras cheias de dinheiro! Aproveita e paga uma porção de calabresa pra nós.
- Escuta essa: um garotinho me contou que no ano passado ele colocou a meia dele pendurada no portão, pra ganhar presente, coisa e tal... acho que ele queria um tênis do Ben 10. Esse ano ele desistiu de fazer assim e veio falar diretamente comigo.
- O que ele queria?
- O tênis do Ben 10... e uma meia nova, porque levaram a dele no ano passado!

Bruno Silva

18 de dezembro de 2012

Crônica de Natal?

Gerard Von Honthorst:  Adoração dos Pastores. 1622
Escrever a crônica natalina é uma tarefa da qual não se pode esquivar; nem os grandes escritores, nem aquele anônimo, cujo alcance do que escreve ainda pode ser menor do que aquilo que fala para seu círculo mais íntimo. Reviste a antologia de crônicas e você encontrará tantas e tão diversas apreciações do que seja o Natal que poderá pensar que os autores referem-se a festas diferentes.
Existe a crônica de celebração: o clima familiar, a família reunida...; a crônica saudosista: o Natal perdeu seu significado...; a crônica gulosa: ah, os pratos natalinos!...; a crônica cristã-inquisidora: vocês se lembram do aniversariante?...; a cristã crítica: o natal não tem a ver com Cristo, que não nasceu no 25 de dezembro...; a crônica comunista: o papai noel representa o espírito do capitalismo e o imperialismo yankee!...; a crônica capitalista com ternura: chegou o momento de presentear aqueles que amamos!...; as crônicas dos vários pseudo-Veríssimos,...  já chega?
Num universo tão grande, é difícil se direcionar. Eu me lembro que, na minha infância o Natal e a Páscoa eram os únicos momentos em que o azeite entrava no carrinho de mercado. Lembro que a azeitona tinha caroço, e que ficávamos esperando para dar o polimento geral neles, eventualmente sendo beneficiados pela generosidade materna, que deixava passar um caroço com mais azeitona. Hoje a azeitona sem caroço domina, o que bem pode ter seus pontos positivos, tirando o fato de que ficam mais salgadas por causa da conserva. Com certeza esse incômodo passará quando a ciência nos der pílulas de azeitona, ou azeitonas de soja...  
Mas era da tarefa de ser fazer a crônica de Natal que falávamos. Depois que se escreve uma fica difícil voltar ao tema. Já disse que o natal me deixa triste, e isso não mudou. Não há o que dizer de novo, e talvez seja mais difícil ainda no ano que vem. Mas na última crônica eu não desejei feliz Natal pra ninguém, grosseria da qual vou me redimir agora: feliz Natal para todos!

Bruno Silva

8 de dezembro de 2012

Crônica tragicômica

Tendo chegado com duas horas de antecedência, esganei o quanto de tempo pude e deixei o edifício do IFCS, em direção à rua do Ouvidor, muito menos fantástica do que se crê ao terminar um livro de Machado de Assis. Entro inseguro numa confeitaria granfina: Manon. Ainda não sei o que pedir quando, para meu alívio e surpresa, alguém diz "pão na chapa e café". Que bom que não preciso saber francês! Puxo um cachorro do bolso, mas a conta não passa de R$ 2,60! Vou satisfeito para minha mesa; uma tragédia se abaterá sobre mim mas eu ainda não sei.
De volta para o edifício, um galo com uma fita amarrada em seu tornozelo passa na minha frente (13, para quem quiser o palpite). Cumpro de maneira desastrada minha tarefa e saio, atordoado, atrás de chope e bolinhos de bacalhau.
Um dia no centro do Rio de Janeiro pode ser imenso! Entro na Candelária, almoço num fast food, perambulo para lá e para cá e ainda não são duas horas. Procuro algo numa livraria e cometo uma pequena extravagância. Na saída (como escrever isso sem parecer grosseiro?) sou alvejado pelos dejetos de alguma ave de muito maus desígnios. Não acredito que tenha sido um pombo: ele precisaria ser, no mínimo, do tamanho de um chester para conseguir produzir aquela quantidade! Não. Foi alguma espécie parente dos dragões mitológicos, acometida de sérios problemas intestinais, provável habitante de uma árvore da rua Almirante Barroso.Que bom que não tenha sido um vaso de plantas! Pensando assim, o azar até que não foi tanto, e eu devo ter exagerado ao usar o termo "tragédia". De todo modo, vejo-me obrigado a tirar a camisa e a mochila e ficar, no meio de uma tarde ensolarada, em plena avenida Rio Branco, com uma barriga de caminhoneiro, à procura de alguma solução menos embaraçante. Lavo-me em plena rua com uma garrafa de água mineral e compro uma camisa, valendo-me da gentiliza de um vendedor que serviu de intermédio (eu não estava em condições de entrar num aviário, quanto menos em uma loja de roupas!)
Nm dia cão como este, após mais três horas de espera, só me sobrava afogar minhas frustrações com meu amigo no Beco das Sardinhas!

Bruno Silva

4 de dezembro de 2012

A Medicalização da Existência

Os desenhos, feitos por gente grande, já retratavam estereótipos doentios.
Minha vó, que não é intelectual, disse uma frase capital hoje, em conversa telefônica com a vó de outros netos: "Menina (sic), tá muito difícil marcar consulta! as pessoas estão mais doentes que nunca...". Olha que até rima tem, se não tiver razão também... o que tem por certo é cada vez mais brasileiros com algum tipo de seguro, como plano de saúde (em 2003 tínhamos 32 milhões de associados, hoje passam dos 47! uma ampliação de quase 50 % em 8 ou 9 anos!). Mas há mais fatores além do acréscimo de segurados e a consequente busca maior de consultas.

Estamos na encruzilhada - como dizia uma professora antropóloga não há Brasil sem encruzilhada! - entre a medicalização da existência e a hipocondria, cujo mecenato midiático da primeira é cada vez maior com programas até matutinos sobre saúde, segurança alimentar, dietas...para aqueles que acordam cedo ou mal dormem de preocupação! Ah! temos horários para os notívagos também (e sobre eles, why not?), pelo menos um programa mensal do Globo Repórter é sobre o assunto, sem falar nas demais emissoras.

O hipocondríaco é um ser fantástico. Ele é como o metafísico de Voltaire: busca gatos pretos num quarto escuro onde os não há! E pus no plural conscientemente, pois que o hipocondríaco não se satisfaz com uma doença. Inconformados com exames de rotina, fazem os extraordinários também procurando uma segunda , terceira, quarta...doença ou opinião médica, automedicando-se, usando métodos curandeiros alternativos... E com razão! ele está doente, só não entendeu que é por crer que está!, e a força da mente é tal que o seu estado de saúde doença pode mesmo ser induzido pelo que ele pensa que sofre.

Há ainda curiosos casos, como o insólito da descoberta de doenças causadas pela ingestão sistemática de alimentos industrializados. O que as empresas fizeram? Lançaram os produtos light and diet. Uau! Seus problemas acabaram! Isto se você tiver dinheiro pra pagar por estes produtos, que têm assim um diferencial comercial....Como se vê, os problemas não se criam nem se resolvem, apenas se transformam!

Vivemos um poder "mediciático" que - se pode nos fazer viver com mais saúde - pode paradoxalmente nos lançar numa corrida doentia pelo corpo perfeito.

Walter Andrade